Podemos agora finalmente acompanhar as respostas de São Tomás aos questionamentos iniciais. Estas respostas são essenciais para entender melhor o debate que se está realizando aqui, que não é fácil.

O primeiro argumento parte de um princípio gramatical antigo, que não nos é mais familiar, mas que vem sendo debatido ao longo de todo este artigo: a presença, num termo de uma dimensão de significação e uma dimensão de suposição. No caso dos substantivos concretos singulares, diz o argumento, a significação e a suposição (ou designação) apontam para a mesma realidade; de, por exemplo, eu falo de “Totó”, suponho e significo o meu cãozinho. Assim, prossegue o argumento, se o artigo anterior determinou que “Deus” é um nome singular, que não pode ser colocado no plural jamais, ele deve, diz o argumento, significar e supor a mesma realidade. Ora, conclui, ele significa a essência divina; logo, deve supor sempre a essência, e nunca as pessoas.

Mas não é assim, diz São Tomás. A nossa linguagem, quando aplicada a Deus, deve respeitar sempre os limites da analogia. Assim, a própria palavra “Deus”, como substantivo, assemelha-se aos substantivos singulares, pelo motivo de que a forma significada não se multiplica. Assim, um substantivo singular, como “Brasil”, designa algo perfeitamente individual, cuja forma não se apresenta em nenhum outro ser senão aqui em nosso país. Também “Deus”, como substantivo, designa a divindade que não se multiplica, apresenta-se sempre como única e una. Mas ela não é individual no mesmo sentido que as coisas criadas; ela se apresenta em vários supostos, que são as Pessoas divinas. Então neste aspecto a palavra “Deus” assemelha-se aos substantivos comuns, que designam formas que se apresentam em diversos supostos, como “cão” ou “homem”. Assim, por ter esta especificidade, esta riqueza, não se pode determinar que, na palavra “Deus”, o significado e o suposto sejam o mesmo (a essência divina em sua unidade), já que, por uma particularidade da Trindade, que não se repete entre as criaturas, a mesma e única essência é das três Pessoas.

O segundo argumento afirma que aquele termo que está na posição de sujeito de uma proposição não pode ser restringido pelo termo que está na posição de predicado, em razão da significação deste, mas apenas em razão daquilo que os dois significam conjuntamente quando estão juntos. Este é um argumento difícil para nós, que não somos hábeis com a forma medieval de argumentar; já o expusemos no texto em que discutimos os argumentos objetores neste mesmo artigo. Em sua resposta, São Tomás vai fazer um movimento de mestre: ora, este argumento prova exatamente o contrário do que ele foi forçado a concluir quando colocado como objeção. Ou seja, em vez de provar que o predicado não pode, em razão de sua significação, levar o sujeito “Deus” a supor uma Pessoa trinitária, ao contrário, ele faz exatamente com que, em razão da significação que a palavra “Deus” adquire quando é complementada por um predicado nocional como “gerar”, ela passe a designar (ou supor) uma Pessoa. Vale dizer, o argumento prova exatamente aquilo que queria refutar. A resposta à próxima objeção vai tornar mais fácil entender como pode ser que, acrescentando-se um ato nocional ao termo “Deus” quando ele é sujeito da proposição, ele passe a supor uma Pessoa divina, e não diretamente a essência mesma de Deus.

O terceiro argumento diz que, se pudéssemos fazer a palavra “Deus” supor as Pessoas, além de supor a essência em sua unidade, cairíamos em contradições lógicas; e dá um exemplo: o Pai gera, mas o Filho não gera. Se pudéssemos, portanto, construir uma proposição “Deus gerou”, na qual substituíssemos o sujeito “a Pessoa do Pai” por “Deus”, então também poderíamos construir uma proposição “Deus não gera”, substituindo o nome da Pessoa do Filho por “Deus”. Com isto, o argumento quer demonstrar que não se pode usar este nome essencial concreto, “Deus”, para significar diretamente uma Pessoa trinitária, sem cair em enormes contradições lógicas.

Este argumento quer forçar Deus a caber em categorias lógicas que não se aplicam a ele. A analogia entre as criaturas e Deus, que é necessária para que possamos falar de Deus com razoabilidade, tem seus limites, e este, que São Tomás apresenta agora, é um deles.

