Examinamos, então, as duas primeiras tríades de apropriação. Examinaremos, agora, a terceira e a quarta tríades, que dizem respeito, respectivamente, a causalidade de Deus e sua relação com as criaturas, efeito de sua causalidade.

Quanto ao poder causal de Deus, diz São Tomás, encontramos a tríade poder – sabedoria – bondade, que apropriamos ao Pai (o poder), ao Filho (a sabedoria) e ao Espírito Santo (a bondade). Não se precisa repetir que Deus é onipotente, sábio e bom por essência, e que, portanto, as três pessoas são poderosas, sábias e boas pelo mesmo poder, pela mesma sabedoria e pela mesma bondade. Há, no entanto, diz São Tomás, duas boas razões para afirmar que estes atributos essenciais divinos são mais apropriados para alguma das Pessoas do que para as outras:

1) a primeira é a razão positiva, e se funda na semelhança entre este atributo e a própria origem das pessoas. Assim, prossegue a resposta, uma vez que o Pai é princípio sem princípio, e ele mesmo é o princípio das outras Pessoas, é conveniente afirmar que o poder divino lhe é apropriado. Do mesmo modo, o Filho surge como imagem do Pai, na sua inteligência; como Palavra, ele é expressão viva da sabedoria divina. Assim, por semelhança, é apropriado associar-lhe com a sabedoria, em Deus. Por fim, o amor busca sempre o bem, diz Tomás. Ora, uma vez que o Espírito Santo é a espiração do amor divino, é adequado apropriar-lhe a bondade divina.

2) a segunda é a razão negativa, vale dizer, acentuar a dessemelhança entre as realidades divinas e a realidade criatural. Nas criaturas, os pais são normalmente velhos e enfraquecidos pela perda da juventude; assim, diz São Tomás, apropriar-se o poder ao Pai acentua a diferença entre o Pai celeste e os pais humanos. Os filhos, dentre as criaturas, são sempre inexperientes e imaturos. Assim, apropriar-se a sabedoria ao Filho, em Deus, ressalta a diferença entre o Filho de Deus e os filhos dos homens. Por fim, o espírito do mundo tende à violência e ao domínio, ao controle e à submissão do outro (neste ponto, São Tomás cita Isaías 25, 4, que registra que “o espírito dos opressores é como um aguaceiro na terra”, ressaltando o que há de destrutivo e desordenado no espírito criatural). Assim, apropriar-se a bondade ao Espírito de Deus faz ressaltar a distância entre este e aquele.

Como última palavra a respeito desta tríade, São Tomás quer explicar a citação bíblica que o argumento objetor inicial faz, no sentido de associar o poder ao Filho e ao Espírito, dissociando-o do Pai. São duas citações, a de 1 Cor 1, 24, que associa o Poder ao Filho, e lucas 6, 19, que o associa ao Espírito Santo, como força que sai de Jesus e cura a todos. São Tomás dirá que as duas citações não querem desmentir a apropriação do poder divino ao Pai, associando-o ao Filho e ao Espírito Santo; o poder divino é um atributo essencial, e indiscutivelmente opera pelo Filho e pelo Espírito Santo também. Mas, enquanto o poder de Deus, tomado em si mesmo, é apropriado ao Pai, as obras que resultam deste poder, quando manifestam-se pelo Filho e pelo Espírito Santo, são às vezes apropriadas, pela Escritura, a eles, sem que isto negue a adequação de apropriar-se o poder mesmo de Deus ao Pai.

A quarta tríade envolve a relação de Deus com sua criação, ou, como diz São Tomás, com seus efeitos. Neste ponto, precisamos lembrar da teoria filosófica das quatro causas; para Tomás, como para a filosofia grega, todas as realidades criadas são explicáveis através de quatro causas, a causa material, a causa formal, a causa eficiente e a causa final. O próprio Deus, eterno, imutável e pleno, não tem causas. Mas toda a realidade criatural as tem, e conhecê-la é conhecer suas causas.

Deus, como já vimos em outros debates, é causa primeira da criação, porque é a causa da própria causalidade criatural. A causalidade criatural deriva da causalidade divina, mas não há concorrência entre as duas, nem a superioridade da causalidade divina torna de qualquer modo menos consistente ou insubsistente a causalidade criatural. A causalidade criatural, embora derivada, é real.

Ser causa primeira, causa de todas a causalidade criatural, é próprio de Deus por sua essência mesma.

Finalmente, o quarto ponto de vista, pelo qual consideramos a Deus em relação aos seus efeitos, tem lugar a apropriação dele – por ele – nele.

