Deus escapa de todas as categorias humanas. Na verdade, ele escapa de todas as categorias criaturais. Miraculosamente, porém, ele se fez homem, e estabeleceu uma relação conosco. A partir daí, sem deixar de ser Deus, ele dialoga, faz-se um de nós, faz-se conhecido. E inaugura, nesta relação, a necessidade de conhecê-lo, de falar adequadamente sobre ele, a partir de inteligências criaturais limitadas, de uma linguagem criatural desenvolvida para falar de outras coisas. Não é à toa, portanto, que São Tomás se preocupa tanto sobre a maneira de falar sobre este profundo mistério divino que é a Trindade; talvez o mais difícil de ser compreendido pelo pensamento humano. Mas nós recebemos este mistério por revelação. Devemos, portanto falar sobre ele. Falar é conhecer. Falar bem é conhecer bem.

O debate, aqui, diz respeito à possibilidade de predicar as pessoas dos nomes essenciais concretos, isto é, numa proposição que tenha “Deus” como sujeito, podemos ter “as três pessoas”, ou mesmo a Trindade, como predicado, de modo a formar uma proposição como “Deus é as três pessoas”, ou “Deus é a Trindade”.

A matemática da trindade não é fácil. Ali onde há a perfeita unidade também há os três, que, como relações subsistentes, multiplicam as personalidades sem multiplicar a própria essência. Se a essência de Deus é a divindade, então cada pessoa é a divindade toda, mas os três são a mesma divindade toda. Com isto em mente, podemos tentar caminhar para a resposta de São Tomás nesta questão.

Vimos, na resposta ao quinto argumento objetor do artigo anterior, que, com relação à essência, na sua concepção abstrata, podemos predicar as Pessoas, porque as pessoas são realmente idênticas e ela. O Pai é a essência, o Filho é a essência, o Espírito é a essência, o Pai e o Filho, espirando em comum, são a essência. Cada um é a essência e todos são a essência. Não há outra divindade senão a divindade das pessoas, que é indivisível. No entanto, como vimos no artigo anterior, não podemos atribuir à essência as qualidades próprias das pessoas, ou seja, aquilo que é atribuído a elas a modo de adjetivo. Assim, não poderíamos dizer que a divindade é gerada, ou que espira, mas podemos perfeitamente dizer que a divindade é a Trindade, porque há, de fato, perfeita identidade entre as duas coisas. Também podemos dizer que a essência é o Pai, ou que é o Filho, ou que é o Espírito Santo, ou mesmo que é os três.

Ora, prossegue são Tomás, o substantivo abstrato “essência”, que significa a divindade, designa (ou, mais tecnicamente, supõe) Deus em sua concretude existencial. Somente Deus é a divindade, não há divindade ali onde não há, concretamente, Deus. Se é assim, diz São Tomás, eu tanto posso dizer que a divindade é essencialmente Pai, ou essencialmente Filho, ou mesmo essencialmente Espírito Santo, como posso usar, neste caso, o substantivo concreto “Deus” e dizer que Deus é a Trindade, ou que é Pai, ou que é Filho, ou que é o Espírito Santo. Estas proposições são verdadeiras, é a conclusão de São Tomás.

Apenas como comentário, aduziríamos que está bem demonstrado que não há divindade fora da Trindade e vice-versa. Não existe algo como um Deus que é uno na hora de criar, mas é trino para nos redimir. É a Trindade que cria, é a Trindade que redime, é a Trindade que é Deus e pronto. Não há outra maneira de compreender como Deus pode ser essencialmente amor senão compreendendo esta maravilhosa dinâmica de ser outro sendo ele mesmo.

Passamos, então, a examinar as respostas de São Tomás às objeções iniciais.

A primeira objeção faz uma analogia entre a noção universal de “homem”, com relação aos indivíduos humanos, e a noção de Deus, com relação às Pessoas divinas. Se não se pode afirmar corretamente que algum homem, como Sócrates, Platão ou seu José da esquina, é o “homem”, tomado universalmente, daí o argumento conclui que não se pode dizer que as pessoas, mesmo as três tomadas em conjunto, esgotariam a noção universal de “Deus”. Disto o argumento conclui que a proposição “Deus é as três pessoas” seria falsa.

