Vimos, então, quais os sentidos próprios e o sentido metafórico do termo “verbo” (ou palavra, ou Logos), e em que sentido ele pode referir-se a Deus, neste proceder que vai do que conhece para a conceptualização do conhecido, como conceito que, nascendo no conhecedor, está nele e é ele, mas, ao mesmo tempo, é individual e pronunciável, e portanto é gerado nele.

Neste sentido, a noção de verbo é própria para descrever a noção de geração do Filho, na Trindade, como analogante, e o termo do processo criatural de conhecimento, como analogado. De fato, para nós, criaturas inteligentes, cada conhecimento gera o respectivo verbo em nós. Conhecemos, por exemplo, os gatos, os cães, as cadeiras; conhecemos, ainda que imperfeitamente, nossa própria pessoa por reflexão. Em Deus não é assim. Ele se conhece perfeitamente, e, conhecendo-se, conhece todas as coisas, porque ele é causa de todas as coisas. Assim, em Deus, há apenas um verbo, e ele é perfeito. Procede como termo do conhecimento divino, sem deixar de ser Deus, mas, como termo do conhecimento, é originado e assim relaciona-se com a sua origem. Como sabemos, as relações de origem são, em deus, exatamente a causa da multiplicação das pessoas.

Veremos agora as respostas diretas de São Tomás aos argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor afirma que aqueles termos que são nomes próprios das Pessoas da Trindade sempre se aplicam a Deus em sentido próprio, nunca em sentido metafórico. E o argumento cita Orígenes, que, em seus escritos, afirma que a noção de Verbo aplica-se a Deus apenas metaforicamente. Disso o argumento conclui que verbo não é nome próprio de uma Pessoa da Trindade.

São Tomás resgata a origem deste argumento objetor. Ele nos ensina que o argumento nasce da heresia ariana, que é aquela que defende que o Filho não é da mesma substância do Pai, mas é apenas uma criatura, embora a primeira e mais perfeita. Assim, os arianos usam as especulações teológicas de Orígenes para negar que a noção de Verbo possa aplicar-se propriamente à Trindade como um nome próprio do Filho. Mas esta tentativa não somente não é nem sucedida, como diz São Tomás, como, no limite, ela é contraditória consigo mesma. De fato, diz São Tomás, se alguém admite que se possa atribuir a Deus a noção de verbo num sentido metafórico, tem forçosamente que admitir que esta noção também se aplica a Ele em sentido próprio. Porque, quando falamos, ainda que metaforicamente, da palavra em Deus, temos que admitir que Deus de algum modo se manifesta a nós, para que tenhamos algum fundamento para falar de palavra ou verbo de Deus, mesmo metaforicamente. Mas esta manifestação divina que denominamos metaforicamente de palavra, diz São Tomás, só pode ser duas coisas:

1. Alguma coisa que se manifesta como uma palavra que é divinamente pronunciada, ou

2. Alguma coisa que se manifesta através de uma palavra divinamente pronunciada.

No primeiro caso, diz São Tomás, se Deus pronuncia alguma coisa que podemos, ainda que metaforicamente, chamar de “palavra”, é preciso que esta coisa pronunciada possa de fato ser chamada de “palavra” ou verbo; e ela somente poderia ser chamada assim se ela significar alguma coisa, porque, como já vimos, uma “palavra” ou “verbo” nunca pode ser um signo vazio de significado. Neste caso, portanto, teríamos que admitir que, mesmo no caso “1” acima, esta “fala” divina teria que ser o signo de um “verbo interno” a cujo significado ela se reporta; assim, no fim, mesmo para admitir que é adequado usar o termo “verbo” metaforicamente para Deus, teremos que admitir que há em Deus algo que procede interiormente nele e permanece sendo ele – o Verbo interior de Deus. Mesmo que possamos, portanto (e de fato podemos) falar de Verbo de Deus em sentido metafórico (como quando dizemos que as criaturas são “palavras pronunciadas por Deus”), para admitir este uso metafórico precisamos admitir por consequência o uso próprio da noção de Verbo para Deus – e, com este uso próprio, chegamos à pessoalidade do Verbo em Deus, conforme o raciocínio desenvolvido na resposta sintetizadora de São Tomás. Os discípulos do Bispo Ário, portanto, não poderiam admitir que as criaturas são palavra de Deus em sentido metafórico e, ao mesmo tempo, negar que possa haver um Verbo divino em sentido próprio (que, no fim, eles queriam negar que existisse, porque senão seriam forçados a admitir que o Filho é Verbo em sentido próprio, consubstancial ao Pai, e não uma simples criatura).

