Discutimos e descobrimos, no artigo anterior, que dizer “pessoa” e dizer “essência”, em Deus, é a mesma coisa. O debate agora passa a enfrentar a questão de que não existe apenas uma pessoa, mas três, em Deus; como poderíamos dizer que é a mesma coisa dizer “pessoa” e dizer essência, se há três pessoas e uma só essência divina? A hipótese controvertida, aqui, para gerar o debate, inicia-se por afirmar exatamente que não devemos fazer isto, ou seja, que não deveríamos dizer que as três pessoas são de uma só essência.

Toda a discussão gira em volta da precisão terminológica, porque as palavras são o instrumento para tratar destas realidades tão acima da inteligência humana. Este instrumental conceitual grego, que São Tomás utiliza, deve ser ajustado para dar conta de uma realidade muito diversa daquela para a qual ele foi criado. Ele foi concebido para dar uma explicação “estrutural” (metafísica) da realidade que nos circunda, quer dizer, da criação. Certamente utilizá-la para falar do criador, mormente de uma realidade tão difícil de explicar quanto a Trindade divina, é algo que requer os maiores cuidados. Para nós, de hoje, estes cuidados devem multiplicar-se, porque as noções de “essência”, “substância”, “pessoa” e “natureza” são ainda mais complicadas para nós do que eram para os contemporâneos de Tomás. Trata-se, portanto, de retomar os bons critérios que São Tomás estabeleceu para tornar inteligível o discurso sobre a Trindade e evitar erros teológicos no particular. Um instrumental que deve ajudar, não enrijecer nem constranger. Mas isto não é fácil. O que, aliás, se demonstra pelos argumentos objetores colecionados; basicamente eles lidam com a confusão terminológica que São Tomás encontrou neste assunto.

O primeiro argumento cita Santo Hilário, que disse que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são três substancialmente, mas são verdadeiramente um pela consonância. O argumento afirma, então, que, em Deus, a substância é a própria essência. De fato, em Deus, como já vimos em debates anteriores, a essência é o próprio existir. Logo, não poderia haver uma essência divina diversa da substância divina. E daí o argumento conclui que, a partir da autoridade de Santo Hilário, as três pessoas não são de uma só essência.

O segundo argumento cita o (pseudo) Dionísio, que defendia – numa citação que parece até muito próxima de certas correntes cristãs atuais – que não devemos afirmar de Deus nada que não esteja expresso pela autoridade das Escrituras. Mas, prossegue o argumento, em nenhum ponto as Escrituras dizem expressamente que as três Pessoas são de uma só essência. Assim, tampouco deveríamos, também nós, fazer uma afirmação destas. Trata-se, portanto, de um argumento que quer estabelecer, na letra expressa das Escrituras, um limite para a dogmática cristã. Veremos como a resposta de São Tomás para este argumento é profundamente católica, no sentido de preservar completamente a autoridade das Escrituras sem transformá-las em amarras dogmáticas. Mas estamos nos adiantando.

O terceiro argumento parte da noção de “natureza divina”, em relação com a noção de “essência divina”. O argumento diz que são equivalentes perfeitos: a natureza divina é o mesmo que a essência. Assim, o argumento defende que bastaria dizer que as três Pessoas têm a mesma natureza divina, sendo desnecessário, conclui o argumento, dizer que têm a mesma essência. Na sua resposta, São Tomás estabelecerá bem a distinção entre essência e natureza. Mas estamos nos adiantando de novo.

O quarto argumento diz que não costumamos dizer que a pessoa é da essência, mas antes costumamos dizer que a essência é da pessoa. De fato, diríamos que as pessoas são concretamente existentes, enquanto as essências são abstrações, cuja existência concreta se dá nas substâncias efetivamente existentes. Por isto diríamos que a essência angelical é dos anjos, ou que a essência humana é das pessoas humanas. Assim, o argumento conclui que seria inconveniente falar que as três Pessoas trinitárias são de uma só essência.

O quinto argumento cita Agostinho, numa discussão gramatical. Ele diz que não deveríamos afirmar que as três pessoas surgem da mesma essência, para não dar a entender que a essência divina é uma coisa e as pessoas são outra. O argumento prossegue, dizendo que o complemento “de uma só essência”, quando ligado ao sujeito “as três pessoas”, dá a mesma ideia de fonte, de origem da qual o sujeito brota, colocando, pois, o predicado como algo diverso, antecedente ao sujeito. Assim, o argumento conclui que tampouco deveríamos dizer que as três Pessoas são de uma só essência. pela mesma razão não devemos dizer, que as três Pessoas são de uma só essência.

Por fim, o sexto argumento objetor soa muito cuidadoso: quando se trata de falar de Deus, diz o argumento, deve-se evitar ao máximo fazer qualquer afirmação que dê lugar a erro, inclusive na fé de outras pessoas que possam entendê-la mal. Assim, diz o argumento, se dissermos que as três pessoas são de uma só essência ou substância, poderíamos levar algumas pessoas mais simples ou menos informadas a imaginarem que esta substância única, que predicamos do Pai, do Filho e do Espírito Santo, fosse de algum modo um ser subsistente em si mesmo, que viesse a se dividir entre os três, como uma espécie de ser prévio e mais perfeito que se repartisse entre as pessoas, que formassem um quebra-cabeças que, reunido, equivalesse à única substância divina, ou como se a substância divina fosse uma espécie de, digamos, matéria-prima apropriada e assumida pelas Pessoas, que lhe dariam significado. Assim, para evitar que estas distorções surjam, diz o argumento, seria prudente evitar dizer que as três pessoas sejam de uma só substância.

Como argumento sed contra, o artigo junta uma citação que Santo Agostinho faz do Concílio de Niceia; se o Concílio escolheu a palavra “homoousion” (igual substância, em grego) para combater a heresia ariana de que o Filho é uma criatura e não tem a mesma essência divina do Pai, então devemos sempre reafirmar que as três Pessoas são de uma só e mesma essência divina.

No próximo texto veremos a resposta sintetizadora da São Tomás e suas respostas aos argumentos objetores iniciais.