Este artigo é muito importante, porque esta questão trata justamente da relação entre as Pessoas e a essência. Vimos, no artigo anterior, como um substantivo concreto como “Deus” se relaciona com as pessoas; ele pode ser aplicado diretamente a elas, sem restrições, de tal forma que podemos dizer que “Deus gera Deus” para significar o Pai e o Filho, ou mesmo que “Deus espira Deus”, para significar a espiração comum do pai e do Filho da qual procede o Espírito Santo.
A essência de Deus é a divindade. Ora, enquanto a palavra “Deus” designa concretamente a Trindade, quer na sua unidade essencial, como quando dizemos que Deus cria, significando a Trindade em sua unidade, quer nas Pessoas Trinitárias, conforme o exemplo que já demos aqui. Mas e quanto à essência, tomada abstratamente? Poderíamos dizer, por exemplo, que em Deus a divindade gera a divindade, ou seja, a essência gera a essência? Os nomes abstratos têm a mesma possibilidade de intercâmbio para nomear as Pessoas trinitárias diretamente? Ou, para usar a linguagem da escolástica, os nomes essenciais abstratos podem supor (ou designar) as Pessoas? A hipótese controvertida, para provocar o debate, é exatamente a de que estes nomes podem, sim, supor as Pessoas. E que, portanto, a proposição “a essência gera a essência”, e suas semelhantes (como a divindade gera a divindade) seria verdadeira. Haverá nada menos do que seis argumentos objetores, no sentido desta hipótese controvertida inicial.
O primeiro argumento cita Santo Agostinho, que, em uma passagem de sua obra, diz que o Pai e o Filho são uma única sabedoria, pois são uma única essência”, assim, ele diz que eles se destacam por serem “sabedoria da sabedoria” e “essência da essência”. Assim, o argumento enxerga na obra de Santo Agostinho um fundamento para dizer que a hipótese controvertida é verdadeira.
O segundo argumento faz uma analogia entre os seres humanos e Deus, quanto à geração. A vida humana inicia-se pela geração e finda-se pela dissolução (ou corrupção, para usar uma palavra técnica que mudou de sentido hoje em dia), que é a morte. Ora, diz o argumento, também em Deus o princípio do Filho é a geração. Mas o Filho é de essência divina, como o Pai. Disso o argumento conclui que é possível dizer que “a essência gera a essência”, usando um substantivo abstrato para supor uma pessoa trinitária.
O terceiro apela para a simplicidade divina; Deus é o mesmo que sua essência, lembra o argumento, citando debates anteriores. E, resgatando o artigo anterior, o argumento reafirma que ficou comprovado que é verdadeira a proposição “Deus gera Deus”. Logo, se Deus é o mesmo que sua essência, conclui o argumento, tem que ser verdadeira também a proposição “a essência gera a essência”.
O quarto argumento lembra que há determinadas proposições, descritivas, nas quais aquilo que se predica de um sujeito pode ser suposto por ele, ou seja, pode designá-lo. Pensemos numa proposição como “o leão é o rei da floresta”. O predicado supõe, aqui, o próprio leão. E o argumento propõe que, uma vez que Deus é simples, a proposição “a essência divina é o Pai” tem que ser verdadeira. Logo, conclui o argumento, seria verdadeiro dizer que “a essência gera”.
O quinto argumento vai pela mesma linha, mas querendo forçar uma contradição lógica, por redução ao absurdo. Ele inicia afirmando que a essência é algo que gera, porque a essência é o Pai, que é gerador, sendo ele próprio ingênito. Portanto, se for falsa a proposição “a essência gera a essência”, teríamos que admitir que a essência não gera; neste caso, teríamos uma contradição; a essência gera, de acordo com o primeiro raciocínio, mas a essência não gera, de acordo com o segundo. Logo, conclui o argumento, não podemos negar a verdade da afirmação “a essência gera a essência”, para não cairmos nesta contradição.
Por fim, o sexto argumento, lembrando que a essência de Deus é a divindade, resgata uma citação de Santo Agostinho, na qual ele expressamente afirma que “o Pai é o princípio de toda a divindade”. Ora, diz o argumento, tem que ser verdade, portanto, afirmar que o Pai é o princípio da essência, gerando-a ou espirando-a. Então, uma vez que o Pai é um com a essência, o argumento conclui que tem que ser verdadeira a proposição “a essência gera a essência”.
Como argumento sed contra, uma citação de Santo Agostinho, a mesma, aliás, que foi usada no quarto argumento objetor do artigo anterior. Agostinho dizia que “nada gera a si mesmo”. Ora, diz o argumento, se for verdadeiro afirmar que “a essência gera a essência”, então teríamos que admitir que ela gera a si mesma, porque não há nada em deus que seja distinto da própria essência. Disso, o argumento sed contra conclui que é falso afirmar que a essência gera a essência.
No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de São Tomás.
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