Examinada, então, a bela resposta sintetizadora de São Tomás, passamos a estudar suas respostas específicas às objeções iniciais.

A primeira objeção cita Santo Agostinho, que numa certa passagem usa, para designar o Pai e o Filho, substantivos essenciais abstratos como “sabedoria da sabedoria”, ou “essência da essência”. Deste uso de Santo Agostinho, o argumento quer concluir que os substantivos essenciais abstratos podem supor (ou designar) as Pessoas trinitárias.

A resposta de São Tomás é muito interessante; ele tem um enorme respeito por Santo Agostinho, e não vai dizer que Agostinho errou. Então, ele nos explica que mesmo os santos doutores da Igreja costumavam (e costumam) usar, às vezes de figuras de linguagem um tanto enérgicas, com fins pedagógicos, para nos fazer entender a unidade da essência e das pessoas; não devemos, portanto, entender literalmente a expressão de Santo Agostinho, senão recebê-la como uma figura de retórica, como um excesso de linguagem, além dos limites que seriam normais na matéria. Quando nos deparamos com expressões assim, diz Tomás, não devemos tomá-las como exemplos ou regras, mas como algo a ser analisado e explicado.

Assim, diz Tomás, quando nos deparamos, em santo Agostinho, com expressões como “essência da essência” ou “sabedoria da sabedoria”, que parecem dar a entender a conveniência de usar substantivos abstratos para designar as próprias Pessoas divinas, na verdade devemos entendê-las como se pudessem ser desdobradas assim: “O Filho, que é a própria essência e sabedoria divinas, procede do Pai, que é a própria essência e sabedoria divinas”.

São Tomás ressalta ainda que, mesmo no caso de tais substantivos abstratos, pode-se discernir uma ordem na linguagem. Embora Deus seja essencialmente simples, a nossa linguagem, para exprimir sua riqueza, aplica a ele substantivos abstratos referentes à essência em si mesma (como é o caso de “divindade”), mas também substantivos abstratos referentes a atos (no sentido de perfeições), e estes nomes são mais próximos das Pessoas divinas, porque os atos (como sabedoria, natureza, etc) supõem as Pessoas. Assim, conclui São Tomás, é menos impróprio falar em “sabedoria da sabedoria”, ou mesmo em “natureza da natureza”, do que falar “essência da essência”. É um bom esclarecimento, mas há, em todos os casos, excesso retórico para fins pedagógicos apenas.

O segundo argumento quer fazer uma analogia entre a geração e a corrupção das criaturas, por um lado, e a geração do Filho em Deus. Quando um ser vivo gera um filho, diz o argumento, transmite a ele a sua essência. Assim, diz o argumento, é perfeitamente acertado dizer que há “essência que gera essência”. Por analogia, conclui o argumento, pode-se dizer a mesma coisa quanto a Deus.

Mas esta analogia não pode ser feita, diz São Tomás. Entre as criaturas, quando um novo ser é gerado, ele é outro com relação àquele que o gerou. Assim, a sua existência mesma se diferencia da existência do ser gerador, como um filho de um ser humano é outro ser, outra substância primeira, outra entidade, com relação ao seu pai. A geração de uma criatura é, portanto, um acidente com relação à própria essência da criatura. Se um cãozinho nasce e morre, é a sua natureza canina mesma que nasce e morre na sua individualidade, mas a espécie canina como um todo já existia antes que ele nascesse, e sobreviverá em sua essência mesmo depois que ele morrer. A sua geração e sua morte, diz São Tomás, são acidentes com relação à própria espécie canina.

Mas em Deus não é assim. Aquele que é gerado não é outra coisa, não é outro, não difere em essência, em número e em natureza daquele que o gera. Assim, a geração em Deus não é um acidente da essência que a multiplicasse, porque não a multiplica. Eis porque não se pode dizer que a própria natureza divina foi gerada no Filho, e por isso não se pode admitir como verdadeira uma proposição que supusesse uma geração assim.

