Neste artigo, estudamos o problema das apropriações. Como já vimos ao longo do nosso estudo, há atributos divinos, como a sabedoria e a bondade, que são da essência mesma de Deus, ou seja, pertencem-lhe pela unidade. Outros, como as chamadas noções trinitárias, são próprias das pessoas, como ser ingênito é próprio do Pai, ser gerado é próprio do Filho, ser espirado é próprio do Espírito Santo e assim por diante.
No entanto, sempre houve uma percepção de que certos atributos essenciais são mais convenientes a uma Pessoa do que às outras. E é assim que São Tomás inicia sua resposta sintetizadora, aqui.
De fato, diz ele, já sabemos que não há maneira de deduzir que Deus é trinitário. Não se chega a este mistério através de raciocínios, de deduções, ou seja, não é um mistério acessível sem a revelação divina. Mas, uma vez revelado este mistério, diz São Tomás, é muito mais fácil para nós compreendê-la pelos atributos da essência divina do que pelas noções próprias das Pessoas. Assim, a apropriação dos atributos essenciais divinos pelas Pessoas é muito conveniente para que possamos entrar nessa intimidade de Deus, compreender um pouco mais profundamente como ele é em si mesmo.
De fato, diz São Tomás, é muito difícil para nós relacionar, por exemplo, a noção de “não gerado”, própria do Pai, com qualquer coisa criada. Mas as noções essenciais de Deus são mais claras para nós, porque encontramos analogias mais próximas com as criaturas. Assim, a sabedoria, a bondade, o poder, são aspectos da essência divina aos quais podemos mais facilmente chegar, por meio da razão, já que a analogia com as criaturas é mais evidente. No caso da Trindade, quanto às noções próprias, esta analogia é mais distante e menos clara.
Assim, diz Tomás, este procedimento de relacionar os atributos essenciais de Deus às Pessoas chama-se “apropriação”; é importante guardar o conceito de “apropriação” trazido por Tomás, que declara que ela consiste na manifestação das Pessoas através dos atributos essenciais de Deus. A apropriação, portanto, parte dos vestígios e da imagem de Deus nas criaturas para chegar às Pessoas divinas, a partir dos atributos essenciais de Deus, por semelhança ou por dessemelhança, explica ele. E ele passa a explicar esse procedimento nas duas hipóteses (semelhança e dessemelhança):
1. Por semelhança. Assim, como o Filho procede do Pai intelectualmente, como palavra, apropriamos ao Filho os atributos intelectuais divinos, para compreender melhor a sua geração. Isto não significa, devemos nos lembrar, que o Filho é o intelecto de Deus; na verdade, o intelecto é um atributo da própria essência divina, e por isto é comum às Pessoas – elas conhecem pelo mesmo e único intelecto. Sendo, porém, a Palavra de Deus que se faz Pessoa no processo de autocompreensão, parece adequado apropriar o intelecto ao Filho. Com os devidos cuidados.
2. Por outro lado, São Tomás fala numa “apropriação por dessemelhança”, uma espécie de analogia ao contrário que torna conveniente apropriar determinadas características essenciais a uma das Pessoas. É certo que o Poder é apropriado ao Pai porque, sendo ingênito, ele é origem das outras Pessoas sem ser, ele próprio, originado por ninguém, e isto tornaria adequado apropriar a ele o Poder essencial de Deus. Mas há uma outra razão, e aqui São Tomás cita Santo Agostinho. Trata-se de evitar que se imagine o Pai como um ancião idoso e meio recluso, já enfraquecido pela idade. E isto seria, por demais, inadequado. De fato, diz São Tomás, é preciso apropriar o poder ao Pai exatamente para evitar imaginá-lo como um ancião enfraquecido, como um pai humano cujo protagonismo fosse superado pelo Filho, com o passar dos anos. Declará-lo poderoso, portanto, afasta o risco desta falsa imagem.
Tendo prestado tão belos esclarecimentos, São Tomás passa a responder às objeções iniciais.
A primeira objeção, como lembramos, parte da ideia de que a utilização de uma linguagem inadequada para falar de Deus é um risco à retidão da fé, citando São Jerônimo. Assim, o argumento diz que a própria noção de apropriação, ao atribuir diretamente a uma Pessoa aquilo que é comum às três pela unidade da essência divina poderia dar causa a erros na fé.
