Havendo dado sua resposta sintetizadora, São Tomás passa, agora, a responder aos argumentos objetores iniciais.
É preciso, pois, ter em mente que ele não refuta pura e simplesmente estas objeções – como em geral não faz. Após sua resposta, ele as relê a partir dos critérios que estabeleceu, e resgata nelas o que têm de verdade, corrigindo os eventuais desvios. No caso presente, ele já nos esclareceu que a nossa linguagem, quanto ao amor, é insuficiente para descrever a realidade divina, e, por isto, a palavra “amor” pode ter mais de um sentido, quando referida a Deus. Quando ela se refere à capacidade divina de amar, ela diz respeito à unidade da essência divina. Mas quando ela se refere à inclinação, ao impresso de amor que o autoconhecimento divino desperta em sua vontade, ela é o nome próprio da Terceira Pessoa trinitária. Com isto em mente, estudemos agora as respostas específicas de São Tomás.
O primeiro argumento objetor lembra que a sabedoria de Deus é compartilhada pelas pessoas, a mesma sabedoria, uma só sabedoria diz respeito aos três. Assim, “sabedoria” é uma característica da unidade da essência divina, e não poderia jamais constituir um nome próprio de uma das Pessoas; de fato, só pode ser um nome pessoal aquilo que diz respeito tão-somente a uma das pessoas, nunca aquilo que pertence à essência mesma de Deus.
Assim, prossegue o argumento, também o amor é uma característica essencial de Deus, como nos lembra Santo Agostinho. E não algo próprio apenas de uma das Pessoas. Assim, conclui o argumento, não poderia ser o nome próprio de uma das Pessoas trinitárias.
Mas São Tomás responde de maneira lacônica: quando se utiliza a palavra “amor” neste sentido, ela de fato designa a essência de Deus em sua unidade, e não uma das pessoas. Mas isto não significa que não haja um outro sentido de falar do amor de Deus, que se refere ao Amor que procede do Pai e do Filho; e, neste caso, “Amor” é o nome próprio de uma das Pessoas trinitárias.
O segundo argumento lembra que o Espírito santo é uma das Pessoas da Trindade, e, portanto, é uma realidade divina subsistente. Mas a palavra “amor” não significa uma pessoa subsistente, diz o argumento, senão uma ação que se inicia naquele que ama e tem seu termo naquele que é amado; ou, em linguagem técnica da escolástica, trata-se de uma ação transeunte, que se inicia no sujeito mas termina num objeto, vale dizer, é um agir que sai daquele que age, que se conclui naquele que é objeto do amor. Bem diferente, diz o argumento, daquilo que caracteriza a imanência da Trindade, quanto à origem das pessoas divinas ali mesmo na essência de Deus. O movimento que gera uma pessoa trinitária, segundo o argumento, jamais pode ser transeunte, mas sempre é imanente. Se o amor é transeunte, conclui, não pode ser o nome próprio de uma Pessoa divina, como o Espírito Santo.
São Tomás explica que, embora nós falemos do conhecer, do querer e do amar como se fossem transeuntes, porque sempre se referem a algo diferente daquele que conhece, que quer e que ama, na verdade são ações imanentes, porque iniciam-se e chegam a seu termo no interior daquele que conhece, que quer e que ama. Quando eu venho a conhecer, digamos, uma pedra, não é a própria pedra que está na minha mente, senão a sua species, quer dizer, a forma da pedra. Ainda que o conceito de pedra que formei em minha mente continue se referindo à pedra concreta à qual conheci, no entanto todo o processo de conhecimento deu-se em mim, iniciou-se e findou em mim. Trata-se, portanto, de um processo imanente que gerou em meu espírito aquele conceito vocalizável de “pedra” que chamamos de “verbo”, “logos” ou “palavra” mental. Assim também com aquilo que eu amo: quando conheço aquela moça bonita que hoje é minha esposa, gerou-se em meu coração a impressão da inclinação da minha vontade para ela; ainda que pudesse acontecer que ela nunca viesse a saber que eu a amo. Mas é a ela a quem concretamente amo, e a nenhuma outra moça. Este amor concreto, que procede do meu coração e tem aquela moça específica como objeto, é também totalmente imanente em meu espírito, embora aponte para ela. Nestes exemplos, o objeto do meu conhecimento e do meu amor, em meu espírito, são diferentes do meu espírito mesmo. Num caso, é uma pedra; no outro, é minha esposa. Nos dois casos, portanto, este conhecimento e este amor que procedem em minha alma são acidentais à minha própria essência. Eu poderia ter vivido a minha vida inteira sem deixar de ser essencialmente um exemplar de ser humano, mesmo sem jamais ter conhecido aquela pedra ou amado aquela moça.
