Colocados os termos do debate, vamos à resposta sintetizadora de São Tomás.

Ele começa catalogando as diversas respostas que outros estudiosos têm dado sobre esta comparação entre propriedades e pessoas, na Trindade. São basicamente duas respostas que São Tomás apresenta, para criticá-las e dar a sua própria.

Lembremos que as propriedades são as cinco características que identificam as pessoas, como a inascibilidade (1), paternidade (2), espiração comum (3), filiação (4) e processão (5). As elações são quatro, paternidade (1), filiação (2), espiração comum (3) e processão (4). A inascibilidade é uma propriedade ou noção do pai, mas não é uma relação, senão a característica que ele tem de ser originário sem ser originado.

Assim, São Tomás lembra a posição daqueles que diziam que as relações não são as Pessoas, e nem sequer estão nas Pessoas. Uma vez que a relação, como categoria do ser, caracteriza-se por ser aquilo que aponta para outra coisa, como a relação de filiação az com que o ser do filho aponte para o ser do pai, então alguns disseram que a relação não está no ser, mas é algo como que anexado ao ser, porque faz referência a algo que está fora do próprio ser, ou seja, aquilo para que a relação aponta.

Esta posição foi devidamente rebatida por Tomás na questão 28, artigo 2. De fato, diz ele, a relação, concebida abstratamente, tem uma dimensão que aponta para outra coisa, e sob este aspecto ela é algo externo ao ser. Mas, falando ainda filosoficamente, ela é um acidente da coisa; logo, ela inere na coisa e tem ali o seu ser. E isto é verdade quanto às criaturas. Com relação a Deus, porém, tudo muda. A relação, diz São Tomás, é uma realidade em Deus, como estamos debatendo desde a questão 26, já que são as relações intradivinas as responsáveis por multiplicar as Pessoas na Trindade. Ora, em Deus não há acidentes. Logo, se em Deus tudo é substancial, e se a substância divina é simples, então as relações estão na própria essência divina. Ou, melhor dizendo, elas são da essência divina. Ora, prossegue Tomás, em Deus a essência é o mesmo que a Pessoa. E já debatemos isto anteriormente: há apenas uma única essência divina, idêntica à Trindade e a cada uma das Pessoas divinas. Todas e cada uma são uma só e mesma essência. Ora, se as relações são a essência, e se as Pessoas são a essência, então, em Deus, a relação é o mesmo que a Pessoa. A simplicidade divina leva necessariamente a esta conclusão.

Uma segunda resposta quer negar mesmo que as propriedades ou noções trinitárias sejam uma realidade em Deus, considerando-as como um mero modo abstrato de falar daquilo que, em Deus, é sempre concreto; assim, não existiria a paternidade, mas apenas o Pai. Assim, as Pessoas seriam concretas, reais, existentes, mas as propriedades, apenas um modo humano de falar.

Na questão 32, artigo 2, este debate foi feito, e São Tomás nos explicou, ali, que não se trata apenas de um modo de falar; ele diz que, para as criaturas, falamos em propriedades, abstratamente, para nos referir às formas, e falamos concretamente para nos referir às coisas, ou seja, aos supósitos. Mas em Deus não há essa diferença entre o abstrato e o concreto; assim, as duas formas de falar referem-se à mesma coisa, vista sob diferentes ângulos. Assim, as propriedades significam abstratamente a forma das Pessoas divinas, mas as Pessoas divinas esgotam em si tudo que suas formas contêm. O Pai é a paternidade divina, e a paternidade divina é o Pai. Assim, diz Tomás, as propriedades existem nas Pessoas e são as Pessoas. Do mesmo modo falamos da essência da divindade, abstratamente, e de Deus, concretamente, quando ambos são a mesma realidade vista sob dois pontos de vista. A divindade é Deus. A paternidade é o Pai. A filiação é o Filho.

Assim, podemos responder à hipótese controvertida inicial, dizendo que as relações, em Deus, são as Pessoas.

São Tomás passa, agora, a responder às objeções iniciais.

A primeira objeção observa que, havendo identidade entre as coisas, seu número deve ser o mesmo. Assim, se falo que há três bananas, deve haver três coisas amarelas, porque entre as coisas amarelas e as bananas há identidade. Assim, entre relações e pessoas, em Deus, segundo o argumento, não haveria identidade.

São Tomás dará, aqui, uma resposta longa.

A primeira coisa que ele diz é que, de fato, na realidade existencial, a pessoa e a propriedade são idênticas. Mas conceitualmente elas são diferentes, vale dizer, falar em pessoa e falar em propriedades ou relações em deus é falar da mesma coisa sob pontos de vistas diferentes, para expressar aquilo que, dada a sua simplicidade, não se pode esgotar com um único conceito. É assim que, à vista de um cacho de bananas, tanto posso dizer que existem três bananas como posso dizer que há ali apenas um cacho. Isto é, quando há uma diferença conceitual a regra da igualdade de número pode não se aplicar.

