Quem vem primeiro, o ovo ou a galinha? Este é um velho dilema, uma charada que se repete em todos os tempos. Mas, mais do que um jogo infantil, esta charada lida com uma ambiguidade da expressão “vem primeiro”. Ela tanto pode ter um sentido cronológico, ou seja, pode ser uma pergunta sobre o que vem primeiro no tempo (e, nesse caso, há um círculo entre o ovo e a galinha que tende a ser resolvido, em termos do atual paradigma darwiniano, admitindo-se que um ser de outra espécie colocou, em algum momento, por mutação genética, um ovo de galinha, donde se poderia dizer que o ovo precede cronologicamente as galinhas como espécie e, portanto, cada galinha como indivíduo), ou pode ter um sentido de precedência lógica, e neste caso a galinha precede logicamente o ovo, já que, para ser um ovo de galinha, é preciso que haja, logicamente, a própria noção universal de galinha que define aquele ovo como parte do ciclo reprodutivo da espécie.
A discussão, neste artigo, é exatamente sobre esse tipo de procedência lógica.
Atos nocionais, relembrando, são aqueles verbos que descrevem a Trindade a partir de sua origem, como atos. Dentre eles estão gerar, ser gerado, espirar e proceder. As propriedades, também recordemos, são cinco: ser ingênito, a paternidade, a filiação, a espiração comum e a processão. Qual categoria tem a procedência lógica, a dos atos ou a das propriedades? A hipótese controvertida é a de que, na Trindade, os atos nocionais têm prioridade lógica sobre as propriedades.
São três os argumentos objetores iniciais, que procuram justificar a validade desta hipótese.
O primeiro argumento objetor afirma que Pedro Lombardo (que São Tomás chama de “Mestre das Sentenças” por causa de sua obra, o Livro das Sentenças, que era o manual padrão de teologia no tempo de São Tomás e que ele próprio comentou), ensinava que o Pai sempre é Pai, porque sempre gerou o Filho. Daí o argumento conclui que a geração, que é um ato nocional, precede a paternidade, que é uma propriedade. Vale dizer, o argumento conclui que o Pai é pai porque gera, e não que ele gera porque é Pai.
O segundo argumento parte de uma afirmação de natureza lógica: toda relação, diz o argumento, pressupõe algo ou alguém que se relaciona. Por exemplo, se estabeleço uma relação de comparação entre duas coisas em razão da quantidade de sua massa (este boi pesa o dobro daquele, por exemplo), esta relação fundamenta-se em algo, a saber, a quantidade de massa dos corpos dos bois. O argumento prossegue, dizendo que a paternidade é uma relação que pressupõe e fundamenta-se numa ação, a ação de gerar. Disso o argumento conclui que a propriedade de ser pai pressupõe logicamente a ação nocional de gerar.
Na mesma linha, o terceiro argumento objetor afirma que o ato de gerar está para a paternidade como o ato de nascer, de ser gerado, está para a filiação; o Filho é filho porque nasceu, diz o argumento, logo o Pai é pai porque gerou. Assim, o argumento conclui que os atos nocionais precedem logicamente as propriedades pessoais.
O argumento sed contra afirma que gerar é uma atividade da pessoa do Pai; ora, diz o argumento, é a paternidade que constitui o Pai, como já debatemos em artigos anteriores. Logo, o argumento sed contra conclui que a paternidade, como propriedade pessoal, precede logicamente o ato nocional de gerar.
No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de São Tomás.
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