São Tomás passa, agora, a dar a sua resposta sintetizadora ao debate colocado. Aqui, ele estabelece os conceitos para explicar os problemas colocados, e esclarece o que devemos entender quando falamos do verbo de Deus.
Curiosamente, ainda temos resquícios, na linguagem popular, do uso original da palavra “verbo”. Dizemos, por exemplo, que alguém “soltou o verbo” quando desandou a falar sobre alguma coisa da qual ele anteriormente silenciava. Também falamos em “agressão verbal” quando alguém agride outrem por meio de palavras, sem desforço físico. Há outros usos similares, como “sexo verbal”, ou “discussão verbal”, nas quais a palavra “verbo” não se emprega no sentido de classe gramatical, mas como sinônimo de uma interação por meio de palavras. Também temos usos para o “ogos” rego em nossa língua, em palavras como “lógica”, ou mesmo no sufixo “logia” colocado à frente do nome de alguma ciência ou conhecimento organizado sobre algum assunto (antropologia, teologia, astrologia…). A palavra “logos”, em seus usos atuais, nos remete á racionalidade de alguma coisa, tal como a podemos conhecer.
E é neste sentido, de conceito, de síntese de racionalidade que permite a comunicação do conhecimento, que veremos São Tomás encaminhar a resposta ao debate.
Ele inicia logo dizendo que “Verbo” (ou “Logos”, ou “palavra”, são sinônimos), usados com referência a Deus, são nomes próprios de uma pessoa trinitária, e não atributos da essência unitária de Deus. E, para isto, ele precisa estabelecer adequadamente o significado do termo com que está trabalhando, o “verbo”. E precisa estabelecer este significado de modo próprio, a partir da sua compreensão para descrever a realidade criada, que é a base para o uso analógico (ver questão 13 desta Primeira Parte, acima) que será necessário para falar de Deus.
Há três usos próprios para o termo “verbo”, na linguagem corrente, diz São Tomás, e mais um uso metafórico.
Para explicar de modo mais simples e direto, São Tomás nos diz que podemos pensar no “verbo” como “aquilo que é dito pela nossa voz”. Com esta primeira aproximação, superficial ainda, podemos explorar todas as dimensões do verbo.
Assim, o “verbo” é aquilo que se reflete na expressão “verbalizar”: trata-se de comunicar externamente, mediante linguagem articulada, algum conceito que está em nossa mente, formado a partir das imagens da realidade que guardamos em nossa imaginação.
Assim, São Tomás passa a analisar aquilo que ele chama de “verbo exterior”, ou seja, a concretização da comunicação, que é o sentido, digamos, fenomenológico, palpável, empírico, da noção de “verbo”. O verbo exterior tem duas características: a) a palavra que é dita e b) a significação dessa mesma palavra.
Em sua significação, diz São Tomás, o verbo exterior tem duas fontes interiores em nós: por um lado, ela procede do conceito que está em nosso intelecto, produto final do processo de conhecimento. Este conceito, elaborado de modo racional, articulado e comunicável, é chamado por São Tomás de “verbo interior”. Por outro lado, o verbo exterior expressa nossa imaginação, porque não somos anjos; o nosso processo de conhecimento passa pela imagem que apreendemos – somos seres materiais, sensíveis, e nosso conhecimento da realidade caracteriza-se pela apreensão dos sensíveis, e portanto envolve a construção de imagens em nós, que o verbo comunica. O verbo, portanto, está totalmente no campo da comunicação com intencionalidade; ela é a expressão comunicativa nascida do processo de conhecimento, e é, por isto mesmo, completamente intencional. É relativa ao emissor, porque procede dele, a partir dos conceitos intelectuais e da imaginação. E é relativa às coisas que significa; para ser “verbo”, a palavra não pode ser um mero som sem sentido. Nem sequer uma mera convencionalidade.
Daí São Tomás retira os três sentidos próprios, denotativos, do termo “Verbo”:
1. Em primeiro lugar, chamamos de “Verbo” (Logos, palavra) o conceito que nasce em nós como termo do processo de conhecimento. Este é o sentido fundamental, preciso, segundo São Tomás. O conceito se exprime numa definição. Por exemplo, a definição do conceito de ser humano é “animal racional”.
2. Secundariamente, chamamos de “Verbo” a palavra que significa, que comunica este conceito. Tomemos o termo “homem”. Ele é verbo neste segundo sentido, enquanto a definição “animal racional” é verbo no primeiro sentido.