No caso de Deus, diz São Tomás, há ainda uma dupla identidade real que não existe nas criaturas. Ele explica.

A primeira identidade real que há em Deus e não nas criaturas é entre o concreto e o abstrato, como já explicamos acima. Nas criaturas, a matéria faz com que possam existir vários espécimes da mesma forma, como é o caso dos espécimes de uma mesma espécie (muitos ratos, muitos seres humanos, etc.). Em Deus aquilo que é concreto esgota o abstrato, porque não há composição de forma e matéria nele. A divindade (abstrata) é Deus (concreto) e vice-versa. Alguém já disse, e muito corretamente, que Deus é o universal singular, e vice-versa.

A segunda identidade real decorre de que em Deus tampouco há a composição entre substância e acidente. Ou seja, tudo aquilo que, nas criaturas, é acidente, em Deus é substância. Assim, as relações, que em nós estão classificadas como acidentes, em Deus são essenciais, estão em sua essência mesma. E como ele é simples, tudo o que nele há de essencial é idêntico a si mesmo.

Assim, as propriedades e as relações são idênticos às Pessoas, em Deus tanto porque o abstrato nele é idêntico ao concreto, como porque o acidental não existe e, na sua essência simples, o substancial é idêntico a si mesmo.

Assim, a Paternidade, em Deus, é o próprio Pai, a filiação é o próprio Filho e a processão é o próprio Espírito Santo.

E quanto à espiração comum, que não é exatamente uma propriedade pessoal, uma vez que envolve duas pessoas divinas relacionando-se com uma terceira?

Ora, é simples explicar, diz Tomás. Estamos, mais uma vez, diante da peculiar matemática divina. Do mesmo modo, diz ele, que as três pessoas são a mesma e única essência, neste caso da espiração comum a mesma propriedade subsiste em duas pessoas. Mais uma vez, trata-se de uma diferença conceitual para aquilo que existe no real sob uma maneira que não se pode verbalizar adequadamente. Ou, como diz o Catecismo, § 43, “Ao falar assim de Deus, a nossa linguagem exprime-se, evidentemente, de modo humano. Mas atinge realmente o próprio Deus, sem todavia poder exprimi-Lo na sua infinita simplicidade.”

A segunda objeção lembra o princípio aristotélico de que nada existe em si mesmo, para negar a identidade entre relação e pessoa. A relação não pode, diz o argumento, existir na pessoa como idêntica a ela, porque senão existiria em si mesma. Tampouco poderia ser idêntica à essência, porque senão multiplicaria a essência, como multiplica as Pessoas, e então teríamos três essências divinas, e não apenas uma.

São Tomás vai responder com brevidade e precisão. De fato, diz ele, quando dizemos que as propriedade relacionais estão na essência divina, reconhecemos a simplicidade da divindade, e afirmamos uma identidade. Mas quando dizemos que as propriedades estão nas Pessoas, afirmamos que elas estão ali não só por identidade, como também conceitualmente, ou seja, quanto ao modo de significar. Analogicamente, elas estão nas Pessoas como as formas universais estão nas criaturas; é a forma que determina que este animal é um leão e aquele é um macaco, e é a forma que distingue o leão do macaco. Analogicamente, em Deus, são as propriedades que distinguem uma Pessoa da outra; a distinção que Tomás usa, aqui, é a de “mera identidade” na simplicidade substancial de Deus, por um lado, e a forma de expressar a verdadeira riqueza de Deus em conceitos humanos, de outro. Os conceitos humanos, como já vimos no § 43 do Catecismo, atingem realmente Deus, mas não esgotam a expressão do que ele é.

Por fim, o terceiro argumento objetor afirma que, se duas coisas forem realmente idênticas, tudo o que eu disser de uma será necessariamente dito da outra. Mas no caso das relações e das Pessoas, diz o argumento, não é assim. Eu posso dizer que a Pessoa do Pai é a que gera, mas não posso dizer que a paternidade é que gera, diz o argumento. Logo, conclui, a relação, em Deus, não é realmente idêntica à Pessoa.

São Tomás dará uma resposta muito simples; as palavras que designam os supostos (Pai, Filho e Espírito Santo) podem ter o valor de sujeitos numa frase que atribui ação a Deus. É que estas palavras designam concretamente. Mas as palavras que significam propriedades relacionais designam as pessoas de maneira abstrata, como, analogicamente, se estivessem designando as formas das pessoas. Usando um exemplo do mundo criatural, diríamos que um animal pode comer, mas a animalidade dele não come – embora, num determinado sentido, estejamos tratando exatamente do mesmo ser (o mesmo suposto). Assim, o fato de que usemos os nomes das pessoas para falar de seus atos, e não usemos as propriedades relacionais como sujeitos de atos, não prova que eles não sejam idênticos. Prova apenas que eles significam de modo diferente. Não se pode esquecer que, em Deus, o concreto e o abstrato coincidem, mas a nossa linguagem não dispõe de recursos próprios para falar desta realidade sem multiplicar o modo de falar.