Já vimos, no artigo anterior, que relação, em Deus, é o mesmo que Pessoa. A questão, agora, é muito similar: são as relações que distinguem as Pessoas? Esta é uma pergunta pertinente porque, na nossa experiência criatural, não são as relações que distinguem as pessoas, mas a própria substância, ou seja, quando eu vejo um pai humano caminhando no parque com seu filhinho, eu sei que o pai é aquele sujeito alto e gordo, enquanto o filhinho é aquela pessoinha pequena e frágil. Não é por ser filho que ele se distingue do pai e vice-versa; é por ter aquele corpo que ele é outro com relação ao pai.
Mas Deus não tem corpo. Também não tem acidentes, como ser alto ou baixo, gordo ou magro, desta ou daquela cor. Tudo em Deus é substância, e substância una e simples em sua essência indivisa. Ora, se as três Pessoas divinas são substancial e essencialmente o mesmo e único Deus, como é que elas se distinguem? A hipótese controvertida aqui é a de que, qualquer que seja o critério que distingue as Pessoas, não são as relações que as distinguem.
São quatro os argumentos objetores que procuram fundamentar esta hipótese controvertida inicial.
O primeiro argumento lembra o princípio metafísico de que os seres simples se distinguem por si mesmos. De fato, entre os seres compostos de forma e matéria, é possível haver mais de um indivíduo com a mesma forma, simplesmente porque eles se diferenciam entre si pela matéria dos seus respectivos corpos. Mesmo dois irmãos gêmeos, por exemplo, são diferentes entre si porque cada um tem seu próprio corpo, sua “matéria assinalada”. Mas entre os seres que não têm esta composição, como os anjos (que são simples neste aspecto, ou seja, não são compostos de matéria e forma, mas são pura forma), não pode haver mais de um ser da mesma espécie, simplesmente porque não haveria como distingui-los entre si. A matéria, que é fator de multiplicação entre os seres materiais, não está presente, é claro, nos imateriais. Assim, os anjos, cada um deles, é de uma espécie diferente, e é assim que se distinguem. Sua distinção está ali mesmo em sua substância. Cada forma é um indivíduo.
Ora, diz o argumento, também as Pessoas divinas são simples, e portanto devem distinguir-se por si mesmas, de modo análogo aos anjos. Disto o argumento conclui que não são as relações que distinguem as Pessoas divinas.
O segundo argumento lembra que o ser se classifica em dez categorias, que são a substância e as nove categorias de acidente. Ora, prossegue o argumento, as formas se distinguem por seu gênero, isto é, é preciso descobrir a qual categoria pertence determinada forma, para distingui-la de outra. Assim, o branco só se distingue do preto no gênero da “qualidade”, porque não há uma “substância” que se possa chamar de “preto” ou “branco”. O argumento aduz, então, que as Pessoas divinas são hipóstases, vale dizer, são indivíduos, e portanto estão no gênero das substâncias. Mas as relações não estão no gênero das substâncias; então não podem servir para distinguir hipóstases entre si. Disso o argumento conclui que as relações não são aquilo que distinguem entre si as Pessoas divinas.
O terceiro argumento afirma que o absoluto sempre precede o relativo; ser alguma coisa, portanto, é condição para relacionar-se; ser é um absoluto, enquanto relacionar-se, obviamente, é relativo. Ora, as pessoas, sendo divinas, são absolutas em seu ser. Portanto, diz o argumento, não é pela relatividade, ou seja, pelas suas relações, que elas se distinguirão.
Por fim, o quarto argumento anuncia um princípio lógico: se alguma coisa pressupõe uma distinção, não pode ser o próprio critério de distinção. Assim, para haver uma relação, prossegue o argumento, é preciso que haja, desde o início, coisas já distintas entre si, porque o próprio conceito de relacionar-se envolve o referir-se a outro. Ora, se for a própria relação que faz que haja um outro, haverá uma contradição lógica, porque, para que alguma coisa se relacione, é preciso que já exista um e outro. Então, o argumento conclui que a relação não pode ser exatamente o critério de distinção entre as Pessoas, porque haveria um círculo conceitual: relacionar-se seria referir-se a outro que só existe porque se relaciona. Disto o argumento conclui que a relação não pode ser o próprio critério de distinção entre as Pessoas divinas.
O argumento sed contra traz uma simples citação de Boécio. Ele diz, pura e simplesmente, que a única coisa que distingue as Pessoas divinas é a relação. Há, pois, um argumento de autoridade, a ser levado em conta, que aponta a relação como aquilo, e somente aquilo, que distingue as Pessoas divinas entre si.
No próximo texto examinaremos a resposta sintetizadora de São Tomás.
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