Ele começa assumindo a palavra “homem” (no sentido de ser humano). Ora, esta palavra designa a forma humana, que se apresenta, na vida real, concreta, apenas na forma de indivíduos realmente diversos uns dos outros. Desse modo, a pessoa humana é sempre um ser individual, que tem a forma humana, e que se distingue de todos os outros homens na sua individualidade. Assim, quando eu uso o nome de “homem” para designar uma pessoa humana, estou falando de uma natureza, a natureza humana, que não torna comuns os diversos supostos senão como participação individualizada no universal que tem existência real nos indivíduos e existência intencional nas mentes que conhecem os seres humanos. De fato, todos os homens participam da mesma natureza humana, e participam dela como indivíduos distintos; neles, a forma humana é individualizada, essencialmente, pela matéria. Há, portanto, uma diferença crucial, com relação ao termo “Deus”.

As Pessoas divinas têm a mesma natureza divina, mas não por participação individual. A individualização das Pessoas, em deus, não se dá pela essência (que é una, única e indivisível), senão pelas relações. Assim, a forma divina não é participada pelas Pessoas trinitárias, como a forma humana é participada pelas pessoas humanas. Não há analogia aqui. A essência divina é a mesma para as três Pessoas; não são três substâncias individualizadas que participam da mesma forma, como no caso das criaturas, senão a mesma e única forma que subsiste nas três pessoas divinas, realmente.

Assim, quando faço menção às pessoas humanas, usando o termo “homem”, presumo sempre que estou supondo os indivíduos da espécie humana em sua individualidade substancial; salvo se a palavra “homem” vem devidamente complementada por um predicado que expresse a noção de que ela está sendo usada como uma categoria lógica; quando digo, por exemplo, que “homem” é uma espécie animal.

No caso da palavra “Deus”, porém, ela supõe sempre a natureza comum, a divindade. Para que suponha uma Pessoa, é preciso que esteja complementada por um predicado nocional, que determine este significado. Assim, quando eu construo a proposição “Deus gera”, estou me referindo diretamente ao Pai, em razão da forma com que a predicação faz a proposição significar a um só tempo, em comum. Assim, esta é uma proposição verdadeira.

Mas, quando eu digo “Deus não gera”, estou, em razão da predicação mesma, referindo-me ao Filho, como se estivesse dizendo: “Deus, o Filho, não gera”. Disto não podemos concluir, como faz o argumento, que haja um Deus que gera e um Deus que não gera; há um só Deus, como já foi dito. A falácia é tentar estabelecer uma suposição essencial quando a proposição traz uma noção pessoal como predicado. Deus, o Pai, gera, e Deus, o Filho, não gera. Mas são, ambos, com o Espírito Santo, um só Deus.

O quarto argumento também tenta mostrar que não se pode fazer este uso da palavra “Deus”, aplicando-a a uma das pessoas, sem cair numa contradição lógica. Se pudéssemos afirmar que “Deus se gera”, teríamos que admitir que Deus poderia gerar a si mesmo; mas, como Santo Agostinho já afirmou, nada pode gerar a si mesmo. E Deus não poderia gerar outro Deus, porque há apenas um Deus. E o argumento conclui que uma proposição “Deus se gerou”, na qual o termo “Deus” supõe uma Pessoa divina, seria falsa.

Na sua resposta, São Tomás esclarece que, se afirmássemos que “Deus se gera”, assim com esta construção reflexiva, estaríamos de fato construindo uma proposição falsa. Não se pode, nesta afirmação, compreendê-la como se significasse “Deus gerou Deus”, porque, então, teríamos o termo “Deus” com a mesma suposição, no sujeito e no predicado. Não é a si mesmo que Deus gera, nem é a outro deus. Na diversidade das relações, multiplicam-se as Pessoas, sem multiplicar-se a essência. Assim, o Filho é outro com relação ao Pai, mas não é outra coisa, ou seja, não é uma individualidade substancial divina, senão um suposto gerado pela própria relação subsistente de paternidade. Assim, quando falamos “Deus gera”, devemos ter muito cuidado com os supostos, e ainda mais com a alteridade em Deus, para entender bem a proposição. São Tomás chega a dizer que alguns teólogos consideram possível construir uma proposição “Deus gerou outro Deus”, compreendendo os termos como supondo Pessoas diferentes. Mas esta é uma construção muito perigosa, diz Tomás, porque traz em si uma ambiguidade que pode levar á má compreensão. Ele, então, aconselha-nos a evitá-la.

