Vimos, no artigo anterior, em que sentido podemos dizer que o Espírito Santo procede do Pai pelo Filho. A questão que se coloca agora é: então ele tem duas origens? Será que ele procede do Pai e do Filho como de duas fontes, ou a sua processão é de uma fonte só, tem um só princípio? A hipótese controvertida, aqui, será a de que o Pai e o Filho não são um só princípio do Espírito Santo. Há sete argumentos objetores, no sentido desta hipótese controvertida inicial, e mais um argumento sed contra, para estabelecer nosso debate.

O primeiro argumento parte da ideia da natureza comum e das propriedades específicas entre as três Pessoas trinitárias. O argumento diz que, se o Pai e o Filho fossem princípio comum do Espírito Santo, isto se daria por aquilo que eles têm em comum entre eles, que é a única natureza divina. Mas ocorre que o Espírito Santo também é desta mesma única e comum natureza divina, e, portanto, se a natureza divina comum do Pai e do Filho fosse o princípio do Espírito Santo, então ele seria princípio de si mesmo, já que é da mesma natureza que seria seu princípio. Como não se pode ser princípio de si mesmo, o argumento considera que esta não é uma solução adequada.

Por outro lado, prossegue o argumento, se imaginarmos que o princípio do Espírito Santo não é a natureza divina comum, mas alguma propriedade que fosse comum apenas ao Pai e ao Filho, também cairíamos numa contradição: propriedade vem de próprio, ou seja, descreve aquelas características que as Pessoas têm por si mesmas, separadamente, já que dois sujeitos diversos não podem compartilhar uma mesma propriedade. Assim, o argumento conclui que não se poderia afirmar que o pai e o Filho são um só e mesmo princípio do Espírito Santo.

O segundo argumento segue uma linha semelhante. Se digo, afirma o princípio, que o Pai e o Filho são um único princípio do Espírito Santo, então 1) os dois são uma só pessoa, ou 2) os dois são, juntos, um só princípio. Ora, continua o argumento, Eles não são uma só pessoa. Tampouco são, juntos, um só princípio, porque, neste caso, o Pai seria princípio do Filho sozinho e compartilharia com o Filho a propriedade de ser princípio do Espírito Santo, vale dizer, ele seria, em si mesmo, dois princípios diferentes, o que seria impossível, porque ele é apenas um sujeito (supósito) e não pode ser, sozinho, dois princípios. Logo, conclui o argumento, não se pode dizer que o Pai e o Filho são juntos um só princípio do Espírito Santo.

O terceiro argumento parte da afirmação de que o Filho não pode ser mais conforme ao Pai do que o Espírito Santo, isto é, o Filho não pode ser mais próximo do pai, mas semelhante a ele, mais adequado a ele, do que o Espírito Santo. Mas se o Filho é, com o Pai, o mesmo princípio do Espírito Santo, seria preciso que o Espírito Santo fosse, também em unidade com o Pai, princípio de alguma Pessoa trinitária, e ele não é. Então, se o Espírito Santo não é princípio único, com o Pai, de ninguém, então, conclui o argumento, o Filho também não pode ser.

O quarto argumento faz um pequeno jogo lógico; se o Espírito Santo tem um princípio único, ou este princípio é o Pai ou não é. Mas, segundo o argumento, nenhuma destas duas hipóteses é possível. Se o princípio único for o Pai, diz o argumento, e quisermos dizer que o Pai e o Filho são o princípio único, então teríamos que admitir que o Pai e o Filho são a mesma pessoa, o que é absurdo. Mas se o princípio único não for o Pai, e ao mesmo tempo quisermos dizer que o Pai e o Filho são princípio único do Espírito Santo, então teríamos que concluir que o Pai não é o Pai, o que também, segundo o argumento, é absurdo. Logo, não se pode dizer, conclui, que o Pai e o Filho sejam princípio único do Espírito Santo.

O quinto argumento vai na mesma linha, de tentar mostrar que esta proposição conduz a resultados lógicos absurdos. Se pudermos afirmar que o Pai e o Filho são um só princípio do Espírito Santo, diz o argumento, então deveríamos também poder afirmar o inverso: que o Espírito Santo tem um só princípio, que é o Pai e o Filho. Mas isto seria absurdo, diz o argumento, já que aquilo que é chamado aqui de princípio teria que ter um só sujeito ao qual fosse vinculado, seja o Pai, seja o Filho; mas qualquer das duas vinculações seria falsa, pelo conteúdo. Mas se afirmamos que o Pai e o Filho são um só e o mesmo princípio do Espírito Santo, estamos atribuindo um predicado único a dois sujeitos, o que é impossível, diz o argumento.

O sexto argumento inicia com a afirmação de que a unidade traz como consequência a identidade, quer dizer, aquilo que é uno é igual a si mesmo. Assim, prossegue, se o Pai e o Filho são um só princípio do Espírito Santo, então eles são o mesmo princípio, e portanto idênticos em todos os aspectos. Mas isto não pode ser admitido, diz o argumento. Assim, conclui o argumento, o Pai e o Filho não podem ser um único princípio do Espírito Santo.

O último quer fazer uma analogia com deus criador, de um lado, e as criaturas, do outro. Não é uma das pessoas da Trindade que cria, mas Deus, em sua unidade essencial, é nosso criador, por ser nosso único princípio. Ora, diz o argumento, o Pai e o Filho não são só um espirador, mas dois espiradores, como ensinam tantos mestres. E o argumento cita santo Hilário, que afirma que devemos ter por certo que o Espírito Santo tem o Pai e o Filho como seus autores. Assim, o argumento conclui que seria inadequado dizer que o Pai e o Filho são um único princípio do Espírito Santo.

O argumento sed contra cita uma simples passagem da obra de Santo Agostinho sobre a Trindade: ele afirma ali que o Pai e o Filho não são dois princípios do Espírito Santo, mas um só princípio.

No próximo artigo acompanharemos a resposta sintetizadora de São Tomás a este longo debate.