Vimos, então, no debate do artigo anterior, em qual sentido poderíamos dizer que o Espírito Santo tem como nome próprio o Amor. Ele não é a aptidão divina de amar, ou seja, ele não é a própria vontade de Deus, senão a impressão, a marca de amor procedente do Pai e do Filho. O debate agora é para identificar se o Pai e o Filho amam-se por esta vontade divina que é da sua essência, ou se amam por este amor personificado que é o Espírito Santo.

Trata-se de uma questão importante, porque permite compreender a economia do amor divino; se o Espírito Santo, como veremos na próxima questão, é dom, que tipo de dom ele é? Não pode ser um dom menor do que o próprio Amor com que Deus se ama. Mas, por outro lado, se o Espírito Santo é o próprio amor com que o Pai e o filho se amam, isto significaria que o Pai e o Filho não são capazes de amar, senão através do Espírito Santo? Ou seja, como poderíamos imaginar uma Pessoa divina incapaz de amar por si mesma?

Esta é a hipótese controvertida que iniciará nosso debate, agora: parece que não é pelo Espírito Santo que o Pai e o Filho se amam. São três os argumentos objetores.

O primeiro argumento lembra que Santo Agostinho distingue o Filho, que é a Sabedoria gerada, da sabedoria do Pai, que não é gerada, mas originária, e, portanto, essencial em Deus, e própria das três Pessoas em sua Unidade. E o argumento prossegue, dizendo que, de modo análogo ao Filho (Sabedoria gerada), o Espírito Santo é o Amor procedente; logo, ele não é o amor originário, aquele amor essencial pelo qual as Pessoas divinas se amam e amam todas as coisas. Assim, conclui o argumento, o Pai não ama o Filho pelo Espírito Santo, mas pelo amor originário, essencial, de Deus.

O segundo argumento afirma que há dois sentidos, mutuamente excludentes, pelos quais podemos compreender a afirmação de que o Pai e o Filho amam-se pelo Espírito Santo; nesta afirmação, o verbo amar pode ter: 1) ou o sentido essencial, ou 2) o sentido nocional.

O argumento prossegue: se o verbo amar tem, nesta afirmação, um sentido essencial, ou seja, se o verbo amar, aí, faz menção à própria aptidão essencial divina de amar, então a afirmação de que o Pai e o Filho amam-se pelo Espírito Santo não pode ser verdadeira, porque o Espírito Santo, como amor personificado, não é o amor essencial de Deus. Assim como o Filho, analogamente, sendo a Palavra personificada, não é a inteligência essencial de Deus.

Por outro lado, pode haver um sentido nocional, em Deus, para o verbo “amar”. Lembramos como, na questão 32, estudamos o problema das noções, em Deus. As noções são aquelas razões pelas quais se conhece a origem das Pessoas divinas, e, portanto, é a noção que aponta para o modo pelo qual as Pessoas divinas se multiplicam. Ora, diz o argumento, uma das noções, na Trindade, é a noção de “espiração comum”. Ora, se tomamos o verbo amar, aqui, como significando a espiração comum do Pai e do Filho, então teríamos que dizer que o Pai e o Filho espiram o Espírito Santo através do próprio Espírito Santo, o que seria tão absurdo quanto dizer que o Pai gera o filho através do próprio Filho.

Ou seja, se nenhum dos dois sentidos pelos quais podemos entender o verbo amar, nesta proposição, pode ser verdadeiro, logo, conclui o argumento, a própria proposição é falsa.

Por fim, o terceiro argumento lembra que não há mais de um amor em Deus. É pelo mesmo amor que o Pai se ama, é pelo mesmo amor que ele ama o Filho, é pelo mesmo amor que ele ama as criaturas.

Mas se o verbo amar, aqui, está sendo compreendido no sentido nocional (sobre o qual falamos no parágrafo anterior), então teríamos que dizer que o Pai ama a si próprio espirando o Espírito Santo, ou seja, o Pai se espira, ou que o Pai, ao conhecer-se pelo Filho, gera a si próprio quando se conhece. Um ato nocional, diz o argumento, não pode ser reflexivo sobre o próprio princípio. O Pai não pode amar-se pelo Espírito, porque senão teríamos que admitir que ele espira a si mesmo.

Além disso, o amor com que Deus nos ama não não pode ser o Espírito Santo, porque a criatura tem relação com Deus em sua essência, que é amor, e não simplesmente com o Amor personificado que é o Espírito Santo. E daí o argumento conclui que, se não podemos dizer que o Pai ou o Filho amam-se a si próprios através do Espírito Santo, e se não podemos dizer que Deus nos ama pelo espírito Santo, também não poderíamos dizer que o Pai e o Filho amam-se pelo Espírito Santo.

Como argumento sed contra, uma citação de Santo Agostinho,que afirma categoricamente que é pelo Espírito Santo que aquele que é gerado ama aquele que o gera, e aquele que gera ama aquele que é gerado.

No próximo texto estudaremos a resposta sintetizadora de São Tomás.