Esta é uma questão complexa, que relaciona a nossa forma de pensar e falar de Deus, de conceber a Trindade a partir da nossa própria forma de aprender e conhecer, por um lado, e aquilo que a própria Trindade é, por outro.
Assim, trata-se de saber qual a diferença real, em Deus, entre o fato de que as Pessoas são alguém, em si mesmas, como três pessoas que são, ou se o que elas são, sua personalidade mesma, coincide com as suas relações ou propriedades.
Aqui é importante lembrar que há cinco propriedades – ser ingênito, gerar, ser gerado, espirar em comum e proceder. Há, porém, quatro relações, a paternidade, a filiação, a espiração comum e a processão. Destas, três são consideradas como propriedades ou relações diretamente pessoais, como gerar, ser gerado e proceder, enquanto ser ingênito não é uma propriedade pessoal nem indica uma relação, mas constitui uma negação, a negação de origem. Além disso, a espiração comum não é uma propriedade ou relação pessoal, porque une duas pessoas em seu ato – a espiração é comum ao Pai e ao Filho.
Posto isso, vamos à hipótese controvertida. A proposta que provoca o debate é a afirmação de que, se abstrairmos mentalmente, da nossa concepção de Pessoa divina, as propriedades ou relações, ainda assim conceberíamos as Pessoas como alguém, como hipóstases; vale dizer, seria possível conceber a existência de Pessoas em Deus, mesmo que abstraíssemos delas as suas relações ou propriedades. As Pessoas divinas, em si mesmas, diz a hipótese, são alguém, mesmo que não pensemos em suas relações ou propriedades. Há três argumentos objetores em favor desta hipótese controvertida inicial.
O primeiro argumento objetor estabelece um princípio: se alguma coisa é conceituada a partir de elementos adicionados, então podemos abstrair do conceito os elementos adicionados e algo continua a poder ser concebido nessa coisa. O argumento apresenta o exemplo do conceito de ser humano como “animal racional”; se abstraímos a noção de “racional”, é possível ainda conceber algo, ou seja, dizer que aquela coisa, mesmo não sendo racional, é ainda um animal. De modo análogo, diz o argumento, a noção de “pessoa” é um elemento adicionado à noção de hipóstase, no sentido de que a pessoa é uma hipóstase com dignidade, vale dizer, com essa distinção de ser alguém além de ser simplesmente algo. Assim, o argumento conclui que, mesmo que removêssemos das Pessoas divinas as propriedades pessoais, ainda haveria ali algo, ou seja, falando tecnicamente, haveria uma hipóstase.
O segundo argumento quer introduzir uma distinção: não é pela mesma razão, diz o argumento, que o Pai é Pai e é alguém. Se fosse por ser pai que ele é alguma coisa, então o Filho, que não é pai de ninguém, tampouco seria algo. Ora, segundo o argumento, uma vez que as três Pessoas compartilham o fato de serem algo, mas não compartilham o fato de serem aquilo que é próprio de cada um deles (a paternidade, a filiação, etc.), então, conclui o argumento, abstraindo as propriedades pessoais das Pessoas divinas, elas ainda seriam hipóstases.
Por fim, o terceiro argumento cita Agostinho, que ensinava que a noção de ingênito não se identifica com a noção de Pai, já que nada impediria a Primeira Pessoa da Trindade de ser ingênita, mesmo que não tivesse gerado o Filho. E disso o argumento conclui que, se removermos mentalmente a paternidade, ainda assim a hipóstase do Pai permaneceria concebível como ingênita.
O argumento sed contra busca uma citação de Santo Hilário, que expressamente afirma que o filho não tem nada que não seja gerado, ou seja, o filho é pura filiação. Removida a filiação, portanto, conclui o argumento, nada restaria a ser pensado, no Filho.
No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de São Tomás.
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