Hora de estudar, então, as respostas específicas de São Tomás aos (muitos) argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor nega que o Espírito Santo proceda da natureza comum do Pai e do Filho, já que ele também é participante da mesma natureza, e neste caso procederia de si mesmo; também nega que pudesse proceder de alguma propriedade pessoal do Pai ou do Filho, porque tais propriedades são estritamente individuais, e portanto não se poderia admitir alguma propriedade pessoal compartilhada por duas pessoas trinitárias. Assim, nega que o Pai e o Filho possam ser único princípio do Espírito Santo.
A resposta de São Tomás nos ensina que , quanto ao poder de espirar, o Espírito Santo procede do Pai e do Filho; este poder de espirar os une; é um poder que decorre da natureza comum, mas de certo modo representa uma propriedade que se manifesta na unidade dos dois – e, mais adiante, na questão 41, este assunto será abordado novamente. Não há nenhum problema, diz São Tomás, em admitir que esta propriedade, como poder, tenha dois sujeitos (supostos), que compartilham a mesma natureza. Mas é claro que são dois os que espiram; então, quanto aos sujeitos, diz São Tomás, o Espírito procede do Pai e do Filho como sujeitos distintos que, unindo-se no amor, dão origem a esta pessoa que é o próprio amor que os une.
O segundo argumento objetor diz que eles não podem ser um só princípio do Espírito, porque nem são uma só pessoa, nem sequer se pode dizer que o fazem sob a mesma propriedade, porque teríamos que admitir que o Pai, sendo um só, é duplo princípio do Espírito Santo, porque ele seria princípio do Filho, originando no Filho tudo o que ele é, e até o poder de ser princípio do Espírito, e seria, ao mesmo tempo, princípio, com o Filho, do Espírito.
São Tomás diz que, quando afirmamos que o Pai e o Filho são um só princípio do Espírito Santo, isto significa que estamos falando de unidade numa propriedade, a propriedade de espirar. Portanto, há muitas propriedades no Pai, mas isto não significa que ele seja vários princípios. Falar de princípio é falar do sujeito (suposto) que origina, e o sujeito que chamamos de Pai, tendo várias propriedades, é, no entanto, um só. Como o princípio do Espírito é um só: o Pai em união perfeita de amor com o Filho.
O terceiro argumento afirma que o Filho não pode ser mais harmônico, mais consentâneo com o Pai do que o Espírito Santo. Mas se o Pai e o Filho são, conjuntamente, princípio do Espírito, então o Espírito deveria ser, com o Pai, princípio conjunto de alguma outra pessoa; mas não é. Assim, deve-se negar que o Pai e o Filho são um só princípio do Espírito Santo.
Mas não é assim, diz São Tomás. Não devemos buscar similitudes em Deus a partir das suas relações que diversificam as Pessoas; as relações, em Deus, podem implicar (e implicam) diferença. É pela essência que as Pessoas são perfeitamente similares e congruentes. Assim, pela essência, o Pai é semelhante a si mesmo e ao Filho, e o Filho não é mais semelhante ao Pai do que o Espírito Santo.
O quarto argumento tem um viés mais de lógica: se afirmarmos, diz, que o Pai e o Filho são um só princípio do Espírito Santo, então temos que admitir uma disjunção: ou este princípio é o Pai, ou não é. Mas se for o Pai, então teríamos que admitir que o Pai e o Filho são a mesma pessoa, já que formam o mesmo princípio. Mas se este princípio não é o Pai, então teríamos que admitir que o Pai não é o Pai quando, com o Filho, é apontado como princípio único do Espírito Santo.
