A resposta sintetizadora de São Tomás começa de maneira direta e simples, pelo menos do ponto de vista da concepção de mundo sadiamente realista: as coisas, de fato, compartilham características comuns, que os escolásticos chamavam de “universais”. A forma de cão, por exemplo, existe de fato em todos os cães do mundo e nas mentes que, deparando-se com um cão, são capazes de abstrair sua forma a partir dos espécimes concretos e efetivamente conhecê-la. É a mesma forma de cão, portanto, que é compartilhada por todos os cães do mundo. Cada cão expressa com suas limitações e características acidentais próprias aquilo que, em essência, é uma coisa só: o ser cão.

No caso das criaturas materiais, é a matéria que individualiza os espécimes de uma mesma espécie; aqueles que, na linguagem escolástica, eram chamados de supósitos. No caso dos anjos, seres imateriais, não podem haver diversos espécimes (ou supósitos) com a mesma forma, porque eles não podem distinguir-se pela matéria, já que são incorpóreos. Assim, nos anjos, o que multiplica os supósitos é a multiplicação de formas. Cada anjo é de uma espécie diferente de todos os outros anjos.

Deus não tem matéria. Neste ponto há uma analogia entre Deus e os anjos. E Deus é, essencialmente um. Mas há três Pessoas divinas. E todas as Pessoas divinas compartilham a única e mesma essência divina. Neste ponto, cessa a analogia com os anjos, porque, nestes, há apenas um supósito de cada essência.

Assim, nos seres materiais, a matéria multiplica os supósitos. Em Deus, os supósitos são múltiplos (e neste ponto há uma analogia com as criaturas materiais) mas não há matéria para individualizá-los, para distingui-los um do outro. Então, perguntamo-nos, o que é que distingue o Pai do Filho e ambos do Espírito Santo?

Há dois critérios de distinção, diz São Tomás, que na verdade são uma só realidade vista por nós de duas maneiras diferentes. Os critérios são: 1) a origem, e 2) a relação. A origem é a distinção vista como ação, pontualmente. A relação é a distinção vista como forma, ou seja, como uma determinação inteligível, universal e permanente. Vale dizer, gerar é uma ação, mas a paternidade é uma relação, uma forma.

Por causa deste duplo aspecto, deste critério que, embora sendo uma mesma realidade, apresenta-se com duas facetas distintas, alguns estudiosos defenderam que, na verdade apenas o critério da origem determinaria a distinção das Pessoas divinas, e as relações ou propriedades seriam meras consequências das ações que originam as Pessoas. Assim, por exemplo, para tais teólogos, o Pai se distingue do Filho porque o Pai é o que gera e o Filho é o que é gerado. A paternidade, como relação no Pai, seria uma mera consequência, no Pai, dizem tais estudiosos, da ação de gerar, como a filiação, como relação no Filho, seria mera consequência de ser gerado. Segundo estes, isto se dá de modo análogo ao que existe entre as criaturas materiais: as propriedades das criaturas materiais, que tornam tão diferentes um espécime de outro (como um chihuahua e um Dinamarquês, ambos compartilhando a forma canina, mas com propriedades diferentes em razão de serem espécimes diferentes, individualizados pela matéria dos respectivos corpos) manifestam-se como consequência do princípio que os individualiza, que é a matéria, mas não representam um critério, ao lado da matéria, para a própria individualização dos espécimes (supósitos). Assim, dizem eles, as propriedades (ou noções) que caracterizam as Pessoas divinas manifestam-se em razão da origem, mas não constituem, em si mesmas, o próprio critério de distinção entre as pessoas.

Mas São Tomás nos aponta duas razões pelas quais esta posição é equivocada.