Mas São Tomás diz que a apropriação não é feita para vincular um aspecto da essência a uma Pessoa, de modo a fazer acreditar que este aspecto pertence a ela e só a ela. A apropriação, lembra Tomás, existe para evidenciar as Pessoas divinas, torná-las mais manifestas a nós em razão da semelhança e da dessemelhança com as criaturas, como a resposta sintetizadora explicou. Assim, diz ele, a noção de apropriação, adequadamente compreendida, não é causa de erro na fé, mas, ao contrário, manifesta melhor a verdade.
A segunda objeção, usando a linguagem da metafísica aristotélica, diz que os atributos da essência estão em Deus à maneira de formas; assim, se fosse possível apropriar os atributos essenciais às pessoas, haveria diferentes formas atribuídas às diferentes pessoas e, como as formas não se distinguem daquilo de que são formas, as pessoas se distinguiriam essencialmente umas das outras o que seria um erro de fé. Assim, o argumento conclui que não se pode apropriar aspectos da essência às Pessoas.
São Tomás vai responder para nos explicar que a noção de apropriação, tal como ele explicou na resposta sintetizadora, não implica determinar que os aspectos essenciais apropriados pelas pessoas passem a ser propriedade sua, como se lhe fossem exclusivos. E fosse assim, diz ele, as Pessoas estariam, de fato, diferenciadas pela forma. Se, por exemplo, a sabedoria de Deus fosse apropriada ao Filho de tal modo que tivéssemos que dizer que o Pai só é sábio pela sabedoria do Filho, de tal modo que somente com o Filho e no Filho o Pai fosse sábio. Se fosse assim, a forma da “sabedoria divina” estaria no Filho e não no Pai, e isto os diferenciaria essencialmente. Mas não é assim. O Filho é chamado de “sabedoria do Pai” não porque ele tenha, digamos assim, ficado dono da sabedoria de Deus, mas porque a sua sabedoria procede da sabedoria do Pai, ou seja, ele é gerado como sabedoria procedente; mas tanto ele como o Pai são sábios por natureza. Ambos são sábios por uma só sabedoria, que é a sabedoria essencial de Deus. Portanto, o Pai não é sábio pela sabedoria gerada, que é o Filho, mas pela única sabedoria divina essencial.
O terceiro argumento objetor também é metafisicamente complicado; trata-se de uma objeção fortemente baseada na lógica. O próprio, diz a objeção, é logicamente anterior ao que é atribuído como próprio, porque integra o conceito deste. Assim, digamos, o sorriso, que é próprio do ser humano, tem que ser um conceito logicamente anterior ao belo sorriso da Mona Lisa, digamos. Mas, no caso dos atributos essenciais de Deus, eles são logicamente anteriores às Pessoas, e portanto são, antes de tudo, comuns a elas, e não próprios. Assim, temos que admitir que conhecemos que Deus é bom mesmo antes ou fora da ideia de que ele é trinitário. Assim, não se poderia definir como próprio ou apropriável aquilo que, antes de mais nada, é comum.
São Tomás dará uma resposta simples; de fato, diz ele, o atributo essencial, por sua razão mesma, é logicamente anterior à Pessoa trinitária e ao que lhe é próprio. Mas, uma vez que estamos falando de lógica, nada impede que, em razão do nosso modo mesmo de conhecer, aquilo que é próprio da pessoa seja anterior àquilo que é comum e fica por ela apropriado. Assim, diz Tomás, usando de uma analogia para esclarecer, tomemos a noção de cor. Os corpos que conhecemos, sendo materiais e extenso, têm cor. Mas a noção de corpo, como extensão material, é anterior logicamente à ideia de que os corpos têm cor; primeiro, preciso conhecer que algo é um corpo, para depois inteligir que ele tem uma cor. No entanto, diz São Tomás, a cor do corpo, como cor, é logicamente anterior ao próprio corpo; eu preciso entender o que é o vermelho para depois reconhecer que aquele cubo é vermelho. A objeção, portanto, não procede. É possível conceber o que é comum como anterior ao que é próprio, sob um ponto de vista, mas também é possível conceber o que é próprio como anterior ao que é comum, sob outro ponto de vista.
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