São Tomás vai responder que esta analogia deve ser entendida com muito cuidado. Ele explica que o termo “homem” pode, de fato, ser usado para designar um indivíduo concreto; pensemos em Pilatos apontando para Jesus e dizendo: “eis o homem!” (Jo 19, 5). Mas, quando se acrescenta algum elemento à noção, de modo a deixar claro que estamos falando universalmente (quando se diz, por exemplo, “todo homem”), aí a noção já não pode designar um indivíduo certo. Neste caso, a noção se refere à própria natureza comum do ser humano, e não pode ser suposta individualmente de nenhuma pessoa humana, individualmente tomada.

No caso de Deus, não há diferença entre o termo Deus e o termo “essência”, senão, como já vimos em artigo anterior, pelo modo de significar. Assim, de fato, se construímos a proposição “Deus é a Trindade”, esta proposição não pode supor nenhuma das pessoas trinitárias tomada em sua pessoalidade individual, porque nenhuma delas é, em si mesmo, a Trindade. Mas, uma vez que ser Trindade é a própria essência de Deus, a proposição é verdadeira. Assim, é uma proposição verdadeira em seu significado, mas que nos deve ser objeto de muito cuidado quanto à suposição. Ela não pode jamais supor uma, ou mesmo duas, das Pessoas divinas. Por não ter atenção a estas peculiaridades, diz São Tomás, o Bispo Gilberto Porretano preferiu defender que a proposição “Deus é a Trindade” seria falsa, mas ela só é falsa quando supõe (ou designa) uma Pessoa na forma que a resposta agora explica. Porretano errou, diz Tomás, em defender que ela seria falsa sempre.

O segundo argumento objetor também parte de uma analogia. Ele toma as noções de “gênero” e “espécie”, lembrando que a noção de “gênero” é sempre muito mais extensa do que as “espécies” que ele congrega. Assim, a noção de “gênero” estaria um grau acima das respectivas espécies que estão contidas nele. Por isto, diz o argumento, é somente por acidente que predicamos uma espécie (noção inferior) de um gênero. Assim, se eu disser que um animal é um homem, tenho que reconhecer que é apenas por acidente que aquele animal que vejo ali é um homem, já que ele poderia ser igualmente um macaco, ou mesmo um urso, e continuaria a ser um indivíduo essencialmente pertencente ao gênero animal, embora circunstancialmente não pertença à espécie humana. Disto, o argumento conclui que, como a noção de Deus é como um conjunto que congloba em si as três Pessoas, ela é uma noção comum, superior à noção das Pessoas de maneira análoga àquela pela qual os gêneros são superiores às espécies. Disto, o argumento conclui que as proposições que predicam as Pessoas do nome de Deus só são verdadeiras por acidente.

Mas não é assim, diz São Tomás. Esta analogia não funciona. A palavra “Deus” não designa algo analógico a um gênero do qual as Pessoas fossem as espécies, ou mesmo a um conjunto do qual as Pessoas fossem os elementos. Quando dizemos que “Deus é o Pai”, não estamos dizendo algo nem remotamente analógico ao que dizemos quando afirmamos que um animal, por acidente, é um elefante. Não se rata de atribuir um elemento a um conjunto, ou um espécime a uma espécie, mas de afirmar uma identidade. Em Deus, diz São Tomás, não há, a rigor, universal ou singular – Deus transcende estas categorias. Na sua simplicidade, tudo em Deus é identidade. Assim, quando dizemos que o Pai é Deus, ou que Deus é o Pai, não é que o Pai seja um elemento daquilo que significa ser Deus, um elemento acidental; é que o Pai, o Filho e o Espírito santo são deus por identidade, e Deus é as pessoas Trinitárias por identidade, e cada uma delas é Deus por identidade, e de cada uma delas podemos predicar a própria divindade indivisível, e da divindade indivisível e una podemos predicar qualquer uma delas, conjunta ou separadamente, ou a Trindade. Em nenhum destes casos, diz São Tomás, haverá predicação acidental, senão sempre essencial. Este é mais um exemplo de que, em Deus, nem a teoria matemática dos conjuntos funciona. Deus, na sua divindade, não é a soma das pessoas, ou um agregado de singularidades. Na Trindade, Ele é um. E pronto.