1) A primeira razão é que a distinção entre duas coisas deve ser sempre algo intrínseco às coisas mesmas. Algo que esteja nelas próprias, portanto. Mas a origem não é intrínseca às coisas; a origem, diz São Tomás, é como um caminho, um processo que se inicia numa coisa e leva à outra. Pensemos numa ameba que se reproduz por bipartição. Há, aí, quanto à origem, um processo de geração. Mas, ao termo do processo, não dá para saber qual das duas amebas é ingênita e qual é gerada, porque nada intrínseco a elas mesmas permite estabelecer nelas tais propriedades. A distinção entre elas é apenas em razão de que há duas amebas com corpos diferentes, ou seja, com materia signata diferente, mas o próprio processo de geração, por si mesmo, não permite determinar-lhes uma distinção pela relação. É por isto que o próprio processo de geração é insuficiente para estabelecer a distinção entre as Pessoas divinas, que são imateriais: a relação não é uma mera consequência do processo de origem, mas um aspecto intrínseco à distinção entre as Pessoas que, se abstraído, torna insuficiente o critério da origem para distinguir as Pessoas. É preciso, diz Tomás, que haja, portanto, um traço distintivo nas Pessoas mesmas, permanente, subsistente, que permita dizer qual delas é o Pai, qual é o Filho e qual o Espírito Santo, porque senão a origem das Pessoas seria análoga à origem das amebas: geradas múltiplas amebas por bipartição, não dá mais para saber qual delas seria ingênita e qual seria gerada, se quisermos classificá-las apenas pelo fato de existir um processo de geração.

No caso das Pessoas divinas, em que não há corpos (como há no caso das amebas), as únicas realidades intrínsecas são a própria essência divina (que não se multiplica com o processo de origem das Pessoas, permanecendo sempre uma só e a mesma) e as relações ou propriedades (como digressão, lembremos que há mais propriedades do que relações, porque é próprio do Pai ser ingênito, mas ser ingênito não é uma relação). Assim, já que não é pela essência que elas se distinguem (a essência divina é una, simples e indivisível), deve necessariamente ser pela relação. Assim, devemos concluir que a relação não é uma mera consequência da distinção resultante da origem, mas critério mesmo de distinção entre as Pessoas.

2) É preciso, em segundo lugar, ter sempre em mente que, no caso das amebas, a própria substância da ameba se divide, no processo de geração das novas amebas, distinguindo-as. No caso de Deus, como temos debatido ao longo de todos estes artigos, não se pode imaginar de forma nenhuma que haja algo que primeiro era comum e depois se divide formando as Pessoas. Na verdade, diz Tomás, a essência divina é e continua sendo indivisa, e não se pode pensar nas Pessoas divinas em termos materiais ou espaciais. A essência divina, a única e simples essência divina, é comum às Pessoas. A essência divina as unifica, enquanto as relações as distinguem sem separá-las. Temos, pois, que pensar num critério de distinção que não divina a essência, por um lado, e seja ele mesmo subsistente, ou seja, permanente, por outro.

É aqui que São Tomás vai nos lembrar que, em Deus, não há aquela divisão que há, nas criaturas, entre o abstrato e o concreto. Em Deus o abstrato e o concreto coincidem, de tal modo que falar em Divindade ou falar em Deus é dizer exatamente a mesma coisa, apenas sob outro ponto de vista. Se é assim, diz ele, então em deus dizer Paternidade e dizer Pai é dizer a mesma coisa, sob outro ponto de vista.

Assim, é concebível que a relação subsistente constitua a distinção entre as Pessoas, em Deus. E de um modo mais preciso, mais adequado, que a própria noção de origem. De fato, diz Tomás, a origem pode ser compreendida no sentido ativo ou no sentido passivo. No sentido ativo, ela significa o ponto de partida, ou seja, alguém ou alguma coisa que faz surgir outra. Neste caso, diz Tomás, ela pressupõe já a existência daquele que ativamente origina. No sentido passivo, ela significa aquele processo que faz surgir algo ou alguma coisa, e, portanto, não inclui em seu conceito a própria coisa que se originará. É por isto, diz Tomás, que é mais adequado dizer que as Pessoas divinas distinguem-se mais propriamente pela relação do que pela origem.

