Postos os termos do debate, São Tomás passa a oferecer a sua própria resposta sintetizadora.
No processo de conhecimento intelectual humano, diz ele, nós caminhamos através de abstrações. E a abstração que conduz ao conhecimento é dupla: trata-se de abstrair: 1) o universal do particular (vejo vários cães, contemplo-os e chego ao conhecimento da própria essência do “ser cão”, aplicável a qualquer cão com o qual eu venha a encontrar; ou seja, abstraio o “universal” de cão). E 2) abstrair a forma da matéria; quando eu olho, sobre a mesa de um desenhista, aqueles esquadros de mafeira, sou capaz de abstrair os triângulos, pura forma matemática, da madeira que compõe aqueles esquadros.
Há, aí, uma diferença entre estas abstrações, diz São Tomás. Quando abstraio o universal “cão”, há, implicitamente, o universal “animal” incluído nessa abstração. Mas se eu excluo mentalmente aquilo que é próprio do cão, como latir, já não subsiste, na minha abstração, a ideia específica de cão, mas apenas a ideia genética de “animal”. No caso, porém, da abstração que faço entre a matéria e a forma (o exemplo dos esquadros), ambos os princípios subsistem em nosso intelecto, quando elimino mentalmente um do outro: sibtraindo o elemento formal do esquadro, fica a sua madeira, que é o princípio material; e subtraindo o elemento material resta na mente a noção de triângulo, que é puramente formal.
E quanto ao nosso conhecimento de Deus? Em Deus não há nem universal nem particular, diz São Tomás, mas, como o conhecemos pela nossa própria maneira de conhecer, procedemos com ele de modo análogo, quando abstraímos. É por isso que São João Damasceno costumava dizer que, em Deus, a substância é análoga ao comum, e as hipóstases, análogas ao particular. Procedemos, então, de maneira análoga à que fazemos quando abstraímos o universal do particular: se desconsiderarmos, nas Pessoas divinas, as propriedades pessoais, não nos resta a noção de hipóstase, mas apenas a substância comum. Não há como conceber, em Deus, alguma hipóstase, se não incluirmos na sua noção as propriedades pessoais. Por exemplo, sem a paternidade não se pode conceber alguma coisa como a Pessoa do Pai. Não há, pois, algo como o “gênero das Pessoas divinas” cujas espécies seriam o Pai, o Filho e o Espírito Santo, especificados por suas respectivas propriedades pessoais. Excluídas as propriedades, excluem-se as próprias Pessoas, e resta apenas a substância divina una comum.
E quanto a tentar uma abstração análoga àquela entre forma e matéria? Teríamos que imaginar que as hipóstases divinas, Pai, Filho e o Espírito Santo, seriam como a “matéria” que recebe as formas, e as formas seriam as propriedades ou noções e as relações. Neste caso, diz Tomás, seria perfeitamente defensável imaginar que, abstraídas aquelas propriedades não pessoais, teríamos como conceber, de um lado, as hipóstases divinas, e, do outro, as propriedades não pessoais. Mas se abstraíssemos as propriedades diretamente pessoais, não teríamos como continuar a conceber as hipóstases divinas sem elas.
É que as propriedades pessoas não podem ser concebidas, diz Tomás, como formas acrescentadas a hipóstases preexistentes, como se fossem formas acrescentadas a uma matéria preexistente. Na verdade, diz ele, as propriedades pessoais constituem as próprias hipóstases, são, por assim dizer, sua estrutura intrínseca, porque são elas, as relações intratrinitárias, que distinguem e constituem as próprias pessoas divinas. A paternidade, por exemplo, não é algo que se acrescenta (no sentido lógico, não cronológico) a uma pessoa divina preexistente para transformá-la em Pai; a paternidade é o Pai, e pronto. Excluída, portanto, a Paternidade, não há como conceber, em Deus, a primeira Pessoa como distinta da essência divina una.
Neste ponto voltamos à discussão que já travamos no artigo anterior: alguns costumavam afirmar que a distinção entre as pessoas está fundamentada apenas na origem, e as relações são como que acrescidas às pessoas preexistentes. Assim, estes defendiam, por exemplo, que o Pai é alguém por não proceder de outrem, ou o Filho é alguém por ser gerado e o Espírito Santo é alguém por ser espirado. Para estes, as relações são uma consequência do fato de que as hipóstases divinas existem. As relações são, para estes, aquilo que dá às hipóstases a dignidade de pessoa, vale dizer, sua autonomia, sua individualidade, mas não sua distinção mesma. Assim, para estes, se excluímos mentalmente as relações da nossa mente, quanto às Pessoas divinas, já não podemos concebê-las como pessoas, mas continuamos concebendo-as como algo, como hipóstases.
Mas São Tomás nos garante que as coisas não podem ser assim. De fato, no artigo anterior, ficou demonstrado que são as relações, e não simplesmente as origens, que constituem mesmo as Pessoas. As relações não são algo acrescentado a Pessoas preexistentes. São aquilo mesmo que as constitui. Assim, retiradas as relações, as próprias Pessoas deixam de subsistir.
