O que está em jogo neste artigo? Vimos um pouco, no texto anterior, como o debate se dá. Há dois aspectos importantes, que devem ser estabelecidos agora na resposta sintetizadora de São Tomás. O primeiro diz respeito à diferença que existe entre o próprio Deus e a linguagem que usamos para falar sobre ele. Deus é simples, perfeito, indivisível, uno e absoluto. Mas a nossa linguagem não é. Assim, para falar de Deus, às vezes usamos palavras que são muito válidas para destacar este ou aquele aspecto da sua relação conosco; mas estas mesmas palavras, por terem origem em outros contextos e por prestarem-se apenas analogicamente para falar de Deus, podem dar origem também a equívocos. É o caso da noção de “essência”.
De fato, há uma diferença de linguagem, quando usamos a palavra “Deus”, assim em sua concretude existencial, e quando falamos na “divindade”, este termo que traz em si a marca da abstração. A resposta de São Tomás versará também sobre esta diferença no significar, sobre os limites da aplicação desta nossa linguagem a Deus.
Outro aspecto interessante, que deve ser debatido, é a ideia de que Deus Pai, por ser ele próprio ingênito e fonte da geração do filho e da espiração, com o Filho, do Espírito Santo, seja, de algum modo, a origem e a fonte da divindade, no sentido de que, ao gerar, fornece ao Filho uma divindade que antes não existia. Esta é a maior importância deste debate: a divindade não gera a divindade; todos os três são da mesma, eterna e indivisível divindade. É certo que podemos dizer que Deus gera Deus, com os cuidados vistos nos debates que fizemos quanto ao artigo anterior. Mas não podemos dizer que a divindade gere a divindade, como veremos agora.
De fato, São Tomás chama logo a nossa atenção para o fato de que o Abade Joaquim cometeu exatamente este erro. Ele defendeu que, uma vez que podemos dizer que Deus gera Deus, também poderíamos dizer que a essência gera a essência, uma vez que, sendo simples, em Deus a divindade não se distingue dele mesmo, e portanto os termos seriam perfeitamente intercambiáveis.
Mas não são, diz São Tomás. É um erro imaginar que podemos deduzir o significado de um termo apenas olhando a estrutura de uma coisa. É certo que entre o ser e o conhecer, ou seja, entre a metafísica e a lógica, não há independência, como pensam os modernos nominalistas. Mas tampouco há simples identidade. Portanto, quando ratamos da linguagem, devemos considerar não somente a coisa significada pelo termo, mas também o modo pelo qual o termo significa a coisa. É do mesmo objeto que estamos falando, quando falamos a palavra “Deus” e quando falamos de sua “divindade”; mas o modo pelo qual a palavra “Deus” significa o seu objeto é o modo concreto; o modo pelo qual a palavra “divindade” o significa é o modo abstrato. É importante, portanto, considerar esta diferença de significação, quando usamos estes termos. Não porque haja distinção, em Deus, entre ele mesmo e a sua divindade; não há. Mas há limites no nosso modo de falar sobre ele que nos forçam a usar com muito cuidado a nossa linguagem. É este cuidado que São Tomás quer estabelecer, ao longo de toda a Suma. É um cuidado com o ser e a linguagem, diríamos, que chega quase a assemelhar-se a certos ramos atuais da filosofia analítica. Com todo o fosso que existe entre uma concepção realista, como a de Tomás, e a concepção nominalista que subjaz a maior parte do pensamento atual.
São Tomás passa, portanto, a analisar os dois termos. Com relação ao termo “Deus”, ele diz, embora tenha o mesmo objeto que o termo “divindade”, ele significa mais propriamente a divindade no seu sujeito, concretamente; assim, ele pode designar uma Pessoa trinitária, porque as Pessoas são sujeitos da divindade. Neste caso, prossegue, as propriedades das pessoas podem perfeitamente ser predicadas do termo “Deus”, já que as Pessoas são sujeitos de divindade e sujeitos das propriedades. Neste sentido, é perfeitamente adequado falar que “Deus gera”, ou “Deus espira”, ou mesmo que “Deus é gerado”. Esta foi exatamente a conclusão do artigo anterior.
Com relação, no entanto, à palavra “essência”, pela qual se designa, em Deus, a sua divindade, o seu modo de significar é diferente. Ela não significa a divindade como num sujeito, mas a divindade como uma forma abstrata. Mas será que existe, perguntaríamos nós, a divindade como uma forma abstrata? Não; este é apenas um ente de razão. A divindade só existe concretamente, em Deus. Mas nós precisamos desta palavra para nomeá-la, dado o nosso modo fragmentário de entender e falar. Precisamos, então, expressar que Deus transcende as nossas noções de “concreto” e “abstrato”, ou mesmo de “universal” e “particular”, mas com cuidado para não cair em armadilhas linguísticas e, usando algum termo de modo errado, darmos a entender que Deus é aquilo que ele não é. Se o termo “essência”, por seu modo de significar, designa aquilo que, em Deus, unifica, então ele é inadequado para designar aquilo que é sujeito das propriedades pessoais; é que as propriedades pessoais, em Deus, distinguem, e a noção de “essência”, significando abstratamente, unifica. Por isto, se usarmos a palavra “essência” para substituir, numa proposição, o sujeito das propriedades pessoais, estaríamos fazendo um uso inadequado, porque daríamos a entender que a divindade se distingue essencialmente nas Pessoas divinas, o que não acontece na verdade. As Pessoas são uma em essência, e três pela relação. É por isto que a noção de “essência” não deve designar as Pessoas, numa proposição.
No próximo texto examinaremos as respostas de São Tomás às objeções iniciais.
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