Mais um debate de purificação linguística. Trata-se de estudar os limites da linguagem dos chamados “atos nocionais” (gerar, ser gerado, espirar, proceder) com relação à natureza divina das Pessoas da Trindade. Como usar verbos, que sempre dão ideia de movimento, de transformação, para falar do que é divino, e portanto imutável, pleno, total por natureza? Por outro lado, como explicar toda a economia interna da Trindade sem recorrer a verbos que, tendo origem nas criaturas, levam em si a marca da mutação, da transformação? Este é o debate proposto aqui: devemos atribuir os atos nocionais às Pessoas, ou trata-se, na verdade, de ações que são originadas na própria essência divina e das quais as Pessoas decorrem como consequência? Em suma, quem é o sujeito dos verbos que descrevem as ações nocionais? A hipótese controvertida é a de que o sujeito dos verbos que descrevem as ações nocionais não pode ser uma Pessoa da Trindade.

O primeiro argumento objetor afirma que, segundo Boécio, tudo aquilo que atribuímos a Deus usando as dez categorias aristotélicas, refere-se à substância, salvo apenas aquilo que se refere à categoria das Relações. Ora, diz o argumento, os verbos que denotam “ações” incluem-se exatamente na categoria da “ação”, e, portanto, quando refere-se a Deus, enquadra-se na substância. Assim, o argumento conclui que as ações nocionais pertencem à própria essência divina, e não às Pessoas.

É similar o segundo argumento objetor, mas desta vez parte de uma citação de Santo Agostinho. Ele ensina também que, para Deus, só podemos utilizar a categoria da substância e a categoria das relações. Na categoria da substância estão todos os atributos essenciais, enquanto na categoria das relações estão apenas o nome das Pessoas da Trindade e suas propriedades. Às Pessoas da Trindade, portanto, cabe atribuir apenas os nomes e as propriedades. Assim, o argumento conclui que não se deve atribuir às Pessoas os atos nocionais. Como veremos adiante, este argumento merecerá uma longa resposta, aliás o trecho mais longo deste artigo.

O terceiro argumento afirma que a categoria da ação, na visão filosófica clássica, relaciona-se com a categoria da paixão; toda ação, tudo o que é ativo, provoca um efeito em algo que é passivo, vale dizer, que sofre aquela ação passivamente – ou seja, que sofre a paixão. Ora, diz o argumento, não há como conceber nenhuma passividade em Deus. Logo, tampouco poderíamos admitir, em sua intimidade, que haja ação, ou seja, o argumento conclui que a própria ideia de atos nocionais é descabida.

O argumento sed contra cita Fulgêncio (que às vezes foi confundido com Santo Agostinho), que afirma que é muito certo afirmar que é próprio do Pai ter gerado o Filho. Pra, diz o argumento, gerar é um ato nocional, que se atribui ao Pai. Logo, o argumento conclui que é adequado atribuir os atos nocionais às Pessoas.

A resposta sintetizadora de São Tomás é breve, e o grosso do debate será travado nas respostas aos argumentos objetores iniciais. Em sua resposta sintetizadora, São Tomás vai lembrar apenas aquilo que já ficou suficientemente estabelecido ao longo de todo este tratado trinitário: é a origem que estabelece a distinção entre as Pessoas divinas, porque estabelece as respectivas relações. Ora, prossegue, não há outra maneira de falar da origem sem usar a ideia de ação, atribuindo ações às Pessoas; ou seja, é necessário usar a ideia de atos nocionais, atribuindo-os às Pessoas. Dizemos, pois, que o Pai gera, o Filho é gerado, eles conjuntamente espiram e assim por diante. Desta forma, conclui São Tomás, é necessário atribuir os atos nocionais às Pessoas.

Examinaremos agora os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor afirma que, em Deus, a categoria da ação sempre se resolve na substância, e portanto os atos nocionais devem ser atribuídos à essência divina e não às Pessoas.

Em resposta, São Tomás nos explica que há, aí, uma distinção a ser feita. Quando estamos falando da ação divina para fora, ou seja, da ação de Deus sobre a criação, originando-a, então aí a ação se resolve na substância; é Deus, em sua essência divina, que nos cria e nos governa. Este ato de originar, para fora da intimidade divina, tem que ser atribuído à essência. Mas quando estamos tratando da própria intimidade divina, tudo muda. Neste caso, é a própria ordem da origem que estabelece as relações, e estas são as próprias Pessoas. Assim, é preciso atribuir às Pessoas os atos nocionais, porque eles estabelecem as noções, próprias das Pessoas.

