No artigo anterior São Tomás nos deu o conceito de “apropriação”, entendido como este “tornar manifesta” a Pessoa apropriando a ela um atributo essencial. Ou, numa definição trazida no “De Veritate”, São Tomás diz que apropriar nada mais é do que dirigir o que é comum no sentido do próprio. Os atributos essenciais, como sabemos, são próprios da essência divina, e portanto são possuídos em comum pela Trindade. No entanto, tanto as Escrituras quanto os padres da Igreja costumam ressaltar que determinados atributos são mais convenientes com determinadas Pessoas, sem que de modo algum se possa imaginar que são exclusivos delas, ou mesmo que esteja nelas de modo mais forte do que nas outras. A questão, portanto, envolve conveniência, não domínio. Este modo de referir-se a Deus facilita a compreensão da Revelação e, portanto, a compreensão que temos dele. Mas não se trata apenas, disso, de um modo de falar sobre Deus; as apropriações têm fundamento na realidade de Deus, são verdadeiras para o próprio Deus, embora de uma maneira que ultrapassa infinitamente tudo o que possamos dizer sobre isto.
A discussão sobre a própria noção de apropriação, bem como sobre seus limites e conveniências já foi feita no artigo anterior. Aqui, a discussão é outra: trata-se de identificar se, na prática, a Igreja vem usando bem esta noção. Diante do fato de que, nos chamados “santos Doutores”, há diversos tipos de apropriação, e que as próprias Escrituras também fazem apropriações de atributos essenciais às Pessoas divinas, a hipótese problemática, aduzida para iniciar o debate, é a de que esta falta de harmonia e unanimidade entre as fontes teológicas revela que esses atributos vêm sendo apropriados às Pessoas de modo inconveniente, pelos santos Doutores. O debate vai trazer cinco argumentos objetores, que procuram exatamente demonstrar esta falta de coerência nas apropriações realizadas por diversas fontes teológicas (doutores da Igreja e mesmo as Escrituras). Uma vez que os próprios argumentos objetores já trazem, embora de maneira polêmica, os argumentos de autoridade, este é um artigo sem nenhum argumento sed contra.
Vamos aos argumentos objetores. O primeiro é atribuído a Santo Hilário, os três seguintes a Santo Agostinho e o último às escrituras. Eram as chamadas “tríades de apropriação”, ou seja, séries de três atributos divinos que as fontes teológicas apropriavam a esta ou aquela Pessoa. Não vamos entrar aqui na discussão a respeito da autoria das respectivas apropriações, se realmente vêm de Santo Hilário ou de Santo Agostinho; foi assim que São Tomás as recebeu.
O primeiro argumento objetor parte da tríade eternidade – species (ou beleza, no sentido de modelo de perfeição) – uso (ou desfrute). A citação de Santo Hilário diz que “no Pai está a eternidade, na Imagem a beleza e no Dom o uso ou desfrute”. O argumento passa a fazer uma análise da citação, decompondo-a em seus elementos. Percebe, desde logo, que a citação usa três nomes próprios para descrever as Pessoas: Pai, Imagem e Dom. E toma três elementos da essência divina (que são, portanto, elementos comuns às Pessoas, por sua essência), apropriando-os a cada uma das Pessoas; a eternidade de Deus ao Pai, a beleza modelar divina ao Filho e a entrega de Deus ao Espírito Santo. Mas o argumento prossegue com sua análise desses elementos divinos apropriados. Segundo sua análise, a eternidade não é propriamente um atributo divino, senão o elemento temporal do próprio ser de Deus. A species ou beleza divina também não é propriamente um atributo, diz o argumento, mas um princípio de existência; e o uso ou desfrute de Deus não é um atributo, senão a própria operação divina, o próprio modo de operar de Deus, dando-se. Assim, diz o argumento, os elementos que esta citação elenca como apropriados pelas Pessoas são a própria essência, em seu aspecto temporal e principiológico, por um lado, e a própria operação divina, por outro. E disso o argumento conclui que nem a essência, nem a operação divina são adequadamente apropriáveis pelas Pessoas trinitárias; e disso ele afirma que estas apropriações, como citadas por Santo Hilário, são racionalmente inadequadas.
O segundo argumento apresenta outra tríade, unidade – igualdade – harmonia. Traz uma citação de Santo Agostinho, que afirma: “No Pai está a unidade, no Filho a igualdade e no Espírito Santo a harmonia entre a unidade e a igualdade”. Mas o argumento considera inconveniente que se aproprie a unidade ao Pai, a igualdade ao Filho e a harmonia ao Espírito Santo. Ele lembra que, no artigo anterior, afirmou-se expressamente que “o Pai não é sábio pela sabedoria gerada”; assim, um atributo apropriado por uma Pessoa não pode ser fundamento de uma característica essencial de Deus. Mas, continua o argumento, Agostinho prossegue, dizendo que “os Três são um por causa do Pai, iguais por causa do Filho e conexas pelo Espírito Santo”. Ocorre que, segundo o argumento, se o Pai não pode ser dito “sábio” pela sabedoria do Filho, então não é conveniente, conclui, afirmar que Deus é uno por causa da unidade do Pai, ou igual por causa da igualdade do Filho, ou harmônico pela harmonia do Espírito Santo. Assim, conclui o argumento, estas apropriações são inadequadas.
