Postos os argumentos objetores e o argumento de autoridade, sed contra, é hora de examinar a resposta sintetizadora de São Tomás.
A primeira lembrança que ele traz é a de que a analogia é o modo humano para falar de Deus. Nossa inteligência é adequada, é proporcionada, a conhecer as criaturas. Em especial as criaturas materiais. Somos capazes de inteligir as coisas divinas, tanto através das coisas criadas (a chamada revelação natural, mencionada por São Paulo na Carta aos Romanos, 1, 20), quanto recebendo a revelação de Deus em Jesus. Mas, em todo caso, para falar sobre Deus usamos uma linguagem que foi construída para as coisas materiais; nós a adaptamos, pelo uso da analogia, às coisas divinas que chegamos a conhecer.
Nas coisas materiais, que são objeto dos nossos sentidos, e que portanto são adequadas à nossa inteligência, diz São Tomás, a natureza de uma espécie é individualizada pela matéria. O que ele quer dizer com isto? Um exemplo concreto pode nos ajudar a entender.
Imaginemos o cão. É da natureza canina latir, ser peludo, quadrúpede, enfim, tudo o que é próprio da espécie canina. A espécie, no entanto, existe como universal, sempre numa mente; quer na de Deus, que concebeu os cães, quer na nossa, quando os conhecemos. Mas na natureza existem concretamente os indivíduos da espécie, os cães, e existem porque são seres materiais. Cada cão que existe difere do cão universal por ser material; mas cada cão representa um indivíduo da espécie, ou seja, cada cão que vemos é um receptor da forma universal de cão: a natureza canina tem sua concreção nos cães que efetivamente, materialmente, existem, que são os indivíduos da espécie canina. Cada indivíduo recebe e concretiza a forma; ou seja, em linguagem escolástica, cada indivíduo (o Totó, o Rex, a Pipoca, o Duque, por exemplo) é supósito da forma canina, vale dizer, concretiza a natureza canina no mundo.
Assim, diz São Tomás, em Deus dizemos que a essência é como a forma para as pessoas trinitárias. Estas seriam, então, o supósito da forma essencial divina única e una. Mas como falar isto?
São Tomás diz que há duas maneiras de atribuir uma forma a um ser, no mundo criatural. Normalmente, diz São Tomás, na forma usual de falar, nós dizemos que a forma é de um supósito, quando mencionamos a beleza de uma mulher, ou a inteligência de um rapaz, a sabedoria de uma senhora, e assim por diante. Normalmente não dizemos que a pessoa pertence à forma, mas que a forma pertence à pessoa. Ninguém fala: “o homem da beleza”, mas “a beleza do homem”. Salvo, é claro, quando adjetivamos a forma; por exemplo, dizemos que aquela pessoa é de uma beleza ímpar, ou de inteligência extraordinária. Nestes casos, podemos dizer que o supósito é que é da forma adjetivada.
Assim, quando falamos de Deus, atribuímos a essência às pessoas, de modo análogo à que usamos para atribuir a forma aos supósitos. Falamos, então, na única essência divina das três Pessoas; mas, como para falar da única essência divina já a adjetivamos (ela é única e divina), podemos dizer, então, perfeitamente, que as três pessoas são da única essência divina. As duas maneiras de falar são válidas, porque atribuem adequadamente a essência às Pessoas, de modo análogo ao que usamos para atribuir a forma aos supósitos na realidade criada.
Estabelecidos, então, os critérios adequados, São Tomás passa a enfrentar as objeções iniciais.
O primeiro argumento objetor traz uma citação de Santo Hilário, na qual ele diz que Pessoas são três pela substância, mas um pela consonância, dando a entender que as Pessoas não são de uma e única essência. São Tomás responderá simplesmente que a palavra “substância”, nesta citação, deve ser entendida como significando “hipóstase”, não como significando “essência”. Devemos interpretar a passagem como se Hilário dissesse que as Pessoas são três hipóstases que são consonantes na essência, portanto. São Tomás faz, então, uma interpretação corretiva na citação.
O segundo argumento objetor cita o (pseudo) Dionísio, que afirma que não se deve debater aquilo que não é expressamente mencionado nas Escrituras; se as Escrituras jamais mencionam que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são de uma única e mesma essência, tampouco nós deveríamos fazê-lo.
São Tomás argumenta que as coisas não são bem assim. Embora não negando que as Escrituras têm força referencial para a dogmática, São Tomás explica que, embora elas não falem expressamente que os três têm a mesma essência, em diversas passagens ela dá a entender que as coisas são mesmo assim, embora sem usar uma terminologia teológica ou técnica. Não deveríamos esperal que o Autor Sagrado estivesse vinculado à terminologia filosófica grega ou a qualquer outra; no entanto, o que a teologia diz de modo técnico, as Escrituras dizem de modo existencial, concreto, em passagens como a de João (10, 30): Eu e o Pai somos um. Ou no mesmo capítulo, versículo 38: “o Pai está em mim, e eu no Pai”, afirmação, aliás, repetida em João 14, 10. Há muitas passagens similares a esta, diz São Tomás, que deixam clara a unidade de essência entre as Pessoas.
O terceiro argumento objetor diz que “natureza” e “essência” são noções equivalentes; portanto, para o argumento, bastaria dizer que os três são da mesma “natureza”, e seria desnecessário, conclui, afirmar que são da mesma “essência”. Mas São Tomás não concorda, e vai dar uma aula sobre as noções de “natureza” e de “essência”, para explicar sua posição.