3. Enfim, chama-se de “verbo” a imagem envolvida na comunicação humana. Se falo “homem”, expresso aquilo que a minha imaginação concebe como homem, a partir da minha experiência com os seres humanos com quem me encontro; do mesmo modo, ao falar “homem”, provoco, no receptor da comunicação, uma determinada imagem relativa ao conceito expressado por esta palavra.
Para ilustrar a explicação que acabou de dar, São Tomás fará uma citação de São joão Damascento, que diz que “chama-se ‘verbo’ aquele movimento natural do intelecto, segundo o qual ele se move, intelige e pensa; sendo como luz e esplendor (primeiro sentido do ‘verbo’). Também se fala num ‘verbo’ que não é dito com a voz, mas pronuncia-se no coração (este é o terceiro sentido do ‘verbo’). Há ainda um ‘verbo’ que é o anjo (no sentido de mensageiro) do que se inteligiu, (segundo sentido da noção de ‘verbo’).
Por fim, diz São Tomás, há o sentido figurado, metafórico, do termo “verbo”. É quando se usa o termo “verbo” para apontar o objeto do conceito expressado ou feito em razão do verbo; quando alguém, por exemplo, aponta para um gato e diz: é aquilo que eu estava verbalizando; ou, quando contempla uma obra pública e diz: aquela foi a palavra do Presidente, ou seja, a expressão prática, exterior, do verbo que ele havia pronunciado.
E quanto a Deus? Quando falamos de “verbo”, para nos referirmos diretamente a Deus, não estamos usando o termo, obviamente, no seu sentido figurado – não está excluído o uso figurado quando nos referimos à criação, para dizer, por exemplo, que a criação é “palavra de Deus”. E quanto aos sentidos próprios?
São Tomás cita aqui Santo Agostinho, que ressalta que não podemos imaginar que o Verbo, em Deus, em sentido próprio, tenha a ver com a emissão de um vocábulo pelas cordas vocais (segundo sentido de verbo), nem com a expressão de imagens memorizadas (terceiro sentido); a analogia deve dar-se com o primeiro sentido acima, ou seja, pela emissão de um conceito mental como termo do processo de conhecimento. É neste sentido que o verbo procede, em Deus; como termo do processo de autoconhecimento, em que este autoconhecimento se relaciona com aquele que conhece (e a um só tempo é conhecido) procedendo como um conceito integral, perfeito e completo daquela inteligência que se conhece. Ora, diz São Tomás, é próprio da descrição das pessoas, em Deus, que um proceda do outro, pela relação de origem. Deus, contemplando-se pela sua inteligência perfeita, conhece-se plenamente e, deste conhecimento, origina-se o Verbo, ou seja, o conceito que Deus forma de si mesmo, da sua perfeição e de seu amor infinitos, e que procede dele e que só se distingue, nele, por ser originado do originante, daquele que, inteligente que é, é capaz de ser, a um só tempo, o conhecedor perfeito e o perfeito objeto de conhecimento. O termo deste processo é o Verbo, perfeita imagem do que conhece (e é conhecido). O Pai é este que origina, o Filho é este que é originado. É assim que, em Deus, este conceito perfeito que procede como termo do autoconhecimento divino é pessoa, porque é perfeição que se origina da perfeição, e relaciona-se com ela como o que procede com aquele de que procede, é um nome de pessoa. Especificamente da Segunda Pessoa da Trindade: Verbo é o seu nome próprio, e não designa uma característica da essência única de Deus, mas a própria identidade da pessoa gerada ao modo da inteligência.
Poderíamos acrescentar que, sendo o perfeito conhecimento que o Pai tem de si mesmo, originado como Verbo, a Segunda Pessoa é inteiramente Amor, embora procedendo a modo intelectual. Porque se a essência de Deus é amor, o conceito que ele forma de si mesmo só pode ser um conceito de amor. Não podemos imaginar, portanto, que a Trindade seja composta por um princípio (o Pai), um intelecto (o Filho) e o querer (o Espírito Santo). Ser princípio, ser intelectual e querer são aspectos da essência divina em sua Unidade, presentes, portanto, em comum nas três pessoas (mais na frente estudaremos a questão das apropriações). As pessoas são, propriamente, o Verbo e o Amor que procedem de Deus que se conhece e se quer. Pura relação da perfeição que só seria perfeita se fosse capaz de conhecer-se e amar-se inteira e absolutamente.
No próximo texto debateremos as respostas às objeções iniciais.
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