Em Deus, no entanto, que é eterno, perfeito, imutável e completamente bom e transparente a si mesmo, conhecer-se e amar-se não é um acidente. A Palavra imanente em Deus que é a imagem do seu autoconhecimento total, perfeito e eterno, é em si mesma subsistente. Assim também a impressão da inclinação de amor da vontade de Deus para consigo mesmo, este amor total, completo, imutável e eterno que aponta para a sua bondade perfeita, completa, imutável e eterna, também é a impressão de uma inclinação subsistente. Portanto, embora o Verbo esteja marcado pela intencionalidade do que conhece, gerando um conhecimento que está relacionado com aquele que é conhecido, e como este amor procede da inclinação do Pai e do Filho que se reconhecem como caracterizados pelo amor infinito que encontra (se podemos dizer assim) a bondade infinita em si mesmo, caracterizando-se pela relação do amor com aquilo que é amado, não se pode dizer que este conhecimento gerado e este amor procedente sejam transeuntes, mas temos que reconhecer que são realidades perfeitamente imanentes em Deus. É assim que o Amor espirado, imanente em Deus, é nome de Pessoa subsistente.
O terceiro argumento objetor define o amor como nexo, como vínculo entre os que amam. E cita o (pseudo) Dionísio, para quem o amor é uma “força unitiva”. E o argumento prossegue, afirmando que o Espírito Santo não pode ser descrito nem como um vínculo, nem como uma força, porque é uma relação subsistente, uma Pessoa que procede das outras duas. Assim, seria inconveniente chamá-la de “amor”, ou seja, de vínculo ou força.
A resposta aqui é muito sutil e um tanto difícil de acompanhar, portanto vamos com calma. São Tomás não nega que o Espírito Santo, sendo Amor, seja de fato o vínculo de amor entre o Pai e o Filho. Eles se amam, o Pai ama o Filho e o Filho ama o Pai. E se amam com o mesmo amor, que é, ao mesmo tempo, o único amor de Deus e o amor de cada um deles pelo outro, ou seja, é um amor que, sendo divino, não é simplesmente idêntico a eles próprios, mas de certa maneira os ultrapassa e os une, sem deixar de ser o que eles próprios são. Assim, este amor que os vincula e que é o que eles são, mas ao mesmo tempo não é idêntico a cada um deles, porque procede deles como relação, tem que ser Pessoa; paradoxalmente (para nossa própria linguagem) a relação que, sendo Deus em tudo, distingue-se dos respectivos opostos enquanto os une pelo vínculo eterno e perfeito é necessariamente uma Pessoa, em Deus, porque reúne em si todos os requisitos para sê-lo. Que belo, que complexo, que admirável!
Por fim, a última objeção lembra que todo aquele que ama possui em si o amor que lhe faz amar. Ora, diz o argumento, o Espírito Santo, sendo Pessoa Divina, necessariamente ama; possui, então, em si, esta capacidade, este princípio de inclinação que se chama “amor”, ou capacidade de amar. Se o nome próprio do Espírito fosse amor, portanto, teríamos que admitir que o amor tem amor, ou seja, que há no amor o amor, o que seria, diz o argumento, tão absurdo como dizer que há o espírito do Espírito. Assim, o argumento conclui que o nome próprio do Espírito Santo não pode ser Amor.
Mas São Tomás responde que não é assim, pelo menos não como o argumento quer. De fato, a Pessoa do Verbo se constitui por ser a palavra que Deus forma sobre si mesmo, conhecendo-se e, nesta palavra, conhecendo em si todas as coisas. O Verbo, portanto, é em si mesmo a inteligência divina personificada, mas ele próprio não gera novas palavras, não intelige, no sentido de dar origem a algum conhecimento que não esteja incluído na Palavra que ele próprio é. Inteligir é próprio do Pai, ser a inteligência é próprio do Filho.
Do mesmo modo, a pessoa do Espírito Santo é o amor com que Deus se ama, e amando-se ama todas as coisas em si mesmo. Não é próprio do amor, portanto, passar a amar, e neste sentido não poderíamos dizer que haja, no Espírito santo, algum princípio de amor que venha a fazer despontar algum amor que já não esteja incluído no Amor que é o próprio Espírito Santo. Assim, Deus ama por sua essência, e intelige por sua essência, mas aquilo que ele intelige e aquilo que ele ama, que é ele mesmo, formam as Pessoas trinitárias. Neste sentido, não se pode falar no “amor do amor”, quanto ao Espírito Santo, porque não cabe ao Espírito Santo produzir amor, senão ser o próprio amor.
Eis um tema belíssimo, contemplativo, que continuaremos ainda no próximo artigo.
Deixe um comentário