Mas esta é um falso raciocínio, diz São Tomás. Não posso deduzir, da afirmação de que o Pai e o Filho são um só princípio do Espírito Santo, que me reste apenas a disjunção de afirmar ou negar que este princípio é o Pai. Quando dizemos que o Pai e o Filho são um só princípio do Espírito Santo, esta afirmação não significa imputar ao Pai (ou ao Filho) ou a cada um deles especificamente, a condição de princípio do Espírito Santo, solidariamente, diríamos. O princípio do Espírito Santo é o Pai e o Filho, não o Pai e também o Filho, nem o Pai mais o Filho. A noção de princípio, aí, faz uma referência não distintiva, não separadora, do papel do Pai e do Filho em originar o Espírito Santo. Assim, é falacioso, diz São Tomás, partir dessa afirmação para debater uma disjunção a respeito do Pai como sujeito dessa condição de princípio do Espírito Santo. Ele é sujeito com o Filho, sem deixar de ser o Pai. Mas não é uma espécie de sujeito ao lado, como se pudéssemos dissociar a participação de cada um deles nessa processão. Distinguir ali onde não há distinção possível é um erro lógico.
O quinto argumento também faz um caminho lógico para tentar demonstrar a inconsistência da proposição. Se afirmarmos, diz, que o Pai e o Filho são um só princípio do Espírito Santo, então deveríamos poder afirmar que o Espírito Santo tem um só princípio, que são o Pai e o Filho. Mas esta construção não tem sentido, porque a ideia de que haja um só princípio seria contraditória com a atribuição desta condição de princípio a dois sujeitos (supósitos). Então igualmente contraditória seria a proposição inicial de que o Pai e o Filho são um só princípio do Espírito Santo.
Mas isto não é assim, diz São Tomás. Ambas as construções são verdadeiras. A condição de princípio, que relaciona o Pai e o Filho com o Espírito Santo, relaciona-os indistintamente. Eis aqui um limite da linguagem humana: o princípio do Espírito Santo é um só, o Pai e o Filho de modo indistinto. Não é como dois sujeitos, mas na sua unidade, que o Pai e o Filho são um só princípio. De certo modo, acrescento, podemos dizer que o princípio da existência humana é a união de um homem e de uma mulher, não de um modo que se pudesse subtrair ou separar a contribuição de um e de outro, mas exatamente por fazerem-se um neste originar. É uma analogia grosseira, mas pode ilustrar um pouco.
O sexto argumento vai no mesmo caminho. Afirma simplesmente que, se afirmarmos que o Pai e o Filho são um só princípio do Espírito Santo, então, uma vez que afirmar “um só princípio” significa afirmar que uma só substância origina alguma coisa, estaríamos simplesmente afirmando que o Pai e o Filho são um só, em ser princípio, o que é difícil de admitir- e muitos não admitem.
Mas São Tomás não vê problema numa afirmação assim. As Pessoas da Trindade são supósitos sem serem substâncias separadas, já que são da mesma e única substância divina. O Pai e o Filho podem, pois, ser um só princípio do Espírito Santo sem confundirem-se, já que o fato de ser um só princípio do Espírito Santo não é o que os distingue. São um só princípio do Espírito Santo sem deixarem de ser duas pessoas.
O último argumento objetor diz que, se a Trindade é o único princípio da Criação, é considerada então como um único Criador. Mas o Pai e o Filho não são considerados como um só espirador, quando originam o Espírito Santo; e cita Santo Hilário, que nos adverte que devemos crer que o Espírito Santo tem dois autores, o Pai e o Filho. Assim, o argumento conclui que não se pode dizer que o Pai e o Filho são um só princípio do Espírito Santo.
A espiração é uma só, responde São Tomás. Mas são dois os espiradores. São dois sujeitos que espiram numa única espiração. A qualidade de espirador, portanto, diz São Tomás, acompanha o número de sujeitos envolvidos. Mas a espiração, como substantivo que designa esta atividade única de originar a pessoa do amor, não se multiplica pelo número de sujeitos envolvidos, porque é uma só e a mesma atividade para todos.
Diferentemente ocorre com a Criação. Deus cria por sua essência, não por alguma atividade pessoal, como a que envolve o Pai e o Filho na espiração que origina a Pessoa do Espírito Santo, mas na unidade essencial da Trindade. Somos criaturas de Deus, que é Trindade na sua mais profunda intimidade, e somente a Trindade explica a Criação. Mas é daquilo que não os distingue que nós surgimos; a espiração, no entanto, distingue a Trindade entre os Espirantes e o Espirado.
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