Vimos, então, no último artigo, ao longo de três textos, o exato sentido pelo qual podemos dizer que o termo verbo (ou palavra, ou logos) pode ser usado em sentido pessoal, quando se refere a deus. Agora, vamos um passo adiante: trata-se de saber, aqui, se “verbo” é o nome próprio do Filho, no sentido de descrever-lhe suficientemente. A hipótese controvertida, como era de se esperar, é que “Verbo” não é o nome próprio da Segunda Pessoa da Trindade. E o artigo apresenta nada menos do que cinco argumentos objetores, no sentido de corroborar esta hipótese.
O primeiro argumento alega que a própria noção de Pessoa Divina envolve o aspecto da subsistência, ou seja, a Pessoa Divina é uma realidade permanente, que fica. Mas a noção de verbo envolve impermanência, mudança; as palavras, como diz a sabedoria popular, voam, são vãs. Além disso, a conceitualização do conhecimento é o termo de um processo, vale dizer, algo que surge onde não havia. Assim, diz o argumento, Verbo não pode ser o nome próprio do Filho.
O segundo argumento começa com a afirmação de que a noção de “prolação” descreve o fenômeno da fala, no seu sentido de “emissão do verbo”. De certa forma, ainda temos um uso assim, em nosso tempo, para a palavra “prolação”, quando dizemos que o Juiz “prolatou” uma sentença. Ora, diz o argumento, “prolatar” é emitir a palavra, e, portanto, se dissermos que “Verbo” é o nome próprio da Segunda pessoa da Trindade, teremos que dizer que o pai “prolata” o Verbo. Isto, diz o argumento, é uma heresia antiga, defendida pelos antigos Valentinianos e condenada por Santo Agostinho, de que o Verbo procede do pai por prolação. Assim, o argumento conclui que “Verbo” não pode ser nome próprio do Filho.
O terceiro argumento afirma que um nome próprio sempre significa alguma propriedade ou razão daquilo que nomeia. Mas, uma vez que já ficou estabelecido que há cinco noções, ou seja, cinco razões capazes de nos permitir o conhecimento da Trindade, que são a inascibilidade, a paternidade, a filiação, a espiração comum e a processão, como foi debatido na questão 32, artigo 3. Mas se admitirmos que a noção de “verbo” se aplica ao Filho como nome próprio, temos que admitir que há mais uma razão trinitária que não foi enumerada ali. Assim, Verbo não é nome próprio do Filho.
O quarto argumento objetor afirma que a geração do verbo é resultado do próprio conhecimento; todo ser que conhece emite verbo, em razão do conhecer mesmo. Mas, diz o argumento, o Filho conhece. Assim, haveria um “verbo do Filho”, que seria o resultado do seu conhecer. Ora, se o Filho emite verbo, então ele não pode ser o próprio Verbo, e, daí, o argumento conclui que “Verbo” não é nome próprio do Filho.
Por fim, o quinto argumento cita Hebreus (1, 3), que diz que o Filho “sustenta todas as coisas com a sua Palavra poderosa”. E o argumento prossegue citando São Basílio, para quem esta passagem bíblica revela que o Espírito Santo é a “palavra do Filho” (ou “verbo do Filho”). Se é assim, conclui o argumento, não é próprio do Filho ser Verbo.
O argumento sed contra cita Santo Agostinho, que afirma categoricamente que somente o Filho é considerado verbo.
São Tomás passa a nos oferecer agora a sua resposta sintetizadora. Diante da profundidade da discussão no artigo anterior, ele pode ser mais lacônico agora. Ele já afirma de logo que o Verbo, quando dito de Deus, designa uma realidade pessoal, e é nome próprio de Pessoa divina. A noção de verbo ou palavra designa uma emanação do intelecto, como vimos no último artigo. Ora, prossegue São Tomás, há uma Pessoa divina, como estudamos, que procede por emanação intelectual; é a pessoa do Filho. E esta emanação é verdadeiramente geração (como também já debatemos em questões anteriores), sendo certo que o assim gerado é o Filho. Assim, é o Filho, e só Ele, na Trindade, que pode ser chamado de “Pessoa do Verbo”.
Após sua resposta sintetizadora, São Tomás enfrenta as objeções iniciais.
A primeira objeção reafirma o caráter contingente da palavra, negando que ela possa ser usada para designar uma realidade subsistente como é uma Pessoa divina. Mas São Tomás, mais uma vez, mostra como a analogia tem seus limites, quando se trata de falar de Deus. De fato, em nossa inteligência humana, criatural, a palavra, como termo do processo de conhecimento, é sempre acidental, contingente e alheia à nossa natureza mesma, no sentido de ser um acréscimo, uma aquisição, relacionada à nossa comunicação. Em nós, diz São Tomás, inteligir é algo que nos sucede, mas não é parte da nossa essência. Em suma, podemos aprender, podemos esquecer, podemos nos confundir, podemos errar. Com isto tudo, para as criaturas o verbo é uma realidade acidental e contingente. É por isto que, para nós, gerar o verbo mental não é gerar uma pessoa. Os seres humanos só geram pessoas pelo meio biológico, material.
