Vimos, então, no texto anterior, que a hipótese controvertida, proposta para iniciar o debate, é a de que não poderíamos chamar o Espírito Santo de Amor, como se fosse um nome próprio dele. Para isto, seria necessário que “amor” fosse uma propriedade sua, e não uma característica essencial de Deus mesmo, em sua unidade. Vimos os argumentos neste sentido, e o argumento sed contra, de São Gregório, que expressamente chama o Espírito Santo de Amor, como nome próprio.

São Tomás vai nos dar sua resposta sintetizadora, na qual ele acomoda tanto os argumentos iniciais quanto o argumento sed contra; de fato, diz ele, não há apenas um sentido na palavra “amor”, quando nos referimos a Deus. Esta palavra mostra toda sua exuberância, e pode ser dita para significar diversas facetas do amor de Deus, conforme o percebemos.

De fato, Deus é amor. Assim, podemos falar de “amor”, com relação a Deus, para referirmo-nos à sua essência, que é amar. Mas podemos usar a palavra “amor” como nome próprio da Pessoa do Espírito Santo, porque a terceira pessoa da Trindade é uma processão do Amor de Deus, é o próprio Amor do Pai e do Filho personalizado. O Espírito Santo, portanto, não é a capacidade divina de amar, mas o próprio Amor divino pessoal impresso em Deus.

Ou seja, do mesmo modo que a inteligência divina, ao conhecer-se, gera o Verbo, que é a personificação do autoconhecimento de Deus, também a vontade divina, ao confrontar-se com o próprio Deus, ama-se, espirando uma inclinação de vontade, um amor concreto, total e irrevogável, que é como uma inscrição da bondade de Deus em sua vontade, movendo-o a si mesmo. A vontade do Pai inclina-se ao Filho, e a do Filho ao Pai, e é a mesma vontade, que se inclina ao que conhece, e se inclina na justa medida em que conhece, ou seja, total e completamente. Deus conhece-se, gera a imagem e reconhece-se como infinitamente bom. Da sua vontade perfeita, então, procede a inclinação que é a impressão de amor em Deus. Ela tem a mesma extensão, a mesma natureza que aquilo que é amado, ou seja, ela personifica esta inclinação da mesma vontade, do Pai pelo filho e do Filho pelo Pai.

São Tomás não pode deixar de registrar o quanto é mais fácil, para nós, falar do Verbo do que do Amor. De fato, a processão do Verbo é a Palavra; é claro que é muito mais fácil falar sobre a palavra. O próprio fato de que esta processão se possa chamar de “palavra”, “logos” (que significa sentido, discurso racional, em grego), demonstra que construir um discurso sobre o Filho é, digamos, algo natural, pois ele é, em si mesmo, palavra, sentido, discurso.

Mas não é assim com o Amor. Ele não é algo intelectual, verbal, mas é algo existencial, um movimento, uma inclinação, uma impressão que move. Assim, não é fácil encontrar conceitos para exprimi-lo, diz São Tomás. O amor não é algo para ser dito, mas algo para ser feito. Assim, para falar do Amor, falamos de alguma coisa que não existe para ser falada, mas para ser vivida. Daí a limitação de vocabulário, que nos leva sempre a falar do Amor de modo impreciso, por arrodeio, e não diretamente. Esta pessoa é, assim, infinitamente misteriosa para nós, quando queremos trazer para o plano da inteligência aquilo que é do plano da vontade. Não que as outras Pessoas também não nos sejam mistério, mas a Revelação, que nos dá acesso a elas, não atinge apenas a nossa inteligência; interpela nossa inteligência pelo Verbo e, além de tudo, interpela a nossa vontade pelo Amor. A dificuldade consiste quando precisamos elaborar, com a nossa inteligência, os conceitos para aquilo que se dirige à nossa vontade, sede do querer e não da compreensão.

