Vimos, no texto anterior, a hipótese de que a expressão “Espírito Santo” não designa uma realidade pessoal na Trindade, mas refere-se à essência divina em sua unidade essencial. Vimos três argumentos objetores e o argumento sed contra, que completou o debate. Examinaremos agora a resposta sintetizadora de São Tomás.
Ele inicia expondo uma dificuldade terminológica: enquanto temos uma riqueza linguística, em palavras humanas, para descrever a processão do Verbo, no caso a processão do amor a situação é diferente. Não há um termo próprio para nomear a processão do amor. Assim, as relações que se fundamentam no amor tampouco têm nome próprio, como têm aquelas que se fundam no intelecto. Tampouco a Pessoa que procede pelo modo do amor tem um nome próprio adequado, capaz de expressar sua realidade propriamente. O Filho tem diversos nomes que lhe são convenientes, mas o Amor não. Tudo isto, lembra São Tomás, foi debatido em questões anteriores.
Assim, diz São Tomás, temos que recorrer ao modo usual, costumeiro, de falar sobre esta Pessoa Trinitária procedente do amor. Chamamos a esta relação de amor de diversas formas, como processão ou espiração, mas, diz São Tomás, estas palavras significam mais propriamente as noções trinitárias do que propriamente as relações de amor. As noções, como já debatemos, são cinco: inascibilidade, paternidade, filiação, espiração comum e processão. Destas, a paternidade e a filiação são relações opostas na processão do Verbo, que se chama geração. Mas a processão do amor, como São Tomás ensinou na questão 28, artigo 4, na resposta sintetizadora, não tem um nome próprio. Assim, os nomes que pertencem às noções do princípio da processão (no caso, no polo ativo da processão do amor, como originantes, estão o Pai e o Filho, aos quais se aplica a noção de espiração comum, e no polo passivo, como originado, está o procedente, o Amor espirado, o Espírito Santo, cuja noção é de processão em sentido estrito) são utilizados para designar as próprias relações de amor, já que não têm nome próprio.
A mesma coisa, diz ele, ocorre com o nome desta Pessoa que procede do amor: nós a chamamos, por razões bíblicas, de Espírito Santo. É um nome derivado do uso bíblico, e portanto não há uma razão teológica fundamental, cogente, para justificar o seu uso – como há razão para chamar o Filho de Filho, Palavra ou Imagem. Mas é conveniente chamar esta Pessoa de Espírito Santo, diz São Tomás. Esta conveniência pode fundar-se em duas explicações:
1) A primeira explicação envolve o fato de que esta Pessoa, o Amor, é em si mesma a comunhão do Pai e do Filho. Ora, segundo Santo Agostinho, se o Espírito Santo é a comunhão dos dois, então deve ser nomeado por aquilo que os dois têm em comum. O Pai é espírito, o Filho também é. O Pai é santo, o Filho também é. Assim, nada mais adequado do que chamar de Espírito Santo à pessoa que reúne em si em comunhão o espírito comum dos dois e a santidade comum dos dois.
2) A segunda explicação envolve a própria significação da palavra “espírito”. A origem desta palavra está relacionada à respiração, ao ar em movimento nos seres vivos, ao próprio vento (cf. João 3, 8). Ora, ela significa, pois, um impulso vivo, uma moção, um mover-se com sentido. Mover-se com sentido, impulsionar aquele que ama no sentido daquele que é amado, tudo isto pode ser significado pela palavra “espírito”. Por outro lado, a palavra “santo” significa, em sentido próprio, tudo aquilo que está ordenado em Deus e para Deus. Assim, a Pessoa divina que significa o movimento de Deus que se ama e se quer inteiramente, que simultaneamente é amado e se dá inteiramente, pode ser muito convenientemente chamada de Espírito Santo.
Depois de nos presentear com esta linda explicação, São Tomás passa a responder às objeções iniciais.
A primeira objeção cita Santo Hilário, para quem as Escrituras às vezes falam do Espírito como Pai, às vezes como Filho e às vezes como Espírito Santo, para concluir que a expressão “Espírito Santo” não designa uma realidade pessoal em Deus, mas uma realidade comum às três pessoas.
São Tomás reconhece que, se considerarmos apenas a significação da expressão “Espírito Santo”, o argumento tem fundamento. De fato, diz ele, a expressão Espírito Santo, em seu significado gramatical, alude a Deus em si mesmo, ou seja, à Trindade inteira. De fato, a palavra “espírito” alude à imaterialidade divina em sua vitalidade dinâmica, e a palavra “santo” alude à pureza da infinita bondade de Deus. Assim, a alocução “Espírito Santo”, tomada gramaticalmente, poderia referir-se simplesmente a Deus, e não a uma das Pessoas da Trindade. Mas o uso da Igreja, em razão do uso escritural, fez com que a expressão “Espírito Santo” adquirisse um sentido teológico próprio, como nome da terceira pessoa trinitária, que procede como Amor, pelas razões expostas na resposta sintetizadora.
O segundo argumento objetor vai lembrar que os nomes próprios das Pessoas da Trindade sempre carregam em si a marca da relação que origina as Pessoas, como no caso do Pai e do Filho, por exemplo. Há aí, pressuposta, uma relação de paternidade. Mas a expressão “Espírito Santo” não remete a nenhuma relação pressuposta, e disso o argumento conclui que não pode ser nome de uma realidade pessoal na Trindade.
A resposta de São Tomás é dupla:
1. De fato, diz São Tomás, o none “Espírito Santo” não significa, por si mesmo, nenhuma situação relacional. Mas, como se explicou na resposta sintetizadora, as Escrituras e a práxis eclesial adotaram este nome para a Terceira Pessoa da Trindade, e então ele passou a pressupor uma relação de origem.
2. A própria significação da palavra “Espírito” pode pressupor, por sua origem, alguém que respira. Assim, poder-se-ia compreender, neste nome, a remissão a uma relação entre alguém que como que espira ou respira e outro alguém que é como que espirado, ou expirado.
Por fim, o terceiro argumento afirma que o nome que designa uma realidade pessoal na Trindade não pode ser predicado de nenhum outro ser. Cita, então, trechos das Escrituras em que o Espírito, como força divina, é predicado de alguma pessoa humana (Espírito de Elias, de Moisés) para negar que ele possa ser considerado como nome próprio de uma realidade pessoal na Trindade.
São Tomás responde que o argumento parte de uma característica que é própria apenas da Pessoa do Filho; é próprio do Filho ser designado como aquele que procede de um princípio, com relação a este princípio. Quer dizer, ser Filho significa e pressupõe ser originado daquele pai específico. Assim, se eu me refiro a alguém como “filho de fulano”, estpu dizendo que este fulano é o gerador, a origem, daquele filho. É por isto que não podemos atribuir a nenhum ser humano o ter a Segunda Pessoa da Trindade como Filho seu; nós não podemos originar Deus (a questão da encarnação não se põe aqui; assim, não discutiremos ainda o caso de Maria). Ele, a segunda Pessoa, é Filho só do seu único Pai eterno. Mas, uma vez que o Pai é caracterizado por ser origem, nada impede que nós, humanos, chamemo-lo de “Pai Nosso”, reconhecendo nele nossa própria origem criatural. Também o Espírito Santo, que é propriamente um impulso de amor, pode perfeitamente impulsionar uma criatura, e ser chamado de “Espírito de Elias” ou “de Moisés”, para significar que reconhecemos neles pessoas impulsionadas pelo Espírito de Deus.
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