Este é um artigo realmente diferente; quase um pequeno ensaio sobre a apropriação, inserido na Suma. Aqui, São Tomás nos explica como determinados atributos da essência unitária de Deus são apropriados a uma das pessoas, embora, a rigor, não seja seu, nem sequer de modo mais forte. Trata-se, diz ele, de uma maneira adequada de compreender Deus, dado o que ele é na sua Trindade santa e o que somos nós, na nossa limitação criatural.

Na sua resposta sintetizadora, São Tomás explicou, a partir do modo como conhecemos as coisas, também a maneira correta de relacionar as apropriações com o ser de Deus. Quando conhecemos alguma coisa, diz ele, a primeira pergunta que nos ocorre é saber que ela é alguma coisa. É por isto que, quando ouvimos falar de algo que está muito distante da nossa experiência cotidiana, a primeira pergunta que fazemos é: “mas isto existe mesmo?”

Em seguida, conhecemos que aquela coisa é uma coisa, não um amontoado de coisas acidentalmente reunidas. Pensemos numa criança que olhasse pela primeira vez um ornitorrinco empalhado, por exemplo. Ele poderia, razoavelmente, imaginar que aquele não era um bicho de verdade, mas apenas um amontoado de partes de outros bichos que foram costurados junto pelo empalhador – o bico de um pato no corpo de uma foca com uma cauda de castor. Teríamos que assegurar que aquele é um bicho de verdade, e que, apesar de parecer montado com partes de outros animais, ele tem unidade ontológica, isto é, integridade essencial. Em terceiro lugar, perguntamos o que é que aquela coisa faz, como opera. E, por fim, as relações que ela mantém com as outras coisas com as quais interage. São estas quatro dimensões, diz Tomás, que justificarão a apropriação de quatro tríades de atributos essenciais de Deus com as pessoas.

Vimos, no texto anterior, a análise que Tomás faz da tríade eternidade – beleza – uso, que ele relaciona com o próprio ser de Deus, numa analogia com o primeiro degrau da escada do conhecimento, que é sobre o ser da coisa. Agora, examinaremos a segunda tríade, unidade – igualdade – harmonia, que São Tomás relaciona com a unidade de Deus, coerente com sua analogia com o segundo degrau do conhecimento das coisas criadas, que acabamos de relembrar.

Deus é uno. E a partir desta unidade essencial, São Tomás resgata uma tríade agostiniana para apropriá-la à Trindade: é a tríade unidade – igualdade – harmonia. A unidade, diz São Tomás, é apropriada ao Pai, a igualdade ao filho e a harmonia ou nexo de união, ao Espírito Santo. Estes três atributos, diz Tomás, relacionam-se com a unidade essencial de Deus, embora diversamente. A própria unidade, diz São Tomás, apropria-se ao Pai, porque a unidade não pressupõe nenhuma outra característica para existir. Unidade é princípio, é só pensar na matemática. O número um é o princípio de toda contagem, indivisível em si mesmo, mas dando origem a todos os outros números. Em Deus, na Trindade, o Pai é princípio sem princípio, porque ele não pressupõe nenhuma outra Pessoa mas dá origem a todas as outras. Assim, a unidade é apropriada ao Pai.

A igualdade, por outro lado, pressupõe sempre uma comparação, e para que haja uma comparação é necessário que haja uma relação que permita a comparação. Ao Filho, sendo igual ao Pai em tudo que não é a relação que os opõe, pode-se apropriar, em Deus, a igualdade. A igualdade, como apropriada trinitariamente, não é, portanto, uma mera operação de razão no campo da identidade – como se disséssemos que Deus é igual a si próprio como qualquer coisa é igual a si própria. É certo que esta dimensão existe, já que as Escrituras nos asseguram que Deus é eternamente o mesmo, fiel a si e às criaturas. Mas na realidade trinitária a igualdade, em Deus, ultrapassa a identidade e alcança a relação de unidade entre duas Pessoas, o Pai e o Filho. Por isso, a igualdade, em Deus, é adequadamente apropriada ao Filho, diz Tomás. Ele dá um sentido rico ao que significa, em Deus, ser igual.

Por fim, a harmonia implica a dinâmica entre os dois, que os une perfeitamente; nada mais apropriado ao Espírito Santo, que procede dos dois.

Assim, diz São Tomás, pode-se perfeitamente compreender e aceitar a afirmação de Santo Agostinho, de que “os três são um, por causa do Pai, são iguais, por causa do Filho e são unidos por causa do Espírito Santo”.

Lembrando sempre de que a apropriação consiste exatamente em atribuir a uma Pessoa aquilo que é próprio da unidade essencial, e não um atributo pessoal, São Tomás faz uma analogia desta tríade com a doutrina filosófica da tripartição da alma espiritual humana.

De fato, a compreensão completa da unidade envolve, digamos assim, três camadas: a unidade simples, a igualdade e a harmonia. Como a alma, considerada como o princípio formal do ser vivo, pode ser descrita em três camadas: a vida simples dos vegetais, que envolve nascer, crescer, alimentar-se, reproduzir e morrer, já se pode chamar de “vida”, e os vegetais seriam seres vivos mesmo que não houvesse os animais com sua sensibilidade nem os humanos com sua inteligência. Assim, ainda que, por absurdo, pudéssemos imaginar que não houvesse o Filho com sua igualdade, nem o Espírito Santo com sua harmonia, teríamos a unidade no Pai.

Para que haja a igualdade no seu sentido completo, porém, é preciso reintroduzir ao menos a pessoa do Filho; sem ele, a noção divina de igualdade perderia profundidade e se resolveria na identidade, sem implicar relação. Eis porque, diz Tomás, que esta segunda dimensão da unidade é apropriada ao Filho. Mesmo que abstraíssemos o Espírito Santo seria possível conceber a igualdade com o Pai e o Filho. Como seria possível conceber a vida sensível nos animais, mesmo que não houvesse seres humanos.

Por fim, a harmonia pressupõe o vínculo real entre as duas pessoas que vivem numa dinâmica de perfeita comunhão. Ora, excluído o Espírito Santo esta dinâmica torna-se incompreensível na lógica da Trindade – é na recíproca doação que a harmonia se faz, digamos, palpável na Trindade. Assim, é pelo Espírito Santo que podemos chamar o Pai e o Filho de harmoniosamente conexos.

Como a alma humana é uma só, embora guarde em si as funções vegetativa, sensitiva e inteligente, também, usando de analogia, a Trindade, em sua unidade essencial, apropria a cada Pessoa a unidade originária, a igualdade e a harmonia.