Este é um daqueles artigos maravilhosos de uma questão maravilhosa, em que discutiremos e aprenderemos muito sobre a relação entre Deus em sua essência unitária, por um lado, e as pessoas trinitárias, por outro. A Trindade é Deus, Deus é a Trindade, e aqui, mais do que em qualquer outro ponto, veremos como o instrumental aristotélico de que Tomás se vale é útil, ou melhor, é acurado para descrever esta realidade. Como diz o Catecismo da Igreja Católica, “Ao falar assim de Deus, a nossa linguagem exprime-se, evidentemente, de modo humano. Mas atinge realmente o próprio Deus, sem todavia poder exprimi-Lo na sua infinita simplicidade.” (§ 43).
Aqui, usaremos termos como essência, natureza, pessoa, substância, acidente, relação, hipóstase, supósito, todos estes termos com os quais já nos deparamos em algum momento da nossa caminhada. Eles não devem nos assustar; existem para facilitar, não para complicar. Mas vamos enfrentar o debate agora proposto por São Tomás.
O debate é proposto a partir da seguinte hipótese controvertida: em Deus, as pessoas e a essência não são uma só e mesma coisa. São três os argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial.
O primeiro argumento é muito filosófico, então vamos a ele com calma, para compreendê-lo. O argumento diz que, naqueles seres em que a essência e a pessoa coincidem, há um só sujeito, quer dizer, uma só natureza que ostenta a sua pessoalidade. Quando a essência e a personalidade, numa determinada natureza, são idênticas, a multiplicação de personalidades equivale à multiplicação de sujeitos. O argumento, então, quer afirmar que, quando a personalidade de um sujeito é uma, é idêntica com sua essência, há uma só personalidade para cada sujeito (ou cada suposto, que é a linguagem que São Tomás usa), como se vê nas criaturas. De fato, na natureza angelical, cada anjo é uma substância, e cada anjo tem uma personalidade. Também assim entre os seres humanos; a personalidade é única para cada sujeito humano, que realiza a essência humana. Assim, se em Deus há três pessoas, não se poderia admitir, diz o argumento, que a essência divina, que é una, fosse a mesma coisa que a Pessoa trinitária; assim, em Deus, conclui o argumento, em razão mesmo das múltiplas personalidades divinas, a essência não é a mesma coisa que a Pessoa.
O segundo argumento objetor quer tentar estabelecer uma contradição entre a pluralidade de pessoas e a unidade de essência, em Deus. O argumento começa afirmando uma regra de lógica: de um mesmo sujeito não se pode fazer, simultaneamente, uma afirmação e uma negação, quanto ao mesmo aspecto. Mas, se afirmássemos a identidade, em Deus, entre essência e Pessoa, teríamos que afirmar e negar a unidade, porque a essência é una, mas as pessoas são múltiplas. Assim, o argumento conclui que, em Deus, não se identificam pessoa e essência.
Por fim, o terceiro argumento começa afirmando que nada pode ser submetido a si mesmo. Mas a noção de pessoa está submetida à essência, uma vez que ela personifica a essência, expressando-a concretamente; por isto é chamada de “supósito” ou “hipóstase”, vale dizer, uma instanciação concreta daquela essência. Ora, diz o argumento, a pessoa pressupõe, portanto, a essência que concretiza; disso, o argumento conclui que não se identificam “pessoa” e “essência”, sequer para Deus.
O argumento sed contra cita mais uma vez Santo Agostinho, que categoricamente afirma que é a mesma coisa falar na pessoa do Pai que falar na substância do Pai. Se a substância do Pai é a essência divina, e se ela é uma noção perfeitamente intercambiável com “pessoa”, então, em Deus, essência e pessoa são idênticos.
São Tomás passa, agora, a dar sua resposta sintetizadora. Que parte, com muita tranquilidade, da noção de “simplicidade divina”. Deus é simples, não há nele composição, partes, elementos, pedaços, enfim, nenhuma divisão é possível, quando se fala de Deus.
Mas há outra dificuldade: enquanto, em todos os seres intelectuais em que podemos pensar, temos como discernir a individualidade, em Deus é muito complicado falar em individualidade. Deus é um, e isto significa, como já vimos em debates anteriores, que ele é indivisível. Na integralidade do seu ser, a essência divina realiza-se na simplicidade de sua substância indivisível. Mas, se em nós, o suposto (vale dizer, aquele indivíduo humano que somos, cada um de nós) realiza a essência, e configura uma pessoa, em Deus a essência divina realiza-se na sua substância, que mantém-se simples e íntegra apesar da multiplicação das Pessoas na Trindade. Como pode manter-se a unidade da essência divina, frente a esta multiplicação de pessoas?
Lembrando da afirmação de Boécio, de que é a relação que multiplica as Pessoas em Deus, diz São Tomás, alguns tentaram conciliar a simplicidade de Deus, a unidade perfeita entre essência e supósito afirmando que, em Deus, a relação é uma ideia adjacente, tangencial mesmo, que apenas estabelece, nas pessoas divinas, a referência ao outro, mas não se constitui numa realidade nele. Assim, pensam que podem conciliar a multiplicação de pessoas e a unidade de essência pela negação da consistência da própria noção de relação intradivina. Estas relações seriam como que meras referências que uma pessoa faz à outra, mas não realidades em si.