A natureza, diz São Tomás, é o princípio do ato. Assim, dois seres que assemelham-se em algum ato podem ser chamados de “seres da mesma natureza”, mesmo quando a sua essência é diversa. Um exemplo bom seria o forno de micro-ondas e o forno elétrico; o princípio que utilizam para produzir calor é completamente diferente, num caso trata-se de emitir micro-ondas numa frequência que provoca o aquecimento do alimento e, no outro, trata-se de produzir energia térmica a partir da resistência à passagem da energia elétrica num condutor metálico. Mas, apesar de essencialmente tão diversos, eles são equivalentes em natureza: trata-se de aparelhos que são capazes de aquecer e cozinhar alimentos.
Mas a essência, diz São Tomás, é igualdade no ser; só posso chamar de “mesma essência” àqueles seres que têm o mesmo ser. Assim, para usar o exemplo acima, o Totó, o Rex, a Pipoca e o Duque têm, todos eles, a mesma essência canina, embora possa acontecer que alguns deles tenham uma natureza mais agressiva, própria para cães de guarda, enquanto outros são mais dóceis, mais adequados para cães de companhia. Assim, São Tomás conclui que é melhor exprimir a unidade divina dizendo que as três pessoas têm a mesma essência do que simplesmente afirmando que têm a mesma natureza.
O quarto argumento traz uma questão já enfrentada na resposta sintetizadora: ele afirma que é correto atribuir uma forma a uma pessoa, mas o inverso não é adequado – poderíamos dizer “a essência das Pessoas divinas”, diz o argumento, mas não poderíamos dizer “as Pessoas de essência divina”. Assim, não poderíamos, segundo o argumento, dizer que as Pessoas são de uma única e mesma essência divina.
São Tomás admite que o usual é atribuir a forma ao supósito. Podemos falar da formosura da flor, mas não seria adequado falar “a flor da formosura”; salvo, diz Tomás, quando especificamos a forma com algum adjetivo que a determine; como se disséssemos “a flor de excepcional formosura”. Há, inclusive, construções, diz São Tomás, que já trazem em si esta ideia de duplo complemento, porque já trazem em si uma especificação da forma. Ele cita como exemplo a oração “aquele é um homem de sangues”, expressão que, no tempo de São Tomás, designava um assassino sanguinário.
Assim, observadas estas regras, tanto poderíamos falar na essência divina das três Pessoas, diz São Tomás, mas não poderíamos, a rigor, dizer que as três Pessoas são da essência; salvo se especificamos a forma, dizendo, por exemplo, que o Pai é de essência divina, ou que as três pessoas são de uma única e mesma essência. A especificação, neste caso, salva esta construção.
O quinto argumento objetor diz que afirmar que as três Pessoas são de uma mesma essência poderia ser entendido como afirmar que elas surgem a partir da mesma essência, caso em que poder-se-ia entender que há algum movimento que faz com que as Pessoas surjam de uma essência divina preexistente e diversa das próprias pessoas; Agostinho, diz o argumento, já havia advertido que se deve evitar este erro. Assim, o argumento conclui que é inconveniente dizer que as três pessoas são da mesma essência.
Mas São Tomás nos adverte que a noção de “a partir de” remete às causas eficiente e material. Neste caso, diz ele, quando usamos a preposição “de” ou “por” com o sentido de “a partir de”, estamos descrevendo causas materiais e eficientes. Ora, diz São Tomás, as causas materiais e eficientes devem sempre preexistir a coisa que elas explicam, como o cimento, causa material da parede, preexiste à parede, ou o pedreiro, que é sua causa eficiente, também preexiste a ela. Mas quando usamos a preposição “de” para nos referir à essência de seres imateriais, como os anjos ou o próprio deus, não estamos falando nem de causas materiais nem de causas eficientes, mas apenas de causas formais, há seres imateriais, como os anjos, ou como o próprio Deus, para os quais a preposição “de” jamais vai remeter a causas materiais ou mesmo eficientes. E, como estamos tratando de causas formais, ao dizer que as Pessoas são da mesma e única essência nunca pode remeter à ideia de que elas são provenientes de alguma coisa que as precede ou que é externa a elas mesmas.
O sexto argumento diz que seria inconveniente afirmar que “as três pessoas são da única e mesma essência”, já que ela traz grande risco de ser mal entendida; e o argumento cita Hilário, que registra que afirmar que o Pai e o Filho são de uma mesma essência pode significar que são a mesma subsistência com duas denominações, ou uma substância dividida em duas substâncias imperfeitas ou, ainda, duas substâncias que são constituídas de uma terceira substância primária. Ora, diz o argumento, se há tanta possibilidade de fazer com que a proposição seja entendida de maneiras tão equívocas, então devemos simplesmente evitar, diz o argumento, utilizá-la. Mas São Tomás cita o mesmo Santo Hilário, que lembra que as coisas santas ficariam muito prejudicadas se nós as eliminássemos por medo de que fossem mal compreendidas por alguém, ou se alguém acha que elas não são santas. E dá um exemplo: tomemos o termo grego homoousioun. Se alguém não consegue entender ou aceitar o significado desta palavra, isto não faz a menor diferença no verdadeiro sentido dela, principalmente para quem a entende corretamente. Ora, conclui São Tomás, a unidade substancial entre as Pessoas decorre do fato de que as Pessoas têm a mesma natureza, e não porque dividiram entre si a essência divina em pedaços, em condomínio ou como um tipo de matéria prima.
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