Esta é uma daquelas questões que nos parecem muito profundas e distantes, de difícil compreensão; mas a discussão aqui é importante. Estamos no tema das apropriações. Trata-se de descobrir que determinados aspectos essenciais em Deus, embora presentes em sua essência, e portanto de modo comum em todas as Pessoas, são mais adequadas a esta ou aquela Pessoa. É neste sentido que a discussão teológica clássica fala em “apropriações”. De fato, já vimos, anteriormente, as “noções”, quer dizer, aqueles aspectos que são próprios das pessoas. Ao Pai, cabem as noções de ingênito, gerador e espirante comum. Ao Filho, cabe ser gerado e espirar de modo comum com o Pai. E ao Espírito Santo cabe a noção de processão, ou seja, cabe a ele a ideia de proceder. Não há dúvidas, pois, de que, quanto às noções, estamos falando de aspectos personalíssimos, ou seja, por assim dizer, caracterizadores das pessoas e intransferíveis. Há, no entanto, outros aspectos que, embora comum, associam-se mais propriamente a uma Pessoa do que a outra, embora, na realidade, sejam aspectos essenciais em deus, e portanto próprios às três Pessoas. É assim, por exemplo, que podemos dizer, por um lado, que Deus é amor, mas costumamos associar mais propriamente o amor à pessoa do Espírito Santo. Trata-se, diriam os antigos, de uma apropriação.
Mas as apropriações são adequadas? É correto falar em apropriações? Podemos realmente atribuir um aspecto comum da essência divina a uma das Pessoas de modo verdadeiro? A hipótese controvertida aqui é a de que estas apropriações são inadequadas, e que, portanto, não poderíamos atribuir aspectos essenciais de Deus às Pessoas, como propriedades delas. Há três argumentos objetores, no sentido desta hipótese controvertida inicial.
O primeiro argumento usa uma citação meio genérica de São Jerônimo, na qual ele adverte que o uso temerário da linguagem teológica pode conduzir à heresia. E passa a argumentar que quando se apropria um determinado aspecto da essência de Deus a uma das Pessoas (como o amor ao Espírito Santo, segundo o exemplo acima), pode levar alguém a entender mal a própria fé. Poder-se-ia entender, diz o argumento, que este aspecto é conveniente somente a esta pessoa, como se o Pai não amasse e o Filho não amasse, mas apenas o Espírito Santo; ou mesmo que é mais adequado falar de amor para relacioná-lo ao Espírito Santo do que às outras Pessoas, o que seriam erros de fé. Assim, o argumento conclui que não é adequado apropriar aspectos da essência às Pessoas.
O segundo argumento é mais metafísico. Ele lembra que estes atributos divinos essenciais, como o poder, a sabedoria, o amor, a bondade, quando falamos deles abstratamente, falamos de um modo analógico àquele pelo qual, no mundo das criaturas, nós nos referimos às formas das coisas. Se todas as criaturas são compostas de matéria e forma, é certo que atributos como o poder, a sabedoria e outros do mesmo tipo são atributos da forma, não da matéria.
No caso de Deus, no entanto, há uma só e mesma forma, a forma divina, que é compartilhada pelas três Pessoas. Elas se distinguem entre si, e se individualizam, apenas pela relação, que em Deus é subsistente, e não pela forma, que é apenas uma e única, em Deus. E é daqui que o argumento parte. Ora, diz o argumento, se pudéssemos apropriar os atributos de Deus, tomados abstratamente, às Pessoas, estaríamos atribuindo formas distintas a cada uma delas, já que a forma pertence ao sujeito, e dele não se distingue. Teríamos, portanto, que admitir que há distinção formal, e não apenas relacional, entre as Pessoas divinas. Assim, digamos, seria próprio do Filho ser sábio, e não do Pai e do Espírito, e portanto, a forma da sabedoria não se distinguiria da forma do Filho e, portanto, teríamos que admitir que a individualização do Filho não se dá apenas pela relação de origem, mas pela posse de uma forma, a sabedoria, que as outras Pessoas divinas não possuem. Assim, o argumento conclui que não seria adequado atribuir estes aspectos da essência divina, mormente se tomados em abstrato, em apropriação às Pessoas.
O terceiro argumento trata da ordem lógica dos termos que se referem a Deus. Ou seja, quais termos são pressupostos por outros. Não se trata, aqui, de uma ordem cronológica, de modo que pudéssemos imaginar que, em Deus, a essência pudesse vir antes das Pessoas, mas de uma ordem lógica, vale dizer, de descobrir quais termos traduzem realidades fundamentais, que são pressupostas por outro termo. Assim, prossegue o argumento, a noção de “próprio” necessariamente tem que preceder a noção de “apropriação”, porque alguém só pode apropriar-se de algo quando estiver clara a noção de “próprio”. Assim, o “próprio” deve vir logicamente antes da apropriação. Mas ocorre que o comum é logicamente anterior ao próprio, e a essência é logicamente anterior às Pessoas. Assim, se algum atributo é comum e essencial, ele não pode ser apropriado pelas pessoas, porque senão ele não poderia existir como comum e essencial depois de ser próprio e pessoal. Assim, o argumento conclui que não se pode apropriar os atributos essenciais às pessoas.
O argumento sed contra faz uma citação bíblica (1 Cor 1, 24): “Cristo é poder de Deus e sabedoria de Deus”. Ora, o poder e a sabedoria são atributos divinos essenciais, e são atribuídos (ou apropriados) por São Paulo à pessoa do Filho. Assim, deve ser adequado apropriar os atributos essenciais às Pessoas.
No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de São Tomás, e suas respostas aos argumentos objetores iniciais.
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