Precisamos evitar, a todo custo, a ideia de que há dois modos de agir de Deus, um quando ele age como um ser uno, essencialmente uno, e age em unidade impessoal, outro quando age pelas Pessoas da Trindade. Deus é uno na Trindade e trino na unidade; assim, não há nada em Deus que não seja pessoal. Não há um Deus que age como uma essência impessoal monolítica, por um lado, exercitando aspectos essenciais do seu ser, e, por outro lado, um Deus que age pessoalmente como Trindade. As coisas não são assim. E não estamos falando de uma doutrina; se acreditamos realmente na Revelação trazida pela ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, trata-se, nada mais nada menos, do modo pelo qual Deus é em si mesmo.
Disto decorre a importância da doutrina das apropriações; todas as características essenciais de Deus, como seu poder, sua bondade, sua sabedoria, sua eternidade, enfim, embora sejam simples e unitários em sua essência divina, são sempre pessoais em sua expressão, quer dizer, a economia divina sempre ocorre de modo pessoal. Deus é eterno em sua pessoalidade, é poderoso em sua pessoalidade, é sábio e bom em sua pessoalidade, e por isto tudo a expressão teológica da apropriação é tão importante para penetrar profundamente no mistério da pessoalidade de Deus.
Vimos, nos textos anteriores, as quatro tríades de aspectos divinos essenciais que a tradição teológica associa com as Pessoas, e os fundamentos desta associação, que São Tomás encontra no modo humano de conhecer as coisas; não se pode esquecer que São Tomás não faz uma cisão entre o ser e o conhecer, como fazem os modernos; o conhecer, embora expresse o limite da nossa inteligência, de fato alcança o próprio ser do que se conhece. Assim, a apropriação das tríades encontra fundamento no próprio ser de Deus.
Após examinar as tríades, São Tomás passa a estudar atribuições que as Escrituras (e as Glosas Interlineares que a escolástica conhecia) fazem, atribuindo elementos essenciais ao Filho. São três – a verdade, o Livro da Vida e Aquele que é. O argumento objetor quer provar que estas apropriações são inadequadas, porque estes três elementos não seriam atributos divinos essenciais, mas aspectos pessoais, próprios do Filho mesmo.
O primeiro trecho é João 14, 6, no qual Jesus se apresenta como “o caminho, a verdade e a vida”. Ele lembra, então, que a noção de verdade centraliza-se na ideia de adequação, quer da inteligência, quer da coisa verdadeira, como já foi, anteriormente, debatido em outra questão aqui da Suma. Ora, diz São Tomás, a verdade, (quer da coisa, adequando-se à inteligência que a concebeu, quer do intelecto que, conhecendo, adequa-se à coisa conhecida), é um atributo essencial de Deus, que diz respeito à inteligência divina. E, como vimos, a inteligência divina é apropriada ao Filho. Logo, a verdade não é um atributo pessoal do Filho, mas um atributo essencial de Deus que é apropriado ao Filho. Por isto, conclui São Tomás, aquela citação de Santo Agostinho que o argumento objetor coleciona (de que “a verdade é a suprema semelhança do princípio, sem a menor diferença”) diz respeito à verdade divina tal como apropriada ao Filho. Não é, portanto, uma prova de que a verdade é um atributo pessoal do Filho.
O segundo debate, aqui, é com relação à expressão “Livro da Vida”, conforme mencionado no Salmo 40(39), 8; seria esta uma menção à própria Pessoa do Filho, ou a expressão “Livro da Vida” descreve um atributo essencial de Deus, apropriado ao Filho?