O terceiro argumento lembra da simplicidade divina; Deus é o mesmo que sua essência, lembra o argumento, citando debates anteriores. O argumento reafirma, lembrando o artigo anterior, que ficou comprovado que é verdadeira a proposição “Deus gera Deus”. Logo, diz o argumento, se Deus é o mesmo que sua essência, tem que ser verdadeira também a proposição “a essência gera a essência”.

São Tomás responde com uma observação muito simples, que distingue claramente o lógico do ontológico, em deus. De fato, diz Tomás, Deus e a essência divina são idênticos, não há dúvida. Mas a palavra “Deus”, como substantivo concreto que é, tem um modo de significar esta realidade que é diverso da palavra “essência”; assim, devemos usá-las também de modo diferente, para evitar confusões linguísticas que levem a confusões teológicas.

O quarto argumento lembra que há determinadas proposições, descritivas, nas quais aquilo que se predica de um sujeito pode ser suposto por ele, ou seja, pode designá-lo. No texto anterior, demos o exemplo da proposição “o leão é o rei da floresta”, em que o sujeito (o leão) e o predicado (o rei da floresta) supõem a mesma coisa. Daí o argumento lembra que é verdadeira a proposição “a essência divina é o Pai”. Logo, nesta proposição, o sujeito (a essência divina) supõe o mesmo que o predicado (o pai). E daí o argumento conclui que o termo “essência”, aplicado a Deus, pode designar (ou supor) uma Pessoa trinitária, de tal modo que seja verdadeiro afirmar que “a essência gera a essência”.

Mas não é assim, diz São Tomás. Com relação a Deus, esta regra de que o predicado descritivo pode designar (ou supor) indiferentemente o sujeito não se aplica. Dada a simplicidade divina, podemos de fato predicar a essência das pessoas, em razão da identidade entre as pessoas e a essência; vale dizer, a simplicidade de Deus faz com que, em razão de sua significação mesmo, seja possível predicar a essência das pessoas, e seja verdadeiro dizer que o Pai é a essência, o Filho é a essência, o Espírito é a essência. Mas, diz São Tomás, disto não se segue que o termo “essência” possa designar a pessoa como sujeito; trata-se de um caso em que a significação e a suposição não coincidem.

O argumento procederia, diz São Tomás, somente no caso criatural, quando se atribui algo de um ao outro, como um universal de um particular. Trata-se, aqui, de um caso de lógica, no qual seria possível fazer um silogismo, assim: este animal é um leão, leões têm juba, logo este animal tem juba. Este silogismo é possível porque estamos lidando com seres concretos, de um lado, individualizados, e com universais, do outro; assim, posso presumir a mesma suposição entre os termos. Mas no caso de “Deus” e “essência”, como vimos na resposta acima, o próprio modo de significar determina que, embora haja identidade de significação entre os termos, não haja identidade de suposição. Então um silogismo do tipo “Deus pai é a divina essência, Deus pai gera Deus Filho, logo a divina essência gera a divina essência” seria falso, por causa da diferença do modo de significar entre os termos.

O quinto argumento parte daquele equívoco de que a essência de Deus é algo originalmente privativo do Pai, já que ele é ingênito, e as outras pessoas teriam recebido dele a própria divindade de uma maneira, digamos, derivada. O sexto argumento lidará diretamente com isto. Por ora, o quinto argumento afirma que a essência é algo que gera, porque a essência é o Pai, que é gerador, sendo ele próprio ingênito. Portanto, diz o argumento, se for falsa a proposição “a essência gera a essência”, teríamos que admitir que a essência não gera; neste caso, teríamos uma contradição; a essência gera, de acordo com o primeiro raciocínio, mas a essência não gera, de acordo com o segundo. Logo, conclui o argumento, não podemos negar a verdade da afirmação “a essência gera a essência”, para não cairmos nesta contradição.

