Neste último artigo, já havendo estabelecido que é adequado chamar de “Verbo” o Filho, São Tomás quer discutir qual a relação entre o Verbo e nós, criaturas. Trata-se de discussão importantíssima e profundamente mística, além de muito adequada para nossos tempos: em que medida o logos, o sentido, a inteligência de Deus, permeia nossa criaturalidade? E em que sentido a nossa criaturalidade está inscrita ali mesmo na intimidade mais profunda de Deus?

Na verdade, a perda da própria noção de criaturalidade é parte da nossa perda de sentido. Não é, pois, de pouca importância, restabelecer, com São Tomás, que o sentido (que em grego se diz “logos”, ou seja, “verbo” ou “palavra”) inscreve-se profundamente na nossa relação com Deus e nos precede. Se o Verbo é o Filho de Deus, de certo modo somos todos filhos do Verbo. Não é à toa que há velhos ícones cristãos que representam Jesus e Adão iguais entre si.

A hipótese controvertida, para suscitar o debate, admite o contrário: parece que, quando chamamos a Segunda Pessoa de “Verbo”, não há, aí, nenhuma referência à criatura. Ou seja, a noção de Verbo, que designa o Filho, não diz respeito de modo nenhum às criaturas, segundo esta hipótese controvertida inicial. O Verbo de Deus não tem relação com as criaturas, enfim.

São cinco os argumentos objetores, no sentido da hipótese inicial. O primeiro afirma que sempre que falamos de algum aspecto de Deus que envolva algum efeito na criatura, falamos de Deus na sua unidade essencial, não de alguma Pessoa da Trindade. Assim, se falamos de Verbo, falamos de um nome próprio da Segunda Pessoa da Trindade. Não podemos imaginar, pois, conclui o argumento, que haja alguma relação entre o Verbo, como tal, e as criaturas.

O segundo argumento diz que tudo aquilo que relaciona Deus com as criaturas tem uma dimensão temporal; assim, quando chamamos, por exemplo, Deus de Senhor, está implícito que ele é Senhor da Criação (que não é, em si mesmo, eterna, mas contingente). Por isto, diz o argumento, não se pode admitir que o “Verbo” tenha qualquer relação com as criaturas. Segundo o argumento, quando falamos no “Verbo de Deus”, falamos de uma realidade eterna, a Pessoa Trinitária do Filho. Logo, o argumento conclui que o que é eterno (o Verbo) não pode guardar em si nenhuma relação com o temporal (nós, criaturas).

O terceiro argumento recorda que, em Deus, são as relações de origem que diversificam as Pessoas, em razão da processão. E prossegue: se admitirmos que há relação entre o Verbo e as criaturas, argumenta, então teríamos de admitir que o Verbo procede das criaturas, o que seria, conclui, absurdo.

O quarto argumento afirma que, se o Verbo de Deus se relacionasse com as criaturas, então esta relação seria múltipla, porque haveria uma relação com Deus, pelo Verbo, para cada criatura que existisse, e para isto seria necessário admitir que Deus gera um Verbo cada vez que se relaciona com uma criatura diferente; vale lembrar que o Verbo surge, no processo de conhecimento, como termo da relação entre o conhecedor e o conhecido. Ou seja, diz o argumento, se admitíssemos relação entre o Verbo divino e as criaturas, teríamos que admitir que existiriam tantos Verbos em Deus quantas fossem as criaturas.

Por fim, o quinto argumento traz forte sabor filosófico, ontológico mesmo. Ele diz que, se há relação entre o Verbo e as criaturas, deve necessariamente ser uma relação de conhecimento. De fato, o Verbo é a personificação do autoconhecimento divino, ou seja, ele é, em si mesmo, conhecimento, e portanto suas relações com as criaturas necessariamente devem ser relações de conhecimento. Ora, o argumento prossegue, já vimos, em debates anteriores, que Deus conhece o ser e também o não-ser. Se a relação com as criaturas envolve o conhecimento de Deus no Verbo, então teríamos que admitir que o Verbo também tem relação com o não-ser, o que seria absurdo – visto que ele é divino, e portanto é pleno no ser, e seria absurdo imaginar que ele pudesse ter em si alguma referência ao não-ser. Logo, diz o argumento, não se pode admitir nenhuma relação, nenhuma referência do Verbo às criaturas.

Como argumento sed contra, há uma citação de Santo Agostinho, que defende que, quando se fala do “Verbo” (ou Palavra de Deus), estamos falando não somente de uma relação com o Pai, mas também das coisas que foram feitas em razão do poder operante da Palavra de Deus. Não há como não lembrar, acrescentamos, do Evangelho de João, 1, 3 – tudo foi feito por meio de Verbo, e sem ele nada foi feito de tudo quanto existe. Assim, segundo o argumento, o verbo diz respeito também às criaturas.

Veremos no próximo texto a resposta sintetizadora de São Tomás, e as respostas específicas a cada argumento objetor.