No último texto, vimos os termos do debate. Acompanhemos agora a resposta sintetizadora de São Tomás.
Chamar o Filho de “Verbo”, diz São Tomás, implica reconhecer relação com as criaturas. O Verbo de Deus diz respeito às criaturas, refere-se a elas. Guarda em si toda a inteligibilidade de toda a criação. Deus, conhecendo-se, conhece em si, neste ato único e subsistente de conhecer-se, toda criatura, que foi por ele concebida, querida e amada antes de existir, e que passou a existir porque ele quis. De modo análogo, diríamos, ao modo que um excelente artista conhece sua obra de arte ainda na sua mente, quando ela é por ele concebida e antes mesmo de ser realizada.
Neste ponto São Tomás lembra-nos de novo qual o primeiro significado da noção de “verbo”, no processo de conhecimento humano. O verbo, ou a palavra, que concebemos em nossa mente, é a conceitualização, em nossa mente, de tudo aquilo que efetivamente chegamos a conhecer (ou, como diziam os clássicos, de tudo aquilo que nos é conhecido em ato). Assim, dispomos de tantas palavras quantas sejam as coisas que conhecemos. É próprio do ser humano que, em nossa inteligência, as razões e as palavras se multipliquem. Mas a inteligência divina, diz São Tomás, não é assim.
Deus conhece sempre perfeitamente. E o objeto perfeito do seu conhecimento é Ele mesmo. Deus não tem segredos para si mesmo. E sendo, como é, uno por essência, a um tempo indiviso e pleno, a extensão do conhecimento que Deus tem sobre si mesmo é total. Conhece-se, inclusive, como aquele que dá origem a tudo o mais que existe, ou seja, toda a criação. Conhece, portanto, a criação porque se conhece, porque não precisa “aprender” sobre a criação que saiu dele próprio. Ora, todo este conhecimento de Deus é uno, simples, pleno, total, indiviso e perfeito, como ele próprio é. Portanto, o Verbo, em Deus, sendo o termo imanente que procede de seu conhecer-se, é igualmente uno, pleno, indiviso e perfeito, da mesma substância de Deus. Se o verbo é o conhecimento conceitualizado, disponível como palavra, não poderíamos imaginar que houvesse duas ou mais palavras em Deus; sua palavra é una, simples, perfeita, indivisível e plena, igual em substância a ele próprio, de quem se origina.
Esta origem relacional (Deus que origina uma palavra, a própria Palavra originada em Deus) não é outra coisa que a própria substância divina, que se multiplica sem dividir-se, em razão da relação entre aquele que origina a Palavra (a quem chamamos de Pai) e a própria Palavra originada (a quem chamamos de Filho). Assim, conhecendo-se, a Palavra originada inclui toda a razão indivisível de Deus, e portanto inclui a criação toda e cada uma das coisas criadas, como razões na mente única de Deus. Assim, diz São Tomás, a Palavra de Deus expressa não somente Deus todo, mas também todas as coisas que Deus cria, criou ou criará, e até mesmo as coisas que, embora possíveis, ele resolveu não criar.
Poderíamos dizer, em linguagem humana, que o Verbo de Deus, visto do nosso ponto de vista, tem duas dimensões: naquilo que expressa o conhecimento de si mesmo, ele é contemplativo, porque Deus não se fez nem pode experimentar mudanças – pode, portanto, conhecer-se como é, como foi e como será sempre. Mas, quanto ao conhecimento que tem de nós, não se trata apenas de contemplação, mas de construção, ou seja, envolve o fazer, o criar, o agir de Deus. É nisto, portanto, em ser fundamento da razão da nossa própria existência, que o Verbo de Deus diz respeito a nós, faz referência a nós, em suma, relaciona-se conosco, criaturas. E São Tomás apresentará a fundamentação escritural para sua conclusão citando o Salmo 32, 9: “”Porque ele disse e tudo foi feito, ele ordenou e tudo existiu”. É pela Palavra, a única Palavra de Deus, que é seu Filho, que nós somos.
Posto tudo isto, São Tomás passa a responder às objeções iniciais.
O primeiro argumento nega que o Verbo tenha relação com as criaturas, sob a alegação de que aqueles aspectos de Deus que se relacionam com as criaturas estão sempre referidos à unidade essecial de Deus, e “Verbo” é o nome de uma Pessoa da Trindade.
São Tomás responde que o fato de que Deus se relaciona conosco a partir da sua unidade essencial não exclui o fato de que as Pessoas Divinas relacionem-se conosco. De fato, na própria noção boeciana de “pessoa” está incluída a substância: pessoa, diz Boécio, é “substância individual de natureza racional”. Ora, as pessoas divinas são a própria substância divina una e indivisa, mas individualizada pelas relações subsistentes. Aquilo que as individualiza, diz São Tomás, não tem relação com as criaturas; mas aquilo que as unifica (e que, em última instância elas são também, ou seja, a substância divina una) relaciona-se conosco, criaturas. O Filho é Filho, e nessa condição é oposto ao Pai. Mas ele é Deus gerado, ou seja, Criador gerado, e portanto relacionado conosco. A objeção, portanto, não procede.