O problema, diz Tomás, é que em Deus não há acidentes; tudo nele é substancial. Assim, as relações, que nas criaturas são acidentes, em Deus são a própria e única essência divina. Assim, diz São Tomás, a essência divina, sendo em si mesma relacional, não difere realmente da pessoa, embora as pessoas se distingam reciprocamente. Na Trindade, Pessoa, lembra São Tomás, deve ser compreendida como aquela relação subsistente na natureza divina. Mas a relação que “individualiza” a pessoa divina, fazendo-a supósito da personalidade, sem que as pessoas , embora reais em si mesmas, sejam realmente diferentes da essência; entre as Pessoas e a essência, há aquilo que se chama propriamente de “distinção de razão”, ou seja, uma diferença que existe em razão da limitação do nosso intelecto, do nosso pobre modo de entender e de expressar este entendimento. Mas entre uma pessoa e outra há uma distinção real, em razão mesmo da oposição de relação – o Pai e o Filho estão em polos opostos da relação de paternidade, como o Espírito Santo está no polo oposto àqueles que o espiram, amando-se. É deste modo, diz São Tomás, que a essência permanece una e as pessoas multiplicam-se em três. E, complemento, se não entendemos é porque Deus é simples demais para ser entendido por nós, e não o contrário. Mas as respostas de São Tomás aos argumentos objetores iniciais sempre nos ajudam a aprofundar nossa compreensão. Vamos a elas~.
A primeira objeção, como lembramos, dizia que, se em Deus a essência é idêntica à pessoa, então quando as pessoas se multiplicassem, a essência também deveria se multiplicar; disso, conclui que, em Deus, não haveria identidade entre a essência e a pessoa.
São Tomás responde que, entre as criaturas, a distinção entre supostos (a individuação pessoal) envolve a própria individuação substancial. Para haver outra pessoa, entre nós humanos, é preciso haver outro indivíduo essencialmente humano. Esta individualização dos supostos, entre os humanos, dá-se pela diferença de corpos: temos todos a mesma natureza humana essencial, mas distinguimo-nos uns dos outros pelo fato de que a matéria que compõe cada um dos nossos corpos é diferente para cada um de nós humanos. Assim, cada indivíduo humano é uma substância separada, e cada substância individual humana é uma pessoa. As relações que nós temos são, em nós, acidentais; alguém é filho de outro alguém, irmão de outro, esposo de outro e assim vai. Se ele, digamos, muda de vizinho, muda de relações, mas não muda de substância. Mas em Deus não é assim. Não há acidentes em Deus; assim, as relações, em Deus, são substanciais. Assim, elas são capazes de individualizar as pessoas divinas sem distinguir-lhes essencialmente. É por isto, por exemplo, que o Pai não é o Filho, mas ambos são essencialmente e igualmente Deus.
A segunda objeção diz que não se pode afirmar e negar simultaneamente alguma coisa de alguém segundo o mesmo aspecto. Assim, diz o argumento, se a essência divina fosse idêntica à pessoa, como sabemos que há apenas uma essência e há três pessoas em Deus, teríamos que afirmar e negar a unidade essencial em Deus.
São Tomás responderá que, quanto a Deus, a diferença entre a essência e a pessoa é apenas de razão, quer dizer, decorre do limite da nossa inteligência para falar dessa realidade. Assim, em razão desta diferença de razão, podemos, em nossa linguagem humana, afirmar de uma o que negamos da outra e vice-versa; sem que isto signifique que em sua simplicidade a diferença exista de fato. No entanto, para a maneira humana de inteligir, este modo de falar é válido, porque expressa com verdade aspectos de uma realidade, a divina, que não teríamos como expressar humanamente de outra maneira. Para Deus, essência e pessoa são idênticas, mas como as pessoas multiplicam-se pela relação subsistente, é possível dizer, humanamente falando, que as pessoas podem multiplicar-se sem deixar de ser idênticas à essência divina una e simples.
O terceiro argumento objetor é mais sutil. Ele afirma que todo supósito (ou hipóstase, ou indivíduo de uma determinada espécie) é, na verdade, uma instanciação da respectiva essência; assim, diz o argumento, a rigor a pessoa é um sujeito que concretiza uma determinada essência, e portanto a essência precede logicamente o sujeito e o condiciona. A pessoa é uma expressão da essência, diz o argumento, logo é a essência que, condicionando-o, demonstra-se mais importante que ele; submete-o. Mas se, em Deus, a essência e a pessoa são idênticas, então teríamos que dizer que, em Deus, a pessoa é sujeito de si mesma, o que seria absurdo. Logo, conclui o argumento, não se pode dizer que pessoa e essência são o mesmo, em Deus.
São Tomás responde com uma aula de linguagem analógica. Nossa linguagem, as palavras e conceitos que usamos, diz São Tomás, foram desenvolvidos em razão das criaturas; ela é adequada, portanto, para falar das criaturas, que é a realidade que se dá ao nosso conhecimento e está proporcionada ao nosso entendimento. Mas, no mundo criatural, as coisas individuam-se pela matéria; este animal pode compartilhar da mesma espécie daquele outro, mas, enquanto este tem esta matéria em seu corpo, aquele outro tem aquela outra matéria. Somos todos igualmente humanos, porque compartilhamos da mesma natureza humana essencial; igualamo-nos em dignidade porque somos todos humanos, mas cada um de nós tem seu próprio corpo, e nisto nos diferenciamos. É por isto que cada indivíduo criatural é chamado de sujeito, suposto ou hipóstase: cada um de nós, em nossa individualidade, representa uma instância pessoal diversa do outro. Não há outra maneira de distinguir as pessoas, dentre os humanos, senão pela distinção substancial dos corpos.
Mas em Deus não é assim. Sem dividir-se ou individualizar-se essencialmente, as Pessoas divinas distinguem-se pelas relações subsistentes. Pela pobreza do nosso falar, usamos esta mesma linguagem, a dos “sujeitos” ou “hipóstases”, para nos referir às pessoas divinas, sem que, no caso delas, elas sejam de fato sujeitos de uma essência, indivíduos de mesma natureza, porque não são. São o mesmo e único Deus.
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