O debate agora diz respeito à construção de proposições com as três Pessoas. Como dizer que os três são Deus, ou que cada um deles é Deus, sem usar a palavra “Deus” no plural? Eu poderia, por exemplo, dizer que os três, Pai, Filho e Espírito Santo, são sábios, ou são bons, ou são poderosos, mas não poderia dizer que são deuses? Se a sabedoria, a bondade, o poder de Deus são todos atributos essenciais e substanciais, assim como a própria divindade, e se a simplicidade divina determina que a distinção entre eles é apenas de razão, então como discernir?

A hipótese controvertida, para provocar o debate, é a de que todas as palavras que apontam para a essência divina são atribuídas às Pessoas Trinitárias no plural. Assim, diríamos que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são sábios, são bons e, finalmente, que são deuses.

São quatro os argumentos objetores, no sentido desta hipótese controvertida inicial.

O primeiro argumento tenta construir uma analogia; se chamamos de “ser humano” aquele ente que tem humanidade, então chamaremos de “Deus” aquele ente que tem divindade. Se vários entes têm humanidade, são “humanos”, no plural. No caso das Pessoas trinitárias, todas as três têm a divindade, ou seja, são divinas. Assim, conclui o argumento, deveríamos afirmar que são “três deuses”.

O segundo argumento é bíblico. Cita o primeiro versículo da Bíblia (Gn 1,1); “No princípio Deus criou o céu e a terra”. Mas o argumento prossegue, lembrando que, em hebraico, a palavra “Deus”, aí, é “Elohim”, que é um plural – significa “Deuses” ou mesmo “juízes”. Ora, diz o argumento, o texto em hebraico fala em “Deuses” como uma menção implícita à pluralidade de pessoas em Deus. Assim, o argumento conclui que devemos dizer que as três pessoas são “Deuses”, e não que são “Deus”.

O terceiro argumento diz que a palavra “coisa”, em sentido absoluto, significa “substância”. Mas Santo Agostinho, segundo o argumento, dizia que as coisas de que devemos gozar são as três pessoas da Trindade. Ora, se “coisa” se predica das Pessoas no plural, e significa a substância, também outras palavras que a significam de modo absoluto, como “Deus”, devem ser predicadas das Pessoas trinitárias no plural.

O quarto argumento também quer fazer uma analogia entre a noção de “Deus” como aquilo que tem divindade, por um lado, com a noção de Pessoa, como “aquilo que subsiste numa natureza racional”. Ora, em Deus a natureza racional é a essência. Assim, pela mesma razão que dizemos “Pessoas”, no plural, então também devemos dizer “Deuses” no plural.

O argumento sed contra cita a autoridade das Escrituras quanto à unidade de Deus (Dt 6, 4): “Ouve Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor”. Não haveria espaço, segundo o argumento, para chamar a Trindade de “Deuses”.

São Tomás passa a dar sua resposta sintetizadora.

Ele vai esclarecer, logo, que, quando nos referimos à essência de Deus, algumas palavras significam a essência divina sob aspecto, digamos, “substantivo”, como a palavra “Deus”, e outros significam-na sob aspectos “adjetivos”, como “bom” ou “sábio”. Para aquelas palavras que o significam substantivamente, diz São Tomás, falamos sempre no singular. Para aquelas que o significam adjetivamente, usamos no plural.

A razão disso, diz Tomás, é que é próprio do modo humano de falar, que é analógico para falar de Deus, e unívoco para falar das criaturas. Ora, entre as criaturas, usamos os substantivos, diz São Tomás, para falar da substância das coisas, e os adjetivos para falar dos acidentes. Em Deus, como sabemos, não há acidentes, e a substância divina é simples. Mas como sempre falamos de Deus ao modo humano, há certos aspectos de Deus dos quais falamos como se fossem acidentais (porque são acidentais nas criaturas), e outros dos quais falamos como se fossem essenciais (porque são essenciais nas criaturas).

Assim, naquelas palavras que são predicadas de Deus como substantivos, falamos no singular, porque os substantivos tomam seu número da própria substância que descrevem; as . Ora, a palavra “Deus” se refere sempre à substância divina, que tem a unidade em si. Asim, é sempre usada no singular.

Mas as palavras que têm valor adjetivo, por serem usadas como se exprimissem acidentes, e os acidentes são aquelas realidades que não têm o ser por si, mas pelo ser no qual inerem. Os adjetivos, portanto, tomam seu número do sujeito (suposto) no qual inerem, não do próprio acidente. Assim, se são três pessoas em Deus, há ali três supostos ou supósitos de personalidade. Por isto, por exemplo, quando falo da bondade das Pessoas divinas, embora a bondade de Deus seja uma só e idêntica à sua essência, eu uso a palavra “bom” com valor de adjetivo. Assim, devo afirmar que as Pessoas divinas são “boas”, assim mesmo, no plural, porque “bom” é um adjetivo que inere em vários supósitos.

São Tomás passa a discorrer sobre os termos coletivos, que designam as multidões ordenadas de criaturas. Estes termos coletivos são usados como substantivos, designando a forma substancial do próprio coletivo. Assim, diz ele, um grupo de jovens que estudam no mesmo lugar é um colégio. Mas a qualidade de aluno é usada como adjetivo, e por isto adquire a forma plural; portanto, este grupo de jovens é um grupo de alunos, embora seja um só colégio. É claro que a unidade divina, em sua simplicidade, supera infinitamente a analogia com os substantivos coletivos e sua reunião acidental de supósitos; mas trata-se apenas de uma analogia.