Mas em Deus não é assim. Deus não muda, Deus não aprende nem esquece. Ele sempre soube tudo, porque sempre foi tudo. Nele, a inteligência e o ser se confundem. Assim, saber, em Deus, é ser, e portanto o Verbo, que é a emanação do saber divino, é uma realidade subsistente – porque é divino, e, em Deus, tudo o que é, é subsistente. O Verbo de Deus, diz São Damasceno (citado aqui por São Tomás) é substancial e pessoal; os nossos verbos são múltiplos, contingentes e acidentais. Poderíamos concluir, ademais, que esta é a razão pela qual a Palavra de Deus não muda, enquanto a nossa palavra passa.
O segundo argumento objetor diz que falar é prolatar, e que, portanto, considerar que o Verbo é uma Pessoa divina seria cair no erro valentiniano de defender que o Filho procede do pai por prolação; por isto defende que “verbo” não é o nome próprio do Filho.
São Tomás explica que o erro dos Valentinianos não foi ensinar simplesmente que o Filho procede do pai por prolação. Na verdade, pelos fragmentos que chegaram até nós, em especial nos livros patrísticos, vê-se que ensinavam uma doutrina gnóstica complicada de emanações divinas, em que Deus emanava divindades de graus inferiores até resultar na alma humana. Portanto, usam um sentido especial de prolação, que é herético. Mas a prolação, no seu sentido corrente de emanação de uma palavra (que é o sentido que usamos quando dizemos, como foi feito acima, que os juízes prolatam sentenças) nada tem de heterodoxo.
O terceiro argumento objetor lembra que há cinco noções ou propriedades na Trindade: inascibilidade, paternidade, filiação, espiração comum e processão. Logo, não se poderia dizer que a noção de “verbo” seria um nome próprio do Filho sem introduzir uma nova noção na Trindade, o que seria inconveniente. Assim, conclui que não se pode chamar o Filho propriamente de “verbo”.
São Tomás responderá que o nome de “verbo” corresponde à noção de “filiação”, porque importa a mesma propriedade; de fato, diz São Tomás, com referência a Deus, dizer “verbo” é dizer “filho”. Não se pode imaginar que a geração do Filho seja semelhante à geração dos filhos humanos, com a reprodução corporal mediante sexo. A geração do verbo fornece uma analogia mais perfeita para a geração do Filho, em Deus, porque envolve algo que procede de modo estritamente espiritual e permanece na mesma substância que origina. A riqueza da geração do Filho, na Trindade, diz São Tomás, impede que um só termo humano possa exprimir toda a sua riqueza. Assim, diz ele, chamamos a segunda Pessoa da Trindade de Filho para expressar que ele tem a mesma natureza do Pai. Chamá-lo de “Esplendor” expressa que ele é coeterno com o Pai. O nome de “Imagem” expressa a semelhança absoluta entre eles e o termo “verbo” expressa a geração imaterial. Seria impossível, diz São Tomás, que houvesse apenas um nome, em linguagem humana, para dar conta desta riqueza.
A quarta objeção parte da seguinte questão lógica: se o Filho é o verbo gerado da inteligência do Pai, e se ele próprio é inteligente, então o conhecimento do Filho geraria igualmente um verbo; assim, não se poderia dizer que o Filho é o Verbo gerado.
Em resposta, São Tomás diz que a inteligência é da essência divina, e portanto convém ao Filho, tanto quanto ao Pai, de modo absoluto. No entanto, na relação entre o Pai e o Filho, convém ao Pai ser a inteligência que gera e ao Filho, ser inteligência gerada. Assim, o Filho é inteligente decerto, mas não como aquele que gera o Verbo, senão como o próprio Verbo gerado. Assim, vistos absolutamente, Pai e Filho são iguais na inteligência, mas relativamente estão em posições opostas quanto ao Verbo.
Por fim, o quinto argumento cita Hebreus 1, 3, para afirmar que, ali, as Escrituras, conforme interpretação de São Basílio, chamam o Espírito Santo de “palavra do Filho”, o que demonstraria que ser “verbo” não é um atributo da segunda Pessoa apenas.
A resposta de São Tomás é a de que a noção de “palavra” ou “verbo”, aqui, é tomada no sentido metafórico, impróprio, como sinônimo de “poder” ou “império”. É em razão da força do Verbo que as coisas são como são, diz São Tomás. E mais, ele lembra que a noção de “verbo”, no sentido figurado, também abrange tudo aquilo que torna o seu ser manifesto, ou seja, que o expõe externamente assim como ele é na sua interioridade. Ora, diz São Tomás, neste sentido o Espírito Santo, ao manifestar a verdade de Deus na criação, pode ser chamado metaforicamente de “Verbo do Filho”, sem que isto, de nenhum modo, altere o fato de que apenas o Filho é verbo no sentido próprio.
No próximo artigo esgotaremos esta profunda questão. Aliás, toda a sessão dedicada à Trindade, na Suma, é muito complexa. Retomando a velha metáfora da Suma como uma grande catedral medieval a ser visitada e conhecida, diríamos que esta é uma área em que nós, visitantes, devemos ficar por mais tempo, e contemplar com mais atenção.
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