No texto anterior, vimos como o debate foi estabelecido por São Tomás, nesta questão das apropriações. Trata-se de constatar que as apropriações são uma realidade das Escrituras e da Tradição, já que, além da própria Bíblia, grandes teólogos, como Santo Agostinho e Santo Hilário, valeram-se delas para falar sobre a Trindade Santa. Assim, a estratégia de São Tomás foi a de apresentar as quatro grandes tríades de elementos essenciais de Deus que foram, historicamente, apropriadas às Pessoas divinas pelo magistério dos santos. Este é o conteúdo dos quatro primeiros argumentos objetores. O primeiro traz a tríade eternidade – species (beleza) – uso, apropriando-as respectivamente ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. A segunda tríade, nesta mesma ordem é unidade – igualdade – harmonia. A terceira tríade é poder – sabedoria – bondade, e a quarta e última é a tríade dele – por ele – nele. Os argumentos procuram provar que não é conveniente apropriar às Pessoas estes atributos divinos. Por fim, o último argumento toma alguns trechos bíblicos que sempre foram lidos como exemplos de apropriações de atributos divinos à pessoa do Filho para tentar demonstrar que, na verdade, não se trata de apropriação, mas de mera descrição de atributos pessoais do próprio Filho.

Postos os termos do debate, portanto, trata-se, agora, de examinar a resposta sintetizadora de São Tomás que, neste artigo excepcionalmente longo e profundo, é relativamente curta. Por isto, no presente texto, examinaremos a resposta sintetizadora e a resposta à primeira objeção. Em textos subsequentes, examinaremos separadamente a resposta a cada objeção, sempre tendo em mente os critérios estabelecidos na resposta sintetizadora.

Na sua resposta São Tomás lembra logo que a nossa inteligência está calibrada para conhecer as criaturas; a partir do conhecimento delas, podemos, por analogia, chegar a conhecer alguma coisa de Deus. Não podemos conhecer Deus diretamente, muio menos expressá-lo em nossa linguagem humana, senão analogicamente, a partir daquilo que elaboramos para expressar o conhecimento que temos das criaturas. Este é um tema muito presente na Suma, e que já estudamos muito, notadamente quando acompanhamos a questão 13.

Nosso conhecimento sobre as criaturas, quando temos algum objeto diante de nós, diz São Tomás, faz-nos descobrir sobre elas quatro coisas: 1) a primeira coisa é que ela é alguma coisa, ela é um ser. 2) Em seguida, descobrimos nela a inteireza, a integridade do seu ser: descobrimos sua unidade interna. O objeto é uma só coisa, não uma mera superposição acidental de elementos. Imaginemos que vemos, ao longe, a silhueta de um ser humano; mas, quando chegamos mais perto, descobrimos que era apenas uma ilusão: o que parece cabeça é uma bola, o que parece corpo é um tronco seco de árvore. Falta a este objeto a unidade no ser. Nem sequer uma estátua ele é. 3) Descobrimos, então, como é que este objeto age, como ele é capaz de causar efeitos; quer dizer, descobrimos o que ele faz. Por fim, diz São Tomás, consideramos a relação que esta coisa tem com seus efeitos, quer dizer, com aquilo que ela causou.

É, portanto, com esta mesma metodologia que nos aproximaremos do tema das apropriações, diz São Tomás. Veremos as apropriações: 1) relativas àquilo que diz respeito a seu ser, na tríade “eternidade – species (beleza) – uso”. 2) Naquilo que diz respeito à sua unidade intrínseca, na tríade unidade – igualdade – harmonia; 3) quanto ao poder de Deus como causador, examinaremos a tríade poder – sabedoria – bondade; e 4) Quanto à relação entre Deus e seus efeitos, examinaremos a tríade dele – por ele – nele.

Passamos, então, a examinar a primeira tríade de apropriações, que o primeiro argumento objetor atribui a Santo Hilário. Segundo São Tomás, esta tríade diz respeito ao próprio ser de Deus. Ali, a eternidade é apropriada ao Pai, a beleza (species) ao Filho e o uso (ou desfrute) ao Espírito Santo.