Com relação ao termo “dele”, São Tomás explica que, no reino criatural, quando dizemos que alguma coisa é “de” alguma outra coisa, estamos querendo, normalmente, tratar da causa material; neste sentido, dizemos que a mesa é feita “de” madeira, ou que a estátua é feita “de” bronze. Mas não é disso que estamos falando, quando referimos a criação a Deus pelo termo “dele”. Deus não é causa material da criação, como querem os panteístas. No entanto, pode-se entender que o termo “dele” seja usado, aqui, no mesmo sentido que dizemos que uma tela é “de” van Gogh, ou que um projeto arquitetônico é “de” Niemeyer. Neste caso, referimo-nos àquele que é causa eficiente da obra; é certo que ser causa eficiente da criação é um atributo essencial de Deus. Mas é um atributo apropriado ao Pai, diz São Tomás, porque relaciona-se com o poder de Deus, e, como vimos no exame da tríade anterior, o poder de Deus é apropriado ao Pai.

O segundo elemento desta tríade é o “por ele”. São Tomás diz que a preposição “por”, relacionada à teoria das causas, pode ter o sentido de causa instrumental (que é uma causa secundária, relacionada à causa eficiente), quando explicamos aquilo que foi utilizado para ser causa eficiente. Assim, dizemos, por exemplo, que uma guerra foi ganha pelas armas, ou pela diplomacia, ou que uma cidade foi destruída pelo fogo, ou que um cirurgião opera por meio do bisturi. Quando usada neste sentido, diz São Tomás, para nos referir à relação entre Deus e sua criação, não estamos falando de um atributo essencial que é apropriado ao Filho; estamos falando de um atributo do Filho, próprio dele mesmo, e não simplesmente apropriado. De fato, diz Tomás, as Escrituras nos dizem que tudo foi feito por meio do Filho (João 1, 3), sendo certo, portanto, que o Filho, por si mesmo, guarda analogia, na sua relação com a criação, com a ideia de causa instrumental do mundo. Não imaginemos, porém, lembra Tomás, que o Filho seja uma espécie de instrumento com o qual Deus criou o mundo; não é isto. É que, uma vez que ele é princípio gerado, palavra de Deus, então é próprio do Filho ser princípio do princípio, ou seja, aquilo pelo qual todas as coisas principiam.

Isto nos pela ao outro sentido da preposição “por”, neste caso. É o sentido formal, ou seja, designa a forma pela qual o agente opera. Com relação aos humanos, poderíamos dizer que o músico toca por sua habilidade artística, como o engenheiro projeta por sua matemática ou o pintor, por sua sensibilidade estética. Neste sentido, diz Tomás, uma vez que já demonstramos que a sabedoria divina é apropriada ao Filho, devemos também dizer que a ideia de que Deus opera por sua sabedoria deve ser também apropriada ao Filho. Adequado, portanto, apropriar ao Filho o segundo termo desta tríade.

Por fim, trataremos da preposição “em”, no temo “nele” (quer dizer, “em” ele). Esta preposição tem uma conotação de continência, vale dizer, ela transmite a ideia de que alguma coisa está contida em outra. Não se trata de estar contido, aqui, no sentido de “ser parte” de outro, como poderíamos dizer que um braço está contido num corpo. Trata-se da ideia de pertencer, como dizemos que um filho sempre está contido numa família. Há duas maneiras, diz São Tomás, pelas quais podemos dizer que as coisas estão contidas em Deus, ou seja, pertencem a ele:

1) Elas lhe pertencem porque ele as concebeu na sua inteligência; como verdadeiro autor intelectual do mundo, Deus tem em si todas as coisas que existem, como o compositor tem em si todas as músicas que escreveu. Neste sentido, diz Tomás, a expressão deve apropriar-se ao Filho.

2) Elas lhe pertencem porque ele as governa, rege, cuida delas em sua providência maravilhosa, conduzindo-as bondosamente para o bem. Neste sentido a expressão é apropriada ao Espírito Santo, porque a ele também é apropriada a bondade divina.

Por fim, uma palavra sobre a causa final; Deus é a própria causa final de tudo quanto existe. Mas, diz Tomás, é preciso muito cuidado contra a tentação de apropriar-se a causa final ao Pai, como fez o argumento objetor. De fato, não se pode imaginar que o Pai seja, de qualquer modo, como que uma causa final para as outras pessoas; como já vimos, Deus, sendo eterno e imutável, não tem causas. As Pessoas existem em Deus pela própria natureza divina, não como um movimento que dele saísse e para ele voltasse, por algum tipo de decisão do Pai. A ideia de causa, portanto, não deve ser apropriada ao Pai, tanto para que não se corra o risco de imaginar que ele é como que uma causa final para as outras Pessoas divinas, quanto para que não se possa esquecer que é Deus mesmo, (Pai, Filho e Espírito Santo), que é causa final de tudo quanto existe.