Já vimos, na questão anterior, que podemos chamar a Segunda Pessoa de Palavra ou Verbo; mas vimos também que apenas uma noção humana, ainda que expresse de fato algum aspecto do mistério pessoal da Trindade, não consegue esgotá-lo. Nesta questão 35, portanto, estudaremos o Filho a partir de outra noção que descreve sua pessoalidade: a imagem. É uma noção importantíssima, porque, dentre outras coisas, é expressamente citada na Bíblia com referência ao Filho (Col 1, 15) e relaciona Jesus conosco, já que somos criados à imagem de Deus (Gen 1, 27). Mas, para promover o debate, o artigo nos propõe a seguinte hipótese controvertida: parece que a noção de Imagem não se refere a uma Pessoa da Trindade, mas à unidade da essência divina. São três os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento cita Santo Agostinho (mas trata-se, na verdade, de uma obra equivocadamente atribuída a Agostinho, porque na verdade é de São Fulgêncio de Ruspe), que assegura que o ser humano foi criado à imagem una da Santa e Divina Trindade; assim, o argumento conclui que, quando se predica a noção de Imagem a Deus, tratamos dele na sua unidade, e não de alguma pessoa trinitária.
O segundo argumento objetor cita Santo Hilário, para quem a imagem é a própria forma (species) que espelha aquilo de que ela é forma. Mas, em Deus, a forma (species) relaciona-se com a essência, e não com uma das Pessoas da Trindade. Assim, o argumento conclui que imagem não é um nome próprio do Filho, mas algo próprio da essência unitária de Deus.
O terceiro argumento afirma que a palavra imagem vem de imitar, e a própria noção de imitação embute em si uma ideia de hierarquia, ou seja, algo que é anterior (superior) e algo que é posterior (e inferior, derivado, inautêntico). Mas não poderíamos admitir alguma hierarquia intratrinitária, ou mesmo alguma imperfeição ou inautenticidade numa Pessoa Trinitária. Assim, o argumento conclui que não se pode aplicar a noção de Imagem a uma Pessoa da Trindade, como nome próprio.
O argumento contrário diz, citando Agostinho, que seria absurdo falar em imagem daquilo que é absolutamente igual a si mesmo, ou seja, a própria noção de imagem pressupõe algo relativo ao que se está espelhando. Ora, conclui o argumento, aquilo que, em Deus, implica relação, é sempre nome de pessoa. Assim, o argumento sed contra conclui que, em Deus, imagem é um nome pessoal.
Respondendo, São Tomás vai nos dar uma verdadeira aula sobre imagem. E destaca duas noções básicas para compreender bem o que é uma imagem.
A primeira noção é de semelhança. De fato, para que possamos dizer que alguma coisa é imagem de outra, é necessário reconhecer, entre elas, alguma semelhança. Mas não se trata simplesmente de parecer de algum modo, como poderíamos dizer que uma pétala de rosa parece a pele clarinha de um bebê, por exemplo. É necessário, diz São Tomás, que haja algo parecido na forma (species) ou pelo menos em algum aspecto da forma. Entre as coisas materiais, diz São Tomás, a semelhança se verifica principalmente pela figura da coisa. Assim, por exemplo, não consideraríamos semelhantes dois animais da mesma cor que não fossem parecidos na figura; não diríamos que um urubu parece uma onça-preta simplesmente por terem a mesma cor. Se alguém pintar uma parede de preto, não diremos que ele pintou ali uma onça-preta. Para que reconhecêssemos ali alguma imagem, seria necessário que víssemos algo parecido com a forma da onça.
Mas isto não basta, diz São Tomás. Além de alguma similitude de figura, a imagem pressupõe alguma origem comum. De fato, diz ele, ninguém diz que um ovo de codorna é imagem de um ovo de galinha, simplesmente por serem semelhantes em forma. Uma vez que um ovo não é expressão do outro, diz Santo Agostinho, não se pode dizer que sejam imagem um do outro.
Assim, falar de Imagem de Deus é falar de algo que se origina de outro e lhe compartilha a forma… e, portanto, conclui São Tomás, é falar de relação de origem e semelhança; que é exatamente a noção de pessoa trinitária. Assim, imagem, em Deus, é nome que designa uma realidade pessoal.
Ele passa a responder às objeções iniciais.
A primeira objeção diz que nós, humanos, somos criados à imagem da Trindade, e que, portanto, quando falamos em imagem de Deus, falamos de um atributo essencial e não pessoal.
São Tomás responde fazendo uma distinção, que podemos traduzir mais ou menos assim: imaginemos alguém que se olha no espelho. Aquilo que aparece no espelho é chamado propriamente de imagem. Mas a pessoa que se olha no espelho, e vê sua imagem refletida, não pode ser chamada propriamente de imagem; propriamente, ela pode ser chamada de exemplar, e apenas impropriamente, metaforicamente, de imagem. Assim, quando o argumento diz que a Trindade é a imagem a partir da qual o ser humano foi criado, ele deveria dizer que a Trindade é o exemplar a partir do qual o ser humano foi criado. A noção de Imagem é usada impropriamente aqui, para se referir à Trindade. Imagem, aqui, no sentido próprio, é a criatura.
O segundo argumento objetor cita Santo Hilário, dizendo que a imagem é a própria species da coisa espelhada, isto é, a sua forma. Assim, uma vez que a forma de Deus é essencial e não pessoal, a sua imagem não poderia ser, tampouco, pessoal.
Mas não é assim, diz São Tomás. Ele começa dizendo que esta noção de imagem como species é própria de Santo Hilário; assim, diz São Tomás, species, no sentido que Santo Hilário lhe dá, nada mais é do que a forma de um ser aplicada a outro. Quando conhecemos, por exemplo, a species espelharia a coisa conhecida em nossa inteligência, intencionalmente. Assim, teríamos o seguinte problema: como imaginar que a forma de Deus pudesse ser aplicada a outro? Como imaginar uma “imagem de Deus” dentro do conceito de Hilário? Somente considerando que a imagem é pessoal em Deus, ou seja, que ela se distingue em Deus somente pela origem, mas não pela substância, sendo simultaneamente um só Deus e outra pessoa.
Por fim, o último argumento objetor diz que seria inadequado falar em imagem como nome próprio de uma pessoa divina, porque imagem é uma imitação, e portanto implicaria uma hierarquia, uma anterioridade do que é imitado, e consequentemente uma posteridade, ou inferioridade, daquilo que imita. Ou seja, se admitíssemos, diz o argumento, que a segunda pessoa é uma imagem, ela seria inferior àquilo de que é imagem, como uma imagem num espelho é menos do que a pessoa refletida. Assim, o argumento conclui que não se pode admitir que uma das Pessoas da Trindade seja propriamente chamada de imagem.
São Tomás responde simplesmente que, em Deus, a imagem não é uma mera reprodução, algo como uma cópia, que fosse inferior ao original. Em Deus, a semelhança da imagem implica igualdade plena de natureza, sem hierarquia, sem inferioridade, sem primeiro ou segundo.
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