É por isto que quando dizemos “Pai”, falamos especificamente da pessoa divina do Pai. A Paternidade, ou o Pai, referem-se a uma relação, em Deus, e portanto constituem uma hipóstase ou Pessoa divina. Mas quando dizemos “gerador” ou “aquele que gera” estamos falando diretamente de uma origem, e, portanto, falamos, a rigor, de uma propriedade, não de uma Pessoa.

Postas estas intrincadas questões de linguagem e de conceituação trinitária, difíceis de seguir mas excelentes para dar rigor à nossa compreensão, passamos a acompanhar as respostas de São Tomás aos argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento diz que, sendo simples por excelência, não deveríamos introduzir uma distinção como a das relações, para determinar as pessoas divinas, porque isto feriria sua simplicidade. Elas devem distinguir-se por si mesmas, diz o argumento, não por algum critério que fira a simplicidade divina.

São Tomás vai responder que as pessoas são as próprias relações na sua unidade de essência. Nada aí fere a simplicidade divina, portanto.

O segundo argumento diz que as Pessoas são realidades substanciais, porque são indivíduos. Devem ser, portanto, de algum modo absolutamente diversas umas das outras, e não apenas diversificadas pelas relações; aquilo que diversifica não pode ser de um gênero diferente daquilo que está sendo diversificado. Ora, diz o argumento, a alteridade entre pessoas é absoluta, enquanto as relações, sendo acidentais, são apenas relativas (vale lembrar que “relativo” é um adjetivo derivado do substantivo “relação”).

Mas São Tomás dará um ensinamento breve, que corrige o ponto de vista do objetor. Nada de absoluto pode diferenciar as Pessoas divinas. Naquilo que é absoluto em Deus elas são uma coisa só. Elas se distinguem apenas pela sua relatividade, ou seja, por se oporem umas às outras nas respectivas relações que entre si guardam. A relação subsistente, diz Tomás, basta para distingui-las.

A terceira objeção volta exatamente a este ponto. O que é absoluto, diz a objeção, é logicamente anterior ao que é relativo. Sendo assim, prossegue, uma vez que a distinção entre as Pessoas está na ordem do ser, já que elas são uma realidade primária, em Deus, a distinção deve ser da ordem do absoluto, e não apenas do relativo, conclui o argumento. E afirma que não é apenas pelas relações que as pessoas se distinguem.

São Tomás diz que, quanto mais fundamental é uma distinção, mais próxima do fator de unidade ela deve ser. No caso das pessoas, em que elas são o que são por um só ser, que é a essência divina comum, aquilo que as distingue deve ser um critério mínimo de distinção, suficiente para fazê-las diversas entre si, mas não para fazer delas outra coisa, ou seja, uma distinção que levasse cada uma a outro ser. Por isto, diz Tomás, esta distinção deve fundar-se naquilo que as opõe sem separá-las, e isto só pode ser a relação.

Por fim, a quarta objeção afirma que a relação não pode ser, ela mesma, o critério de distinção entre as pessoas, porque, para haver relações, é preciso que aqueles que se relacionam já existam antes de relacionar-se; vale dizer, a relação já pressupõe existente a distinção entre aqueles que se relacionam, então, conclui o argumento, ela não pode ser o próprio critério de distinção.

São Tomás responde que, de fato, entre as criaturas, a relação é um acidente; é próprio do acidente “existir em outro”. Assim, entre as criaturas, a relação pressupõe a existência de um supósito, vale dizer, de um sujeito no qual ela se insere. Assim, a relação, entre as criaturas, não é critério de distinção entre supósitos, mas, ao contrário, pressupõe que os supósitos que se relacionam preexistam à própria relação que mantêm entre si.

Em Deus, porém, a relação não é um acidente; ela é substancial, e portanto subsistente. Assim, ela não pressupõe uma distinção anterior, porque, sendo subsistente e substancial, nada lhe é anterior. É por isto que em Deus a relação não pressupõe a distinção – ela implica a distinção. Vale dizer, não é preciso que haja supósitos logicamente anteriores à própria relação, de tal modo que possam relacionar-se entre si como algo acidental. Sendo substancialmente relacional, a Pessoa divina subsiste como relação e pela relação.