Este assunto já foi abordado, sob outro enfoque, na questão 29, artigo 4. Ali, a pergunta era, de certa forma, colocada de modo inverso àquela que se coloca aqui. Lá, o debate é se “pessoa” em Deus, significa a relação; aqui, pergunta-se a respeito da relação, se ela é o mesmo que pessoa. Em ambos os casos, está presente a preocupação com a simplicidade de Deus, em contraste com sua riqueza infinita. É uma realidade acima da nossa possibilidade linguística, mas que nos interpela fortemente com a necessidade de falar sobre ela. Não é à toa que São Tomás passe tanto tempo discutindo os ajustes na sua linguagem nos instrumentos filosóficos e linguísticos com que conta para expressar humanamente uma realidade divina tão profunda e essencial. Estes ajustes são importantíssimos para que possamos falar sobre ela, compreendê-la adequadamente, e principalmente evitar equívocos.

Como vimos, em debates anteriores, temos, em matéria de Trindade, três pessoas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Mas há cinco propriedades ou noções: é próprio do Pai ser ingênito (1), ser gerador do Filho (2) e espirador comum, com o Filho (3), do Espírito Santo. É próprio do Filho ser gerado (4) e ser espirador comum (3), com o Pai, do Espírito Santo. E é próprio do Espírito Santo proceder do Pai e do Filho (5). Há, no entanto, quatro relações: paternidade (1), filiação (2), espiração comum (3) e processão (4). O objetivo da presente questão é, portanto, estabelecer a comparação entre propriedades (ou noções), relações e pessoas. Lembrando que, embora o número de cada um destes aspectos seja diferente, eles são todos unos na essência simples de Deus. Não é um problema fácil de resolver, portanto.

O primeiro debate é proposto, aqui, com a seguinte hipótese controvertida: parece que em Deus a relação não é o mesmo que a pessoa. São três os argumentos objetores, que procuram fundamentar esta hipótese inicial.

O primeiro argumento objetor envolve exatamente esta diferença de contagem entre pessoas e relações; de fato, diz o argumento, quando as coisas são idênticas há sempre o mesmo número delas, mesmo quando simplesmente comparo seus atributos. Se há três bananas numa cesta, há três objetos amarelos, há três frutas e há três coisas com formato aproximadamente cilíndrico. Mas não é assim, diz o argumento, no caso das pessoas divinas e das relações; há mais relações do que pessoas, observa. Na pessoa do Pai, por exemplo, há duas relações, a paternidade e a espiração comum. Além disso, prossegue, a espiração comum é uma relação que existe em mais de uma Pessoa, no caso, no Pai e no Filho. Assim, conclui o argumento, relação não é, em Deus, o mesmo que Pessoa.

O segundo argumento lida com o fato de que as relações multiplicam as pessoas divinas, mas não multiplica a essência divina, mesmo sendo fato que as pessoas realmente existem numa só e mesma essência divina, ou seja, elas são realmente idênticas à única essência divina. Não há duas divindades, mas apenas uma; e há três pessoas que são um só Deus.

Considerando isto, o argumento lembra que, segundo Aristóteles, não se pode jamais afirmar que alguma coisa está nela mesma, ou seja, eu não posso dizer, por exemplo, que aquela laranja está naquela laranja. Mas as relações, em Deus, existem nas Pessoas. Assim, elas não podem ser o mesmo que “Pessoa”, em Deus, como Aristóteles adverte quanto a dizer que “algo existe em si mesmo”. Por outro lado, prossegue o argumento, se a relação fosse simplesmente idêntica à Pessoa, em Deus, ela teria que ser idêntica à essência divina, porque duas coisas idênticas entre si são também idênticas a uma terceira que seja idêntica a uma delas. Se fosse assim, diz o argumento, as relações necessariamente multiplicariam não somente as pessoas divinas, mas a própria divindade. Assim, o argumento conclui que a relação não é o mesmo que a pessoa, em Deus.

O terceiro argumento parte da ideia de que, se duas coisas forem realmente idênticas, tudo o que eu disser de uma será necessariamente dito da outra. Se eu digo, por exemplo, que Pedro Álvares Cabral era um navegador português, e que ele descobriu o Brasil, tenho necessariamente que admitir que é verdade que um navegador português descobriu o Brasil. Mas no caso das relações e das Pessoas, diz o argumento, não é assim. Eu posso dizer que a Pessoa do Pai é a que gera, mas não posso dizer que a paternidade é que gera, diz o argumento. Logo, conclui, a relação, em Deus, não é realmente idêntica à Pessoa.

O argumento sed contra cita Boécio, que diz que em Deus não há diferença entre o que ele é e aquilo pelo que ele é. Diferentemente das criaturas. Em nós, criaturas, eu posso dizer que sou pai pela paternidade que exerço, mas a paternidade mesma, como universal, ultrapassa o que eu sou como pai. Em Deus, diz Boécio, não é assim. O Pai é Pai pela Paternidade, mas a paternidade divina esgota-se completamente no Pai, logo, em Deus, a Paternidade é o Pai e o Pai é a paternidade. E do mesmo modo com as demais relações divinas e suas respectivas Pessoas. Logo, conclui o argumento, em Deus a relação é o mesmo que a Pessoa.

Veremos a resposta sintetizadora de Tomás, e suas análises dos argumentos objetores iniciais, no próximo texto.