O terceiro argumento volta a atribuir uma tríade a santo Agostinho. É a tríade poder – sabedoria – bondade, a tríade mais clássica e mais discutida nos escritos teológicos escolásticos. Segundo o argumento, Santo Agostinho apropriaria ao Pai o poder, ao Filho a sabedoria e ao Espírito Santo a bondade. Mas o argumento considera que esta apropriação não é razoável. O argumento toma especificamente o poder, para demonstrar que é equivocado apropriá-lo ao Pai. O poder, diz o argumento, é força. Ora, prossegue, em 1 Coríntios 1, 24, é o Filho que é chamado de “força de Deus”. Além disso, prossegue, no Evangelho de Lucas (6, 19) atribui-se a força ao espírito Santo, quando se diz, a respeito de Jesus, que “dele saía uma força que curava a todos”. Ora, conclui o argumento, se as Escrituras apropriam o poder ao Filho e ao Espírito Santo, a tríade aqui citada já começa com um erro, ao apropriar o poder ao Pai.
O quarto argumento volta a atribuir uma tríade de apropriação a Santo Agostinho. Trata-se da tríade dele – por ele – nele. Segundo o argumento, Agostinho diz que esta tríade implica uma ordem trinitária; “dele” relaciona-se com o Pai, “por ele” com o Filho e “nele” com o Espírito Santo. Mas o argumento vê como inconveniente a forma como essa tríade é apropriada às pessoas, usando a noção de “nele” para tentar provar essa inadequação. A noção de “nele”, diz o argumento (in ipso, em latim), remete à causa final. A causa final, como lembramos, no sistema aristotélico-tomista, é a primeira das causas, em poder de explicação, porque é a mais importante para saber o que alguma coisa é. A ideia, aqui é que falar que vivemos “nele” significa dizer que chegamos ao nosso fim, que atingimos o bem completo – nele, somos tudo o que um ser humano deve ser. Por isto, diz o argumento, uma vez que o Pai é o Princípio sem princípio, ele é a primeira Pessoa da Trindade, e ao Pai, e não ao Espírito Santo, seria adequado apropriar a noção de “nele”. Assim, ele conclui que esta apropriação, como proposta por Santo Agostinho, é inadequada.
Por fim, o quinto argumento é bíblico. Tenta provar, argumentando, que algumas descrições que são vistas como “apropriações” na Bíblia são, na verdade, descrições de características próprias da Pessoa do Filho, e não como atributos essenciais de Deus eventualmente apropriados a Ele. Em suma, quer provar que aquilo que tradicionalmente se vê como apropriação na Bíblia é, na verdade, mera descrição de atributos pessoais do Filho, e não apropriações. Cita o caso da verdade, que é relacionada ao Filho no Evangelho de João (14, 6): “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Cita também o caso do “Livro da Vida”, que estaria relacionada ao Filho no salmo 40 (39), 8: “No cabeçalho do livro está escrito ao meu respeito”, em trecho que, segundo a Glosa Interlinear, remete a uma fala do Filho ao Pai, como se dissesse “estou no Pai que é minha cabeça”, meu princípio. Do mesmo modo, diz o argumento, a expressão bíblica “aquele que é” remete ao Filho; cita, então, Isaías (65, 1): “a uma nação que não invocava o meu nome, eu disse ‘eis-me aqui, eis-me aqui’”. Segundo o argumento, neste ponto a Glosa Interlinear explica que aqui “fala o Filho, que aquele que disse a Moisés: ‘eu sou aquele que sou’”. E o argumento passa a tentar provar que todos estes trechos dizem respeito a atributos próprios do Filho, atributos que são pessoais dele, e não a atributos essenciais que fossem a ele apropriados pelas Escrituras. E faz uma análise dos tr~es trechos citados:
1) Quanto à verdade, em João 14, 6, o argumento lembra que Santo Agostinho, em algum lugar, define a verdade como a máxima semelhança com um princípio, sem nenhuma diferença. Ora, diz o argumento, isto descreve o Filho mesmo, e não algum atributo da essência divina que pudesse ser a ele apropriado.
2) Quanto à expressão “Livro da Vida”, no Salmo 40 (39), 8, o argumento diz simplesmente que um livro nada mais é do que o registro escrito do pensamento de alguém, e, portanto, fornece uma analogia perfeita com a Pessoa do filho, proveniente da inteligência do Pai. Não poderia representar, portanto, uma apropriação de um aspecto essencial de Deus, mas uma característica do próprio Filho.
3) Por fim, a análise que o argumento faz da citação de Isaías 65, I, é um pouco difícil de acompanhar, porque fundamenta-se na gramática latina e na glosa interlinear; ali, quando Isaías fala que Deus se dirige às nações, a glosa acrescenta que este é o Deus que disse a Moisés: eu sou aquele que é, Ex 3, 14. Ora, diz o argumento, “aquele” é um pronome, e com isto indica a pessoalidade do interlocutor. Por isto, prossegue o argumento, a fala que Deus manda Moisés dirigir aos hebreus (aquele que é me enviou até vocês, Ex 3, 14) não poderia supor a Trindade; se ele dissesse “aquele que é Pai, Filho e Espírito Santo me enviou a vocês” não estaria supondo uma Pessoa, porque nenhuma Pessoa é o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Assim, o argumento conclui que, também aqui, não há a apropriação de um aspecto essencial, quando se diz que o Filho é “aquele que é”, mas apenas a descrição de um aspecto que cabe a ele pessoalmente.
Como havíamos mencionado no início, este artigo tem uma estrutura bem diferente. É quase um ensaio sobre apropriação, inserido no Tratado sobre a Trindade. Retomando aquela imagem da Catedral medieval, com relação à Suma, poderíamos dizer que aqui estamos visitando as fundações. Belas, antigas, pouco iluminadas, mas intrigantes na sua elegância estrutural.
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