O segundo argumento objetor vai afirmar, citando Santo Agostinho e Santo Anselmo, que a noção de Verbo esgota-se em conhecimento, intuição e pensamento. Logo, uma vez que estes três termos significam dimensões da inteligência, e a inteligência divina não é um atributo pessoal trinitário, mas uma característica da essência unitária de Deus, então a noção de Verbo não poderia ser um nome de pessoa trinitária.

Em resposta, São Tomás admite que nenhum termo que se refira ao intelecto pode ser, em Deus, nome de pessoa trinitária. À exceção, diz ele, do Verbo. Por sua própria natureza, no processo de conhecimento, o Verbo é o termo que, procedendo do intelecto que conhece, é o termo do conhecimento e não se confunde com o próprio intelecto, embora, procedendo dele, seja completamente imanente àquele que conhece. Quando um intelecto, em sua potência para conhecer, se depara com alguma coisa, abstrai dela a sua species, ou seja, a sua inteligibilidade mesma. A species, quer dizer, a inteligibilidade da coisa que interpela o intelecto, leva o intelecto da potência ao ato de conhecer – usando a linguagem clássica, atualiza-o. Todo este processo se dá no próprio ser inteligente, é um processo imanente, e se confunde com ele mesmo. Este processo culmina com a conceptualização do conhecimento, que é a disponibilidade, para o intelecto, do conhecimento de modo comunicável. Este conceito, embora esteja ainda na imanência do sujeito inteligente, não é apenas uma perfeição da sua inteligência, nem mesmo uma disposição dela, um hábito, no sentido clássico (diríamos hoje uma habilidade) como a habilidade que tem o aluno estudioso de dar a resposta certa numa prova de ciência. O Verbo é algo mais, porque, mesmo procedendo da inteligência, refere-se à coisa e é partilhável com outras inteligências, pela fala. Neste sentido é que podemos objetivar o Verbo, vendo-o como conhecimento gerado. É fácil perceber, então, como uma inteligência perfeita, que contemplasse perfeitamente a si mesma, poderia gerar o Verbo perfeito, igual, em todos os sentidos, a si mesma e, a um só tempo, originado; tendo a mesma extensão de Deus, opor-se-ia ao que gera sem sair de sua substância. Esta é exatamente a pessoa do Filho.

Ainda nesta resposta, São Tomás explica as citações de Agostinho e Anselmo, para corrigi-las de modo muito sutil mas muito preciso, dizendo que o conhecimento intuitivo que Deus tem de si mesmo personifica-se no Verbo, que não é, a rigor, um pensamento (cogitatio), porque a noção de pensamento sempre envolve uma plasticidade, uma construção do pensado, como o arquiteto que especula sobre a planta da casa que construirá, diríamos. A geração do Verbo, diz São Tomás, não seria propriamente o resultado do pensamento de Deus, mas da sua contemplação – a sua inteligência que se volta para a sua própria essência e a compreende, e a ama.

O terceiro argumento afirma que a noção de Verbo envolve a possibilidade de falar sobre aquilo que é conhecido. Mas, na Trindade, diz o argumento, não é só o Filho que fala; o Pai

e o Espírito também podem falar. E mais, na relação entre eles, não somente podem falar, mas podem também ser destinatários da fala do outro e até mesmo objeto da fala do outro. Assim, se a Trindade é dialogal (dia-logos, palavra que se movimenta), então o Verbo não é um nome próprio do Filho, mas uma característica essencial da unidade divina que as Pessoas compartilham, conclui o argumento.

