A discussão que agora se anuncia é importantíssima. Trata-se da chamada cláusula “filioque”, que foi o pretexto para o cisma do Oriente em 1054. De fato, o antigo Credo Niceno-Constantinopolitano recitava que o Espírito Santo procede do Pai; os orientais sempre afirmaram que a Igreja Latina incluiu indevidamente a parte que declara que ele procede do Pai e do Filho. Esta discussão será feita agora, num artigo um tanto longo. São sete argumentos objetores, no sentido da hipótese controvertida inicial, e mais o argumento sed contra.
A hipótese controvertida inicial é exatamente a negação da cláusula filioque: propõe que “parece que o Espírito Santo não procede do Filho”. Como já vimos, são sete os argumentos objetores. Os seis primeiros são basicamente os argumentos que os Ortodoxos usam contra a cláusula filioque. O último é um argumento debatido mesmo no Ocidente.
O primeiro argumento objetor parte do (pseudo) Dionísio Aeropagita, num argumento com sabor de “Sola Scriptura”. Ele diz que não devemos falar nada sobre a substância divina além do que esteja expresso nas escrituras. Ora, diz o argumento, segundo o Evangelho de São João (15, 26), o Espírito Santo é “O espírito da verdade que procede do Pai”. Assim, o argumento conclui que ele não procede do Filho.
O segundo argumento cita exatamente o texto histórico do Credo Niceno-Constantinopolitano, Em que se reza: “Creio no espírito Santo, Senhor que dá a vida, e que procede do Pai, e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado”. Assim, conclui o argumento, não somente não se pode admitir que o Espírito Santo seja procedente do Filho, como a modificação desse Credo torna o modificante culpado de anátema.
O terceiro argumento cita um Padre da Igreja, oriental, São João Damasceno, que diz: “afirmamos que o Espírito Santo procede do Pai e o chamamos de Espírito do Pai; mas não dizemos que ele procede do Filho, embora o chamemos de espírito do Filho”. Assim, conclui o argumento, há bons fundamentos patrísticos para afirmar que o Espírito Santo não procede do Filho.
O quanrto argumento parte da ideia de que nada poderia, ao mesmo tempo, proceder daquilo em que permanece (repousa). E o argumento resgata a Legenda de Santo André, que inicia assim: “A paz esteja convosco e com todos aqueles que creem em um só Deus o Pai, e em seu Filho único Nosso Senhor Jesus Cristo, e no único Espírito Santo que procede do Pai e permanece no Filho”. Se ele permanece no Filho, diz o argumento, não se poderia dizer, sem contradição, que ele procede do Filho.
O quinto argumento faz uma analogia entre o espírito humano e a processão do Espírito de Deus. O Filho, diz o argumento, procede como verbo, de um modo análogo àquele pelo qual, em nós, procede a palavra, como termo do nosso conhecer. Mas o nosso espírito humano não procede, em nós, das nossas palavras mentais. Assim, tampouco o Espírito Santo poderia proceder do Verbo divino.
O sexto argumento afirma que o Espírito Santo procede de modo total, perfeito, completo, do Pai. Assim, seria redundante, supérfluo mesmo, introduzir o Filho nesta processão, como se proceder do pai não fosse suficiente.
O sétimo e último argumento traz um debate que se faz mesmo na teologia ocidental, a respeito da processão do Espírito Santo. Trata-se de discutir qual a distinção entre o Filho e o Espírito Santo; este é um dos fundamentos da resposta sintetizadora de São Tomás, como veremos adiante; como distinguir o Filho do Espírito Santo, pergunta São Tomás na sua resposta sintetizadora, se admitirmos que ambos simplesmente procedem do Pai? Sem admitir que o Espírito procede também do Filho, teríamos dificuldades em distinguir o Filho do Espírito, já que, diferentemente das coisas materiais, que individualizam-se pela matéria, em Deus apenas a origem é fator de multiplicação. Mas este sétimo argumento quer resolver este problema sem recorrer à ideia de que o Espírito Santo procede também do Filho. O argumento lembra que Deus é perfeito, e que, naquilo que é perfeito, não há distinção entre o ser e o devir, entre o ser e o dever-ser, porque tudo é plenitude e nada se transforma. Se é assim, prossegue, podemos dizer que o Filho e o Espírito Santo, embora tenham ambos o mesmo ser do Pai, podem perfeitamente distinguir-se apenas pelo modo com que se originam do Pai. O Filho se origina por geração, ou seja, nasce do Pai. O Espírito Santo, por outro lado, procede do Pai, por um modo diverso da geração. Esta diferença entre o ser gerado e o proceder, diz o argumento, é perfeitamente suficiente para distingui-los, sem que seja necessário introduzir a ideia de que o Filho procede do Pai. E o argumento cita Santo anselmo, que afirma que esta distinção seria suficiente para diversificá-los, mesmo que nenhuma outra diferença houvesse. Assim, o argumento conclui que não seria necessário admitir que o Espírito Santo procede também do Filho, para poder distingui-los.
O argumento sed contra traz uma citação do chamado “Credo de Atanásio”, que é anterior ao cismo do Oriente, e portanto se impõe como símbolo de retidão na fé anterior à discórdia da cláusula filioque.
No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de São Tomás.
Deixe um comentário