Esta apropriação é bastante adequada, diz São Tomás. De fato, diz ele, Deus é essencialmente eterno. Eternidade, lembra Tomás, significa não ter princípio. Ora, diz Tomás, o Pai é ingênito, quer dizer, ele é o princípio da Trindade sem ter, ele mesmo, nenhum princípio. Assim, esta característica do Pai, de ser princípio sem princípio, torna adequado apropriar a ele a eternidade. O que não significa que Deus não seja essencialmente eterno e, pois, igualmente eternas as outras Pessoas trinitárias.

Nesta tríade, relativa ao ser de Deus, a species, ou beleza, ou formosura, é apropriada ao Filho. Esta apropriação também é adequada, diz São Tomás, porque a species de Deus, sua beleza, tem semelhança com as características próprias do Filho. Ele explica que a beleza envolve três aspectos:

1. A integridade, ou perfeição. Diríamos, hoje, a completude. De fato, diz Tomás, as coisas incompletas, reduzidas, diminuídas, não são belas.

2. A harmonia ou proporção. As coisas belas são harmoniosas e proporcionais. É por isto que uma pintura, um retrato elaborado por um grande pintor é algo belíssimo, mas uma caricatura não é; esta última é feita de tal modo a evidenciar desproporções e desarmonia, para fins jocosos.

3. Aquilo que São Tomás chama de claritas, que chamaríamos de nitidez, brilho, esplendor; as coisas esmaecidas, desfocadas, apagadas, não nítidas, não podem manifestar a beleza adequadamente.

E São Tomás passa a analisar as três dimensões da beleza, quanto ao Filho. De fato, diz ele, o Filho é perfeito, pleno, acabado, traz em si perfeitamente a natureza do Pai. Nele está a primeira e suprema vida, diz Santo Agostinho, citado aqui por São Tomas. Assim, atende-se ao primeiro requisito da beleza. Quanto ao segundo requisito, o Filho, sendo a imagem do Pai, retrata-o perfeitamente, com toda a harmonia e proporção. Neste sentido, diz Tomás, uma imagem, para ser considerada bela, deve ser adequada àquilo que ela retrata, ainda que a coisa retratada não seja, em si mesma, bela. É por isto que se pode fazer um quadro belíssimo com uma cena de guerra, por exemplo. No caso de Deus, belo o Pai, tem que ser belo o Filho, imagem perfeita daquele. E Sçao Tomás cita Santo Agostinho mais uma vez: “onde há tão grande concordância, e a suprema igualdade”…

Quanto ao terceiro aspecto, o Filho é o retrato nítido, brilhante, manifesto do Pai porque é o Verbo de Deus, ou, nas palavras de São João Damasceno, citado aqui por Tomás, ele é “luz e esplendor do intelecto” de Deus. Ou, como diz Agostinho, citado mais uma vez, o Filho “é o Verbo perfeito a quem nada falta, arte de Deus todo-poderoso...”

Por fim, o último elemento da tríade é o uso, apropriado ao Espírito Santo. Esta apropriação também é adequada, diz São Tomás. De duas formas, ensina ele, podemos pensar em uso, quanto a Deus; num sentido lato, que diz respeito à auto-possessão de Deus, ao império de sua vontade quanto ao seu próprio ser, este uso inclui, também, a fruição ou gozo, que é o uso com alegria, com prazer, de si mesmo. Em Deus, este uso, esta fruição alegre de si mesmo, que é da essência divina, é muito adequadamente relacionada ao Espírito Santo, que é o amor com o qual o Pai e o Filho doam-se reciprocamente e usufruem um da doação do outro, sem nenhum egoísmo, sem nenhuma exigência, mas na liberdade e na gratuidade.

No sentido estrito, o uso pelo qual nós, criaturas – em especial as criaturas inteligentes que vivem na graça – usufruímos de Deus tem toda conveniência com o Espírito Santo, que tem como um dos nomes, como já vimos, o nome de “Dom”. E mais uma vez Agostinho nos ensina que na Trindade, o Espírito Santo é a carícia do que gera e do gerado, carícia que se derrama em nós com fecundidade e abundância.

Assim, conclui São Tomás, a eternidade, a beleza e o uso, em Deus, são atributos, comuns, essenciais, que podem perfeitamente ser apropriados às pessoas; mas a essência e a operação divinas não podem ser apropriados às Pessoas, porque, em seu próprio conceito, essência e operação são comuns (comunitárias, seria mais adequado dizer aqui), e, portanto, não guardam em si nenhuma adequação com a ideia de apropriação.

No próximo texto estudaremos a segunda tríade, unidade – igualdade – harmonia.