É por isto que estas relações do Amor são tão difíceis de expressar num discurso teológico. São expressadas por nós apenas indiretamente, diz São Tomás. Falamos em “processão” e “espiração” para referir-nos às relações do Amor, na Trindade. Mas estas palavras significam mais precisamente a origem da Pessoa do Amor do que propriamente suas relações. É como se falássemos de “geração” para designar a paternidade e a filiação, no caso do Pai e do Filho. Falta-nos, no caso do Espírito Santo, palavras análogas a estas (paternidade e filiação) para designar suas relações.

E, no entanto, é a pessoa do Verbo que nos fornece o instrumental conceitual para falar do Amor personalizado, ou seja, do Espírito Santo. Do mesmo modo que o conhecimento de Deus sobre si mesmo forma uma palavra, que é o Verbo de Deus, o amor de Deus por si mesmo forma um impresso, uma espécie de carimbo da coisa amada no coração daquele que ama, que nos faz dizer que aquele que é amado está indelevelmente inscrito na vontade daquele que ama, como a pessoa conhecida está no intelecto daquele que a conhece. A pessoa do Amor é exatamente a inscrição.

É assim, pois, que, na Trindade, Deus está presente a si mesmo. Como Palavra, que é o conhecimento total e perfeito que tem sobre si mesmo, e que gera a imagem de si – igual a si mesmo, mas outra em relação ao que conhece e ao que é conhecido. E como carimbo, como inclinação total que tem de si por si mesmo, de conhecido a conhecedor e vice-versa, como desejo e repouso naquele que se vê como perfeito bem e vontade perfeita, ou seja, como impresso de amor na vontade divina. Esta presença no querer é, pois, análoga à presença no conhecer, e forma a Trindade.

Quanto ao intelecto, diz São Tomás, há palavras e conceitos muito apropriados para expressar esta presença pessoal, esta relação do que conhece com aquilo que é conhecido e com o próprio conhecimento que se gera no autoconhecimento da inteligência perfeita deparando-se com a essência perfeita. Esta relação é expressa pelo verbo “conhecer”, e há outras noções, como “palavra” e “dizer”, que são muito adequadas para descrever esta realidade. Pode ser facilmente compreendido por nós que a inteligência de Deus é uma realidade essencial, quer dizer, algo próprio de Deus na sua unidade, na sua essência, porque a inteligência significa antes um atributo divino do que uma relação. Mas aquilo que se faz conhecimento, a palavra, o conceito formado na inteligência daquele que conhece, quando contempla o que é conhecido, é a própria Pessoa do Filho. Enquanto o verbo “dizer”, no sentido de expressar intelectualmente o conhecimento, é usado, com referência a Deus, como uma das noções trinitárias que debatemos quando estudamos a questão 32. O Pai é o que diz, é o que fala, o Filho é o que é dito pelo Pai.

Quando queremos falar sobre a vontade divina, porém, não temos esta riqueza de vocábulos tão precisos como os que existem para tratar da inteligência divina. Temos as palavras “querer bem” e “amar”, que significam a própria aptidão de relação entre aquele que ama e aquilo que é amado, ou seja, a própria capacidade de amar, de estabelecer relações de inclinação. Mas não temos palavras adequadas para designar aquele carimbo, aquela tatuagem, aquele impresso que a pessoa amada deixa no espírito da pessoa que a ama e vice-versa, ou seja, entre o que ama e o que é amado e reciprocamente, e que especifica a relação entre as duas como o amor entre elas e nenhum outro amor. É por esta falta de palavras que designamos esta relação entre o carimbo, o impresso no espírito de quem ama gerado pela inclinação ao amado, com as mesmas palavras “amor procedente” ou “benevolência espirada”, como se, nas coisas da inteligência chamássemos o verbo de “inteligência gerada” ou “conhecimento concebido” para distinguir a inteligência ou conhecimento, atributos essenciais, da inteligência gerada ou conhecimento concebido, que são nome de Pessoa. Nas coisas da vontade, o amor e a benevolência, atributos essenciais, distinguem-se, portanto, do amor espirado (ou benevolência procedente), que são nomes pessoais. E que se referem à mesma pessoa do Espírito Santo. Como o verbo “amar” expressa uma noção, análoga, no caso da inteligência, aos verbos “dizer” ou “gerar”.

No próximo texto, as respostas aos argumentos objetores iniciais.