O segundo argumento objetor vai afirmar que tudo aquilo que podemos dizer de Deus com relação às criaturas envolve temporalidade, contingência, precariedade; por exemplo, se chamamos Deus de “Senhor”, para afirmar que ele é o Senhor da toda a criação, temos que admitir que ele só o é a partir da existência da criação, e portanto temporalmente. Mas a noção de Verbo não implica qualquer temporalidade, porque o Verbo divino é eterno. Assim, o argumento conclui que não podemos reconhecer relação entre o Verbo e as criaturas.
Não é verdade, diz São Tomás. As relações, explica ele, derivam sempre de ações. E existem dois tipos de ações: as transitivas, que iniciam em nós e terminam fora de nós, como cozinhar, pintar, escrever, etc., e as imanentes, ou seja, aquelas que iniciam e se aperfeiçoam dentro mesmo de nós, como conhecer e querer. Assim, diz São Tomás, as ações transitivas de Deus relacionadas a nós são sempre predicadas temporalmente, porque implicam relação com uma realidade que existe no tempo. Pode-se, portanto, dizer que Deus é nosso criador ou nosso governante no tempo, na história, na qual ele não se recusa a entrar. Mas aquelas ações imanentes em Deus, relacionadas às criaturas, como conhecê-las e querê-las, predicam-se em Deus independentemente de tempo, história ou contingência: Deus nos conhece e nos quer desde toda a eternidade. Assim, no campo das ações divinas imanentes, nada impede que o Verbo tenha relação conosco.
A terceira objeção parte da ideia de que o Verbo tem como característica central a relação com aquele de que se originou. Se, portanto, admitirmos que ele tem relação com as criaturas, teríamos que admitir que ele procede de algum modo das criaturas, conclui o argumento.
São Tomás responde lembrando a diferença do modo pelo qual Deus conhece as criaturas e conhece a si mesmo. Ele conhece a si mesmo por contemplação, ou seja, seu conhecimento mede-se por sua natureza, é não-operativo. Mas conhece as criaturas por conceber em si, desde a eternidade, suas essências, pelas quais as cria e conduz a seu fim. Assim, é um conhecimento operativo, quer dizer, ele mede as criaturas, e não o contrário. Deus não aprende com as criaturas o que elas são; ao contrário, elas são o que Deus sabe delas. Assim, a relação dp Verbo com as criaturas não é da mesma qualidade da relação entre o Verbo e o Pai. Ele, o Verbo, não procede delas. Ele as expressa e mede.
O quarto argumento parte da noção de que, quando conhecemos, formamos uma palavra (verbo) em nossa inteligência para cada ideia das coisas com as quais entramos num processo de conhecimento. Assim, conclui o argumentos, se admitíssemos que o Verbo tem relação com as criaturas, teríamos que admitir que há em Deus muitas palavras (verbos).
Respondendo, São Tomás explica que as ideias, em Deus, que o relacionam com as criaturas, são de fato muitas. Assim, podemos falar nas “ideias” que há em Deus, assim no plural mesmo. Mas a noção de ideia, em Deus, não designa uma Pessoa Trinitária. Ideia não é sinónimo de verbo.
Não é assim com a noção de “Verbo”. O Verbo (ou Palavra) de Deus é uma Pessoa Trinitária que procede do Pai, tendo com ele uma relação de origem, e a sua relação com as criaturas consiste em que todo o conhecimento de Deus sobre elas está expresso no Verbo, que é a expressão completa do conhecimento que Deus tem de si mesmo, e portanto, inclui a concepção que ele tem de todo o que é criado. Conhecendo-se perfeitamente, Deus conhece tudo o que há, inclusive o que cria, e todo este conhecimento esta expresso na sua única Palavra – e esta é a relação entre a Palavra e as criaturas.
Por fim, o quinto argumento objetor parte da ideia de que, se o verbo tem relação com as criaturas, então esta relação só pode ser uma relação de conhecimento, haja vista ser o verbo o conhecimento divino originado. Mas, prossegue o argumento, Deus conhece não somente o ser, mas também o não-ser. Ora, prossegue, se o conhecimento do ser implica relação do Verbo divino com as criaturas, o conhecimento do não-ser implicaria reconhecer uma relação entre o Verbo e o não-ser, o que seria impensável. Logo, o argumento conclui que não se pode falar de relação entre o Verbo e as criaturas.
A resposta de São Tomás admite que Deus conhece o não-ser, como, aliás, já debatemos numa questão anterior. Mas há uma diferença: o conhecimento do não-ser não é um conhecimento para fazer, não é um projeto. Do não-ser se sabe apenas porque ele é uma deficiência num ser, mas ele não é uma coisa. O conhecimento sobre ele é uma expressão, mas não é factível. Assim, aquilo que não é não pode relacionar-se com Deus. Mas o conhecimento que Deus tem da sua criação, expresso no Verbo, é pensamento, vale dizer, é conhecimento para fazer; assim, aquilo que é feito é feito porque conhecido previamente no Verbo, e relaciona-se portanto com ele.
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