Vê-se, nesta questão, o cuidado de São Tomás para com a linguagem que utilizamos para falar da relação entre as Pessoas e a essência divina. É que a linguagem, para Tomás, não é uma mera convenção, mas a expressão precisa da realidade. Falar bem é descrever corretamente a realidade sobre a qual se fala e, no caso de Deus, este é um desafio ainda maior, já que a nossa linguagem é claramente inadequada para exprimir completamente a divindade. Desenvolvida para tratar das criaturas, somente de modo analógico ela é utilizada na teologia; eis porque todos os cuidados de São Tomás são necessários. Eles ajudam a compreender e transmitir adequadamente a fé revelada, defendê-la de quaisquer ataques e, principalmente, conhecer melhor aquele que é o sujeito da nossa esperança.
A questão aqui é se poderíamos dizer que “Deus é as três Pessoas”, ou que “Deus é a Trindade”. A hipótese controvertida é a de que não se pode construir uma proposição assim, ou seja, que não poderíamos predicar diretamente as Pessoas, ou a Trindade, de um nome essencial concreto como “Deus”; porque, segundo esta hipótese, uma proposição assim, como “Deus é a Trindade”, seria falsa. O que está em jogo, aqui, portanto, é, de certa forma, descobrir se a Trindade, em sua pessoalidade trina, “esgota” Deus, ou se há algo na própria noção de Deus que ultrapassa a Trindade, por seu modo de significação ou mesmo na própria realidade divina. Questão importantíssima, portanto.
Estabelecida a controvérsia, São Tomás recolhe dois argumentos objetores iniciais.
A primeira objeção toma uma analogia com as criaturas, especificamente com a espécie humana. Diz o argumento: se eu construísse uma proposição como “Sócrates é o homem“, quer dizer, um certo homem é “o homem“, esta proposição seria falsa, porque nem Sócrates (nem nenhum indivíduo humano) esgota em si o ser homem, mesmo que fossem somados a todos os indivíduos humanos. Analogicamente, diz o argumento, também não poderíamos dizer “Deus é a Trindade”, porque nenhuma daquelas pessoas designadas (ou supostas) pelo termo Deus (o Pai, o Filho ou o Espírito Santo), ou mesmo a própria Trindade unida, esgota em si a divindade. Assim, diz o argumento, a proposição “Deus é a Trindade” deve ser falsa.
O segundo argumento também quer fazer uma analogia; no caso, entre as noções criaturais de gênero e espécie e a noção teológica de Deus e das Pessoas da Trindade. O argumento afirma a regra lógica de que as categorias inferiores não podem ser predicadas das superiores, a não ser acidentalmente; assim, por exemplo, se o gênero é uma categoria superior, a espécie seria uma categoria inferior; portanto, se eu digo que “um animal é um ser humano“, estou formando uma proposição em que o inferior (a espécie humana) é predicado do superior (o gênero animal). De fato, um ser humano é sempre um animal, mas nem todo animal é um ser humano. Então é apenas por acidente, por um caso fortuito, que determinado animal é um ser humano e não, digamos, um cavalo ou uma vaca. O argumento prossegue, e cita São João Damasceno para afirmar que o termo “Deus” está para as Pessoas divinas como o gênero está para as espécies; então, o argumento conclui que é só por acidente que a proposição “Deus é as três Pessoas” pode ser verdadeira.
O argumento sed contra cita Santo Agostinho, que afirma que a nossa fé determina que a Trindade una é um só e mesmo Deus. Considera, então, que há uma unidade de suposição, de extensão mesmo, entre o termo Deus, por um lado, e a Trindade em sua pessoalidade trina, por outro. Não há nada, portanto, no termo Deus, segundo este argumento, que não esteja contido na pessoalidade Trinitária.
No próximo texto examinaremos a resposta sintetizadora e as respostas específicas aos argumentos iniciais.
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