O quinto argumento também quer reduzir a questão a uma contradição lógica insuperável. Se disséssemos, diz o argumento, que “Deus gerou Deus”, usando o termo “Deus” para supor uma das Pessoas Trinitárias, então teríamos que admitir que, nesta preposição, o segundo termo “Deus” nos coloca numa situação contraditória: ele pode ser Deus Pai, ou não ser Deus Pai. Se ele for Deus Pai, então teríamos que admitir que Deus Pai é gerado, o que é falso. Se ele não for Deus Pai, então há um Deus que não é Deus Pai, o que seria absurdo de admitir. Logo, não se poderia, diz o argumento, fazer o termo “Deus” supor uma Pessoa Trinitária sem cair em contradições insolúveis.

São Tomás responde logo que seria falso construir uma proposição que afirmasse que “Deus gerou um Deus que é Deus Pai”. Este complemento, que faz com que o termo “Deus” no predicado seja forçosamente entendido como “Deus Pai”, torna irremediavelmente falsa a proposição. Deus Pai não é gerado. Assim, a proposição “Deus gerou Deus” nunca pode ser compreendida de tal modo que o termo “Deus” do predicado suponha Deus Pai.

No entanto, diz São Tomás, a proposição negativa “Deus gerou um Deus que não é Deus Pai” seria, a princípio, verdadeira, pelo mesmo motivo. Mas veremos abaixo que há controvérsias quanto a esta proposição, mesmo negativa.

São Tomás diz que há quem entenda que, fazendo-se as suposições certas, haveria uma maneira de considerar verdadeira a proposição “Deus gerou um Deus que é Deus Pai”. Neste caso, teríamos que entender que o Pai gerou o Filho que é Deus, como o Pai é Deus e, portanto, são o mesmo Deus. Neste caso, diz Tomás, quem entende assim defende que a negativa desta proposição é que é falsa, porque se disséssemos que “Deus gerou um Deus que não é Deus Pai” estaríamos dizendo que há uma divindade do Filho que é diferente da divindade do Pai.

É melhor não tentar salvar esta proposição com uma interpretação tão forçada, aconselha-nos Tomás. É melhor, diz ele, considerar que a afirmação “Deus gerou um Deus que é Deus Pai” é falsa, e sua negativa é verdadeira. Assim, evitam-se entendimentos errôneos.

São Tomás registra, com relação a esta leitura, que há um estudioso, de nome Prepositino, que dizia que ambas as proposições, tanto a afirmativa (“Deus gerou um Deus que é Deus Pai”) quanto a negativa (“Deus gerou um Deus que não é Deus Pai”) são, ambas, falsas. Pelas razões que ele passa a expor.

Prepositino parte do significado do pronome relativo “que”. Na proposição afirmativa, diz ele, o uso do pronome “que” implica entender uma mudança de suposto no termo “Deus”. Assim, quando eu digo que “Deus gerou um Deus que é Deus Pai”, estou dizendo que o termo Deus no predicado supõe o Pai; ora, na verdade ele supõe o Filho, e se eu uso um pronome relativo para fazê-lo supor o Pai, estou mudando o suposto, o que torna falsa a proposição. Até aqui, São Tomás concorda com ele.

Quanto à proposição negativa, diz Prepositino que, quando uso o pronome relativo para complementar a proposição negando que Deus gerado seja Deus Pai, mudo a suposição e o próprio significado. Assim, quando eu construo a proposição “Deus gerou um Deus que não e Deus Pai”, segundo Prepositino eu quereria significar não somente que o Deus Gerado não é Deus Pai, mas que a própria divindade do Deus gerado não é a mesma divindade de Deus Pai. Com isto diz ele, esta proposição também seria falsa.

Mas São Tomás não concorda com esta interpretação de Prepositino. Ele a considera irracional, na verdade, perante o ensinamento gramatical de Aristóteles. Segundo Aristóteles, “a um mesmo sujeito pode convir a afirmação e a negação”; logo, não há este princípio de que, enquanto na afirmação, o pronome relativo muda apenas a suposição, no negativo ele mudaria a suposição e a significação. Há,. Portanto, um sentido no qual a proposição negativa é verdadeira; é aquele que São Tomás já explicou.