Vimos, no artigo anterior, colocar-se o debate sobre em que sentido podemos dizer que o Espírito Santo procede do Pai pelo Filho. A hipótese controvertida é a de que o Pai e o Filho não são um só princípio do Espírito Santo. Vimos os sete argumentos objetores, no sentido desta hipótese controvertida inicial, e mais um argumento sed contra, e o debate foi estabelecido. Passamos a examinar a resposta sintetizadora de São Tomás.
Para começar, ele reitera um princípio trinitário: as pessoas somente se distinguem pelas relações. Ou seja, em tudo aquilo que não implica oposição relacional, elas são um. Assim, por exemplo, o Filho não pode ser origem do Pai, porque ser origem do Filho é próprio do Pai, e é exatamente isto que o caracteriza como Pai. Por outro lado, o Pai jamais pode receber algo do ser de outro, porque ele é origem, e é como origem que ele se relaciona com o Filho e com o Espírito Santo. Mas nada impede que o Pai e o Filho sejam, em comum, origem do Espírito Santo, porque este não é um aspecto que ponha o Pai e o Filho em oposição, ou seja, que, acontecendo com um seja contraditório que aconteça com o outro – como é o originar-se e ser originado reciprocamente. Assim, se originar o Espírito Santo não opõe o Pai ao Filho, isto significa que, em originá-lo, eles são um só princípio.
No entanto, diz São Tomás, há uma discussão gramatical aqui, feita por alguns que não aceitam a proposição “o Pai e o Filho são um só princípio do Espírito Santo”. É que eles entendem que a palavra “princípio”, particularizada, teria, aqui, o valor de um adjetivo; seria algo como principiador. E não significaria a própria pessoa, mas a propriedade que a pessoa tem de dar início a outro.
Neste caso, dizem, a expressão “um só”, se equivale a “único”, também é um adjetivo, e assim não se poderia dizer validamente que “o Pai e o Filho são um único principiador do Espírito Santo”, porque esta frase não teria sentido, porque, mesmo que principiassem juntos, eles não seriam jamais únicos nesta principiação, já que são sujeitos distintos. Salvo, dizem estes debatedores, se entendêssemos a expressão “um só” como adverbial, e não como adjetivo. Neste caso, ela seria um advérbio de modo, e a expressão equivaleria a “o Pai e o Filho são principiadores do Espírito Santo do mesmo modo”. Mas neste caso, nem eles estariam como um só princípio, nem mesmo o fato de “principiar o Espírito Santo” seria verdadeira propriedade do Pai, já que ele principia o Filho de um modo e o Espírito Santo de outro. Então teríamos que dizer que o Pai é duplo princípio do Espírito Santo, de um modo quando origina o Filho e de outro quando, com o Filho, origina o Espírito.
Não se pode, pois, tomar a afirmação neste sentido, ensina São Tomás. A palavra “princípio”, aí, não deve ser tomada pura e simplesmente, no sentido de consistir numa propriedade, como um adjetivo, mas como um substantivo: do mesmo jeito que “Pai”, embora designe uma relação e, a rigor, constitua um sujeito numa qualidade, a qualidade paternal, é tomada sempre, mesmo entre as criaturas, como substantivo, como quando dizemos que o Pai faz isto ou aquilo. O princípio, pois, é, aqui, um substantivo, que expressa em si a propriedade de originar o Espírito Santo, do Pai e do Filho em comum.
Assim, conclui São Tomás, do mesmo modo que dizemos que o Pai e o Filho, com o Espírito Santo, são um só Deus, pela unidade da forma divina, dizemos também que são um só princípio do Espírito Santo, pela unidade do Pai e do Filho na espiração, a propriedade da qual o Espírito Santo se origina.
É uma explicação, pois, sutil e um tanto difícil de seguir, para nossas mentes contemporâneas, não acostumadas a este tipo de raciocínio. Mas, quando compreendida devidamente, tem um enorme poder de explicação.
Sem dúvida, as respostas de São Tomás às objeções iniciais ajudarão a tornar um pouco mais claro o que ele quer nos ensinar aqui. Não é raro que o ensinamento de São Tomás seja assim, ou seja, que seja necessário ir adiante para compreender aquilo que ficou mais atrás.
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