São Tomás diz que não é assim. Não há, em Deus, diálogo no sentido hegeliano da palavra, ou seja, não há em Deus nenhum processo dialético de aperfeiçoamento. Deus é perfeito e se conhece perfeitamente, assim a sua palavra nasce perfeita e plena. A palavra, em Deus, é, portanto, a própria Segunda Pessoa, pronunciada pela Primeira Pessoa. Somente o Pai fala, e sua única palavra é o Filho. Mas, como palavra perfeita, o Filho já inclui em si a razão de tudo, inclusive a razão da Trindade, de todas as suas Pessoas (incluído aí o Espírito Santo) e de todas as criaturas. Tudo o que há para ser dito é dito no Filho. Assim, a Palavra de Deus fala de toda a Trindade e de toda a criação, mas é falada apenas pelo Pai. Isto tem uma consequência importantíssima para a Teologia, inclusive para a Revelação, como foi explicado tão bem por São João da Cruz (cf. Catecismo, §65):

“Ao dar-nos, como nos deu, o seu Filho, que é a sua Palavra – e não tem outra – (Deus) disse-nos tudo ao mesmo tempo e de uma só vez nesta Palavra única e já nada mais tem para dizer. […] Porque o que antes disse parcialmente pelos profetas, revelou-o totalmente, dando-nos o Todo que é o seu Filho. E por isso, quem agora quisesse consultar a Deus ou pedir-Lhe alguma visão ou revelação, não só cometeria um disparate, mas faria agravo a Deus, por não pôr os olhos totalmente em Cristo e buscar fora d’Ele outra realidade ou novidade”.

Para fechar, São Tomás faz mais um paralelo entre o processo humano de conhecimento e a emissão do verbo divino, para esclarecer o equívoco de Santo Anselmo, que confunde o falar de Deus (na Sua Palavra) com o seu inteligir. Deus diz tudo por Seu Verbo, mas o Verbo inclui em si toda a inteligibilidade de todas as coisas ditas, na inteligibilidade de Deus. Inteligir, diz São Tomás, não é o mesmo que dizer. Inteligir envolve uma relação de conhecimento, que liga quem conhece àquilo que é conhecido. Quando eu conheço uma pedra, é a forma da pedra que atualiza a minha inteligência, dando-me o conhecimento. Mas este conhecimento nada mais é do que meu próprio intelecto aperfeiçoado, atualizado pela pedra que agora conheço. Mas quando gero em mim o conceito de pedra, há uma processão, uma geração de algo que aponta para a pedra mas dirige-se, ainda que potencialmente, a outro. A conceitualização, gerando a possibilidade de transmissão do conhecimento, é uma ação do conhecedor, que, no entanto, inicia-se e tem seu termo nele mesmo (não é transitiva, diriam os escolásticos), mas gera algo de novo, o conceito em mim, que posso falar para outras pessoas. O meu dizer, portanto, relaciona-se com o verbo, deve ser fiel a ele, porque é, na verdade, a expressão dele. O verbo interior relaciona-se, é certo, com a coisa conhecida, mas não como o intelecto atualizado relaciona-se com ela por possuir, ainda que intencionalmente, a sua species, senão como a posse do conceito que me permite falar sobre a coisa conhecida. É assim, diz São Tomás, que, em Deus, conhecer é próprio da inteligência, atributo essencial que diz respeito à unidade substancial de Deus (já que é comum à Trindade em todas as suas pessoas), mas falar é próprio do Pai, e a Fala, o Verbo é a Pessoa do Filho. Mas o falado, o conteúdo desta mesma fala, é tudo, é Deus e é a criação, e nele é a fala sobre todas as coisas.

A quarta objeção parte da afirmação de que as pessoas divinas não são feitas, não são realidades produzidas, criadas, mas são, elas mesmas, divinas, e portanto procedentes de Deus como iguais em substância, coeternas. Mas, diz o argumento, a Escritura fala de uma Palavra de Deus que é executada pelos elementos naturais (Sl 148, 8), e, portanto, deve ser contingente como são os elementos e fenômenos naturais. Logo, conclui que “palavra” não é um nome pessoal, em Deus.

Mas são Tomás responde com muita brevidade e precisão: quando alguém cumpre uma ordem do Rei, dizemos, metaforicamente, que aquilo que resultou daquela ordem é “palavra do Rei”. Assim, digamos, alguém pode dizer que uma determinada obra pública é “palavra do Rei” (ou do presidente, diríamos hoje), mas este é um uso metafórico da expressão que não nega tudo o que dissemos aqui. Portanto, quando as escrituras dizem que o fogo, a geada, as tempestades, são palavra de Deus, diz São Tomás, está falando metaforicamente, porque elas são efeitos práticos da Palavra que ordena tudo.

Terminamos este artigo, longo e profundo. O próximo, esperamos, será mais simples, porque é como a conclusão, o fechamento, deste aqui.