O segundo argumento objetor cita Santo Agostinho, para defender que, para Deus, só podemos utilizar a categoria da substância e a categoria das relações. Na categoria da substância estão todos os atributos essenciais, enquanto na categoria das relações estão apenas o nome das Pessoas da Trindade e suas propriedades. Às Pessoas da Trindade, portanto, caberia atribuir apenas os nomes e as propriedades, e não os atos nocionais.

Numa resposta longa, São Tomás começa reafirmando que nós ppdemos falar em “atos nocionais”, em “relações” e em Pessoas da Trindade. Estas três expressões têm significados diferentes, mas expressam uma única e mesma realidade, a realidade trinitária, rica demais para ser esgotada por uma única expressão humana. Atos nocionais, relações e Pessoas são, pois, modos humanos de falar de uma única realidade rica demais para ser esgotada por um só conceito. Isto é o que Pedro Lombardo dizia, no Livro das Sentenças, quando afirmava que, em Deus, a “geração” e o “nascimento”, expressões que envolvem a ideia de “ação”, podem ser chamados, a partir de outro ponto de vista, de “paternidade” e “filiação”, expressões que trazem mais fortemente a ideia de estado. Ora, diz São Tomás, a maneira mais adequada que temos para indicar que uma coisa se originou de outra é expressando esta relação de origem como uma ação, um movimento que, modificando um ser, explica que ele seja a causa da origem de outro. Esta é a única maneira que a nossa linguagem possui para expressar esta ideia de uma dinâmica pela qual um ser pode ser causa da origem de outro, ou seja, expressando, como ação, o fato de que há um ser que origina outro, ou como paixão a ideia de que um ser tem em outro a explicação de sua origem. Se, no entanto, estamos atentos para o fato de que em Deus mesmo não há movimento, nem ação, nem paixão, então esta forma de falar deve ser compreendida como a expressão do fato de que em Deus a dinâmica da origem tem uma ordem, vale dizer, há ali aquele que dá origem e aqueles que são originados. Quer dizer, excluídos mentalmente os movimentos de ação e paixão, os atos nocionais devem exprimir apenas o fato de queas Pessoas se relacionam entre si como princípio ou como principiados – não no sentido de início ou de produção, mas no sentido de dependência, ou seja, de relação mesmo. Nas Pessoas, portanto, as ações nocionais são as próprias relações, e as relações são as próprias Pessoas. A nossa linguagem usa, portanto, palavras analógicas, que expressam a realidade criada, e só imperfeitamente expressam a inteligibilidade das realidades incriadas. Ora, no mundo criatural, as ações e paixões que dão origem às relações são diferentes das próprias relações resultantes do movimento que expressam. Em Deus, porém, não há esta diferença; a sua dinâmica, porém, é impossível de ser expressada por nós senão desse modo analógico, mas sempre sob a atenção de que as palavras humanas, quando utilizadas para expressar esta realidade divina, são a um só tempo insuficientes e imprecisas. Mas, com esta atenção ao seu modo de significação, podem aproximar-nos realmente do mistério que buscamos apreender. Aquilo que em si mesmo é uma só e a mesma realidade, e no entanto é inesgotável para ser expressa por um só e mesmo conceito humano, pode ser expressor por nós através desta linguagem fragmentada, sempre com a atenção para a limitação da linguagem, para que ela não distorça em nós a adequada apreensão desses mistérios.

A terceira objeção nega a própria conveniência da ideia de atos nocionais. Ora, diz o argumento, não há como conceber nenhuma passividade em Deus. Logo, tampouco poderíamos admitir, em sua intimidade, que haja ação, ou seja, o argumento conclui que a própria ideia de atos nocionais é descabida.

A resposta a este argumento já está dada no quanto já foi debatido até aqui. De fato, diz São Tomás, a ideia de ação, como origem do movimento, implica a ideia de paixão, como termo deste mesmo movimento. Ambas as ideias são inadequadas para exprimir qualquer aspecto da divindade, perfeita, plena e imutável em si mesma. Assim, é apenas pela nossa própria pobreza intelectual humana, que implica uma pobreza linguística, que usamos validamente, ainda que apenas analogicamente e imperfeitamente, a ideia de atos nocionais para exprimir a dinâmica de principiar e ser principiado, na Trindade.