E quanto a Deus? Quando falamos da divindade, falamos da própria substância divina, por sua forma. Ela é simples e una, reafirma São Tomás. Assim, as palavras que significam substancialmente a essência divina tomam seu número desta mesma unidade substancial absoluta. Diferentemente, diz São Tomás, da substância humana, por exemplo; a substância humana tem, por essência, a potencialidade de se multiplicar, pela individualização corporal. É por isto que eu digo que Sócrates, Platão e Aristóteles são três homens, mas jamais posso dizer que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são três Deuses. Em cada pessoa humana existe a humanidade participada, como substância. Mas não é assim com as Pessoas divinas. Nelas há uma só e indivisível essência divina.

Mas aquelas palavras, diz São Tomás, que designam aspectos da essência divina à maneira de acidentes – e que portanto têm valor de adjetivos – usam-se no plural mesmo. É por isto que se diz que as Pessoas Divinas são eternas, ou que são incriadas, ou que são sábias, boas e imensuráveis.

Quando, no entanto, falamos substantivamente destes aspectos, dizemos que as Pessoas são um único e mesmo Deus sábio, bom, incriado e imensurável – como faz, diz São Tomás, o chamado “Símbolo [ou Credo] Atanasiano”, ao tratar da Trindade.

Esclarecidas assim as coisas, São Tomás tratará de nos enriquecer com respostas específicas às objeções iniciais.

A primeira objeção diz que, se chamamos de “homens” aqueles entes dos quais dizemos que são humanos (a palavra “humano”, no plural, leva o substantivo “homem” para o plural) , deveríamos chamar de “Deuses” às Pessoas trinitárias, pois dizemos, no plural, que elas são “divinas”.

São Tomás responde que a palavra “Deus” de fato nomeia aquilo que é essencialmente divino. Mas a palavra “Deus” tem valor substantivo, enquanto a palavra “divino” tem valor de adjetivo. A resposta sintetizadora explicou muito bem a questão do número, quanto aos substantivos e adjetivos que se referem a Deus. Assim, dizemos que as três Pessoas são “divinas”, falamos no plural, porque falamos de uma qualidade (que, nas criaturas, tem a natureza de acidente, embora não em Deus); mas quando falamos que as Pessoas divinas são “Deus”, falamos no singular, porque estamos falando de Deus substantivamente. As Pessoas divinas não são “três Deuses”.

A segunda objeção cita a Bíblia (Gn 1,1), numa passagem em que Deus é referido como “Elohim”; uma vez que esta é uma palavra no plural, diz, deveríamos falar hoje em “Deuses”, também em nossa língua, para nos referirmos à Trindade.

São Tomás responde que cada língua tem seu jeito peculiar de expressão. Assim, se a palavra “Elohim”, no hebraico, pode ser adequada para referir-se a Deus trindade, expressando a pluralidade na sua unidade essencial, já em grego, por exemplo, fala-se em “três hipóstases” em Deus. Nós, hoje, nunca usamos a palavra “Deus” no plural para falar sobre a triunidade de Deus, para não deixar aberta a possibilidade de que se entenda que reconhecemos qualquer pluralidade essencial na substância divina.

A terceira objeção lida com a palavra “coisa”, ou res, que, no latim, tem uma amplitude semântica maior do que no português. A objeção afirma que, se “res” (ou “coisa”) significa a “substância” do ente, então, do mesmo modo que dizemos que as três Pessoas são três “coisas’, deveríamos dizer também que são três substâncias. Portanto três “deuses”.

São Tomás vai responder usando a noção de “transcendentais do ser”, que já debatemos em outros textos. Dentre os transcendentais, estão o Bem, que é o ser sob relação com uma vontade, o Uno, que é o ser em sua integridade ontológica, o Verdadeiro, que é o ser em sua relação com a inteligência, e a Coisa (Res), que é o ser em sua entidade concreta, real. Neste sentido, diz Tomás, pode-se dizer que as relações subsistentes, em Deus, uma vez que são supósitos das personalidades trinitárias, são “coisas”, no plural mesmo. Mas, se nos referimos à própria substância divina, ela é “coisa” no singular. E ele conclui com a afirmação de que, se “coisa” é o transcendental que afirma a concretude real do ser, então, segundo Santo Agostinho, a Trindade é a “coisa” por excelência, porque é a realidade (res) do ser em sua expressão suprema.

O quarto argumento objetor diz que, do mesmo modo que a palavra “Deus” significa “o que tem divindade”, a palavra “pessoa” significa “aquilo que subsiste numa natureza racional”. Ora, prossegue o argumento, se nos referimos a ele usando a palavra “pessoas”, no plural, então deveríamos também usar a palavra “Deus” no plural, ou seja, “deuses”, quando tratamos das Pessoas.

São Tomás responderá que cada palavra designa sempre uma forma no sujeito ao qual se refere. No caso da palavra “Deus”, a forma a que ela se refere é a própria forma divina, em sua unidade essencial. Mas no caso da palavra “Pessoa”, a forma referida é a personalidade, e não a própria natureza divina. Uma vez que em Deus há, por natureza, três personalidades de uma única e mesma essência, não há inconveniente em usar a palavra “Pessoas”, no plural, mas a palavra “Deus” deve sempre ser usada no singular.

No próximo artigo, há ainda mais debates sobre o uso da palavra “Deus” com referência às pessoas da Trindade.