Esta é, portanto, a primeira razão pela qual não se pode imaginar que, abstraídas as relações, ainda pudéssemos conceber as Pessoas. A segunda, diz Tomás, é que, conforme a própria definição de pessoa, estabelecida por Boécio e recebida e defendida por Tomás, a pessoa se caracteriza por ser uma hipóstase de natureza racional.
Ora, diz Tomás, ainda que imaginássemos que, abstraindo as relações das Pessoas divinas, restasse ali uma hipóstase, se esta hipóstase tem natureza intelectual ela, por definição, já seria uma pessoa. Então a relação não teria nenhuma influência na sua pessoalidade. Se, no entanto, imaginássemos, em Deus, uma hipóstase desprovida de pessoalidade, ela seria desprovida de inteligência, o que seria inconcebível; como imaginar que, em Deus, pudesse existir algo como uma realidade autônoma desprovida de inteligência?
Assim, temos que concluir que não podemos abstrair as relações das Pessoas, em Deus, sem tornar inconcebível que reste alguma realidade autônoma na própria imanência divina, ou seja, abstraídas as relações, as hipóstases somem.
Examinemos agora as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor afirma que, quando formulamos um conceito por adição, podemos excluir mentalmente a adição e ainda resta o conceito logicamente anterior; o exemplo é o conceoto de “ser humano”, formado pela adição da noção de “racional” à de “animal”; excluída a racionalidade, resta ainda a concepção de “animal”. E o argumento quer concluir que, em Deus, a noção de “pessoa” é formada de maneira análoga, pela adição da dignidade pessoal a uma hipóstase divina logicamente preexistente. Assim, mesmo que removêssemos mentalmente a dignidade pessoal das hipóstases divinas, ainda restariam estas hipóstases como algo concebível, conclui o argumento.
São Tomás responderá que a noção de pessoalidade não é algo simplesmente acrescido a uma hipóstase divina que possa ser mentalmente concebida como “algo” de modo absoluto, independentemente da própria pessoalidade. A dignidade pessoal, no sentido da estrutura interna de distinção numa relação, é exatamente aquilo que, em Deus, constitui a própria hipóstase. Não é concebível, em Deus, a própria noção de hipóstase fora da dignidade pessoal, até porque, retirada a pessoalidade da hipóstase, retirar-se-ia dela a racionalidade, e não seria possível conceber uma hipóstase divina subsistente desprovida de inteligência – ser inteligente é da própria natureza do que é divino. Não se concebe pois, em Deus, hipóstases sem pessoalidade, como não se pode conceber pessoalidade sem relação.
A segunda objeção parte da ideia de que, uma vez que as três Pessoas têm em comum o fato de serem Pessoas, é preciso perquirir qual o elemento que elas compartilham de modo a serem igualmente Pessoas. O argumento afirma que este elemento comum não pode ser a Paternidade, já que o Filho e o Espírito Santo são alguém, mas não têm paternidade. Assim, o argumento conclui que, mesmo abstraindo a Paternidade, o Pai goza, em comum com as outras Pessoas, da característica de “ser alguém”, quer dizer, de ser hipóstase.
São Tomás responde que é pela paternidade que o Pai é pai, e é pela paternidade que ele é pessoa e é alguém (hipóstase). Mas isto não significa que as outras Pessoas divinas, por não terem a paternidade, não sejam Pessoas nem alguém; cada uma delas é Pessoa e é alguém em razão da sua própria origem e relações.
O terceiro argumento cita Agostinho, que afirma que a razão de chamarmos a Primeira Pessoa da Trindade de ingênito não é a mesma razão de chamarmo-la de Pai; disso, o argumento conclui que, mesmo que excluíssemos mentalmente a Paternidade, ainda haveria a hipóstase da Primeira Pessoa da Trindade, como ingênito. Assim, conclui que, mesmo abstraindo as relações, ainda seriam concebíveis as hipóstases.
Mas não é esta a intenção de Santo Agostinho nesta afirmação, diz São Tomás. Ele não afirmou aí que haveria uma hipóstase caracterizada por ser ingênita, ainda que removêssemos dela mentalmente a propriedade de ser pai. Ser ingênito não é uma afirmação, mas uma negação, a negação de que haja, ali, uma origem para aquele ser. Neste sentido, diz Tomás, afirmar-se da divindade que é ingênita, sem afirmar a paternidade, não é algo que seja capaz de distinguir uma Pessoa da Trindade de outra, mas apenas estabeleceria uma distinção entre a divindade, que é essencialmente ingênita, por um lado, e as criaturas, que são essencialmente originadas, do outro. Assim, digamos, um judeu (que não admite a Trindade) seria capaz de chamar Deus de ingênito, neste sentido, sem afirmar nele nenhuma hipóstase.
Provado está, pois, que, excluindo-se mentalmente as relações, desaparecem também as Pessoas divinas. Elas não são concebíveis como hipóstases sem as relações.
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