Entramos agora no estudo daquela que já foi chamada “a mais desconhecida das pessoas trinitárias”, o Espírito Santo. E não deveria ser assim: se Deus é amor, e o Espírito Santo é a procesão do amor, deveria ser a mais evidente.

Temos dificuldade, como veremos neste artigo, até mesmo de nomear o Espírito Santo. Enquanto nos parece evidente que o próprio nome “Pai” pressupõe uma relação de paternidade com o Filho, e por isto só pode nomear uma realidade pessoal em Deus, assim como os nomes “Filho”, “Verbo” e “Imagem”, como estudamos nas últimas questões, o nome “Espírito santo” parece menos óbvio como nome de uma realidade pessoal. Se Deus é espírito, e se Deus é santo, o normal seria imaginarmos que a expressão “Espírito Santo” designa muito mais uma realidade essencial, unitária, em Deus, do que uma Pessoa da Trindade. E é exatamente esta a hipótese controvertida agora: parece que a expressão “Espírito Santo” não designa uma realidade pessoal em Deus, senão um aspecto da sua substância e, portanto, um aspecto da sua unidade. É a partir desta hipótese que São Tomás quer iniciar o debate, e nos apresenta logo três argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial, para provar que “Espírito Santo” não é nome de pessoa, mas de característica da unidade substancial de Deus.

O primeiro argumento afirma que nenhum nome que designa uma realidade comum às três Pessoas da Trindade pode ser considerado como um “nome pessoal”. E o argumento cita Santo Hilário, que, num apanhado de passagens da Santa Escritura, afirma que a Bíblia às vezes fala de “Santo Espírito” para referir-se à ação do Pai (Isaías 61, 1: o Espírito do Senhor repousou sobre mim…), outras vezes a ação do Filho (Mateus 12, 28: Se é pelo Espírito de Deus que eu expulso demônios, ou seja, pela divindade que é sua natureza filial); em outra citação, Santo Hilário vê uma menção do próprio Espírito Santo como Pessoa (Joel 2, 28: Derramarei o meu espírito sobre toda carne…). Assim, se as Escrituras usam a expressão “Espírito Santo” indiscriminadamente para as três Pessoas, diz o argumento, não se pode considerar que ele é um nome pessoal em Deus.

O segundo argumento nota que, com relação a outros nomes que se referem a realidades pessoais em Deus, a nota comum entre eles é que são sempre nomes relativos, ou seja, nomes que pressupõem relação nas coisas que são nomeadas. Assim, um Pai sempre pressupõe um Filho, uma Imagem sempre pressupõe um exemplar, uma palavra sempre pressupõe uma ideia a ser manifestada por uma inteligência, e assim por diante. Mas a expressão “Espírito Santo” não designa alguma relação. Assim, uma vez que é parte da própria noção de Pessoa, na Trindade, que haja uma relação subsistente que a individualize, uma expressão que não se refere a nenhuma relação não pode ser um nome pessoal, em Deus, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor afirma que aqueles nomes que designam propriamente realidades pessoais em Deus, como Filho, não podem ser propriamente predicados de uma criatura: assim, ninguém poderia chamar de “Filho nosso” a segunda Pessoa da Trindade. Mas, prossegue o argumento, a palavra “espírito” pode ser propriamente predicada da criatura, mesmo para referir-se a Deus. E o argumento traz duas citações bíblicas; Em Números 11, 17, Deus se dirige a Moisés dizendo: “tirarei do espírito que é sobre ti e o porei neles”. Em 2 Reis 2, 15, os irmãos profetas dizem: “o espírito de Elias repousa sobre Eliseu”. Por este uso, diz o argumento, parece estar claro que a expressão “Espírito Santo” não designa uma realidade pessoal em Deus.

Como argumento sed contra, uma citação escritural, que é retirada da tradução Vulgata que São Tomás conheceu e utilizou em seu tempo, mas que não se encontra na maioria das versões canônicas que temos hoje, porque não está presente em muitos manuscritos bíblicos antigos. Ali se dizia: “Porque são três os que testemunham no céu: o Pai, o Verbo e o Espírito Santo”. Nas traduções canônicas atuais, o trecho “no céu: o Pai, o Verbo e o Espírito Santo” não aparece, e prossegue-se logo para o versículo 8, que fala: “o Espírito, a água e o sangue”. Em todo caso, o argumento sed contra prossegue, citando Santo Agostinho. Agostinho diz que, quando este texto fala em “três”, pergunta-se: “que três?”, e a resposta é: “as três pessoas”. O argumento funciona mesmo com as traduções bíblicas modernas, e leva à conclusão de que o Espírito, citado como um dos “três” que dão testemunho divino, é uma realidade pessoal em Deus.

Estudaremos a resposta sintetizadora de São Tomás, bem como suas respostas específicas aos argumentos objetores, no próximo texto.