A resposta de São Tomás é um tanto sofisticada, e implica, diz ele, uma distinção entre substantivos e adjetivos. Os substantivos sempre designam um suposto, isto é, supõem um sujeito. Os adjetivos, diz Tomás, apenas unem algo a um suposto. É neste sentido, diz Tomás, que alguns logicistas antigos (que Tomás chama de “sofistas”, sem implicar o que há de pejorativo neste termo) afirmavam que as palavras substantivas podem substituir, mas as palavras adjetivas não substituem, mas apenas unem.

Isto ficará mais fácil se tentarmos compreender com exemplos.

Eu posso perfeitamente dizer que o Pai é a essência divina, como poderia dizer que o Filho é a essência divina e o Espírito é a essência divina, já que estes substantivos (pai, filho, espírito) supõem, aqui, sujeitos que são idênticos à essência: são todos de uma só e mesma divindade. Não posso imaginar, neste caso, que cada substantivo pessoal, aqui, determine uma essência divina distinta, como se a essência do Pai, ao gerar o Filho, o gerasse com uma divindade diferente daquela do próprio Pai.

Mas no caso das noções, diz São Tomás, elas estão unidas aos substantivos pessoais, e não podem ser propriamente predicadas da essência sem a referência ao substantivo pessoal ao qual estão unidas. Assim, ser ingênito, gerar, ser gerado, espirar, enfim, todas as noções pessoais são adjetivos, pois unem-se ao respectivo substantivo pessoal. Não podem, então, ser atribuídas diretamente à essência, sem a intermediação, ainda que implícita, do substantivo pessoal no meio. Então, a rigor, não poderíamos dizer que a essência gera, senão que o Pai é a essência que gera. Lembrando, é claro, que, como foi dito atrás, não se pode imaginar que o que foi gerado é de uma essência diversa da do Pai.

Com isto, diz Tomás, não há contradição em dizer que “a essência é algo que gera”, supondo implicitamente o Pai, ou dizer que “a essência não gera”, porque, neste último caso, estamos falando da essência em si mesma, que não pode nem dar origem a si mesma nem gerar uma divindade diversa de si. Os substantivos, aqui, mudam a suposição e esclarecem que não há contradição entre as proposições.

o sexto argumento, lembrando que a essência de Deus é a divindade, resgata uma citação de Santo Agostinho, na qual ele expressamente afirma que “o Pai é o princípio de toda a divindade”. Ora, diz o argumento, tem que ser verdade, portanto, afirmar que o Pai é o princípio da essência, gerando-a ou espirando-a. Então, uma vez que o Pai é um com a essência, o argumento conclui que tem que ser verdadeira a proposição “a essência gera a essência”.

São Tomás responde que esta é mais uma contradição apenas aparente, em razão dos nossos limites linguísticos. Devemos lembrar que, na Trindade, a divindade é a mesma para várias Pessoas. Não se pode jamais pensar na divindade como algo que originalmente pertencia ao Pai, e que o Filho e o espírito têm uma espécie de “divindade derivada”, dada pelo Pai. Assim, diz São Tomás, em vez de pensarmos na divindade usando uma analogia para com a essência criada que se multiplica pelos indivíduos gerados, seria melhor pensar numa analogia com os nomes coletivos; assim, quando dizemos, com toda a razão, que o Pai é o princípio da divindade, devemos entender a proposição no sentido coletivo, vale dizer, ele é o princípio num sentido analógico àquele pelo qual dizemos que um rei é o princípio do seu povo, sem que ele seja princípio de si mesmo; de certa forma, ele é origem das outras Pessoas, porque as gera e espira, mas isto não deve ser entendido como se ele fosse de algum modo princípio da própria divindade delas, ou mesmo da sua própria divindade.

Estes artigos sobre a Trindade são muito difíceis de seguir. As ressalvas que São Tomás nos faz são de uma enorme profundidade lógica, e demonstram que a Trindade é algo a conhecer, mediante revelação, mas não a se deduzir. A Trindade, na sua singularidade transcendental, não é dedutível de nada.