São Tomás diz que, como ele já debateu na Questão 24 desta primeira parte da Suma, a expressão “Livro da Vida” descreve o conhecimento que Deus tem daqueles que devem alcançar a salvação e entrar na vida eterna. Assim, é um atributo essencial de Deus e, como relaciona-se diretamente ao conhecimento divino, é apropriado ao Filho; mas, uma vez que, ainda que indiretamente, envolve a ideia de vida, e vida divina (na salvação), pode, por este ângulo, apropriar-se ao Espírito Santo. É que a vida, sendo movimento, é apropriada ao Espírito Santo, dinamismo de Deus. Tomás aduz ainda que o argumento se equivocou ao atribuir à noção de “livro” a característica de ser produzido por outro, insinuando que a relação de origem está presente na própria ideia de livro, e que, portanto, ele teria característica pessoal, e não essencial. A ideia de ser escrito por alguém, de originar-se de alguém, não é uma característica própria do livro, mas do livro como produção humana, de qualquer produto da inteligência. Mas o “Livro da Vida”, sendo um conhecimento divino, não tem natureza de produto. Por isto, não é algo pessoal, originado, em Deus, senão um atributo essencial que pode ser apropriado às Pessoas.
Por fim, a discussão centra-se na expressão “Aquele que é”, em Isaías e no Livro do Êxodo. A questão aqui é de exegese bíblica; a expressão “Aquele que é” é apropriada ao Filho, não em razão de sua significação própria, mas pelo contexto em que é usada; aqui, diz Tomás, há uma verdadeira prefiguração da libertação da humanidade que será realizada na Pessoa do Filho encarnado, muito depois deste episódio. O argumento objetor, no entanto, afirma o contrário; ele diz que não há, aqui, uma apropriação, mas a descrição de uma característica própria do Filho.
É preciso pensar, aqui, na ideia de “apropriação” como uma ideia relacionada com a pessoalidade da relação, em Deus, e de Deus para conosco. Deus relaciona-se sempre pessoalmente, eis o significado mais profundo da ideia de que, em Deus, a relação é a base da personalidade.
Por outro lado, é preciso lembrar que as escrituras, naquilo que chamamos de Antigo Testamento, são escrituras sagradas também para os Judeus; ora, para eles não há esta ideia de Trindade, que não foi aceita na Revelação divina trazida por Jesus. Assim, se imaginássemos que a face de Deus revelada pela expressão “Aquele que é” fosse uma face propriamente filial, no sentido de uma face pessoal do Filho, então não haveria explicação para que os Judeus nunca tivessem lido esta passagem assim. De fato, admitindo que não há, aí, uma característica própria do Filho, mas exatamente uma característica essencial de Deus que é apropriada a uma das Pessoas, entende-se que os judeus não a tenham lido como revelando uma Pessoa trinitária, mas os cristãos possam ler assim.
Assim, a ideia de que o filho é prefigurado, nesta fala a Moisés, permite estabelecer uma boa base para que a expressão “Aquele que é” possa ser apropriada, aqui, ao Filho, embora o atributo de “ser subsistente” seja essencial, em Deus.
São Tomás diz que o pronome “aquele” é sempre relativo, ou seja, aponta para alguma coisa; pode ser, diz ele, uma pessoa. Neste caso, a expressão “Aquele que é” pode, de fato, designar o Filho, se for subentendida como “o Filho é gerado sendo o que é”, ou seja, é gerado mas é o próprio ser subsistente. Mas, se tomado absolutamente, o pronome demonstrativo “aquele” não necessariamente indica uma pessoa, já que pode se referir a coisas, como “aquele animal” ou “aquela pedra”. É, portanto, uma interpretação forçada querer enxergar um atributo pessoal do Filho na expressão “aquele que é” por meio de uma interpretação gramatical do pronome demonstrativo “aquele”. “Ser aquele que é” é um atributo essencial em Deus, apropriado, neste caso, ao Filho. A própria Escritura, diz Tomás, usa o pronome demonstrativo “este” para se referir a Deus, sem expressar nenhuma ideia de pessoalidade, por exemplo, em Êxodo 15, 2: “este é meu Deus, e eu o louvarei”. Comprovado está, portanto, que, nos três casos, há a descrição de um atributo essencial de Deus apropriado, no entanto, a uma Pessoa divina.
Longo artigo!
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