Esta questão envolve obscuras (para nós) teorias do conhecimento aristotélico-tomistas, e por isto parece um tanto enigmático. Não deveria ser assim; não cansa lembrar que São Tomás escreveu a sua Suma Teológica para iniciantes. Por isto, não deveria nos assustar.

Além disso, a palavra “Verbo” aparece logo no começo do Evangelho de João, no seu Prólogo (Logos), como referindo-se ao Filho. Algumas traduções escrevem “Palavra” no lugar de “Verbo” para traduzir a palavra grega “Logos”, neste texto maravilhoso que se inicia em Jo 1, 1.

No entanto, além do fato de que a teoria do conhecimento que São Tomás usa ser pouco familiar, existe, ainda, a característica da metodologia pedagógica que ele usa; somente na sua resposta sintetizadora ele explicará melhor os conceitos que usa, e por isto a sua hipótese controvertida e seus argumentos objetores serão mais difíceis de compreender até lá. Mas só há uma maneira de vencer um artigo mais complicado: lê-lo e entrar num debate honesto com São Tomás. É esta a nossa proposta. Teremos paciência para lidar, num primeiro momento, com conceitos que somente serão elucidados depois.

A questão 34 lida com os “nomes” da segunda pessoa da Trindade; adverte que, aqui mesmo nesta questão 34, lidará com o nome “verbo”, enquanto na 35 lidará com o nome “imagem’. O nome que, para nós, parece o mais óbvio, ou seja, o nome de “filho”, não recebe uma questão própria. Na verdade, sendo o nome de “Filho” relativo ao nome de “Pai” atribuído à primeira pessoa, e estudado na questão 33, parece ter sido suficientemente discutido ali. Resta debater, então, estes dois outros nomes, “verbo” e “imagem” em sua relação com a segunda Pessoa da Trindade, e a questão 34 estudará especificamente o nome de “verbo”. É preciso lembrar que, na teoria tomista, um nome não é apenas um rótulo que colocamos nas coisas, mas a expressão do próprio conceito da coisa, como abstraído por nossa inteligência. Assim, quando chamamos algo ou alguém por um nome, estamos, na verdade, afirmando que o conceito que o nome expressa está efetiva e verdadeiramente presente naquilo a quem se atribui tal nome. Trata-se, portanto, de debater se podemos chamar a Segunda Pessoa de “Verbo”, e por que razão o podemos.

A hipótese controvertida dá o tom da polêmica: parece que o nome “Verbo” não se pode predicar de uma das pessoas da Trindade, porque a palavra “Verbo” designa uma realidade que, na verdade, está presente na própria essência divina, por sua unidade, e não em uma das pessoas apenas. São quatro os argumentos objetores no sentido desta hipótese controvertida inicial.

O primeiro argumento cita Orígenes; ele não é tido em muito boa conta pelos teólogos medievais, porque é considerado como fonte de algumas heresias, como a apocatástase (a ideia de que todos, até o Diabo, converter-se-ão no final e serão admitidos no céu) e a preeexistência das almas, dentre outras. Hoje olhamos mais benignamente para Orígenes, como um importante escritor eclesiástico dos primeiros tempos, que tentou compreender a fé que lhe chegava com os poucos instrumentos que dispunha, e nem sempre resolveu da melhor forma os problemas que enfrentou, mas é um bom testemunho de alguém que tentou compreender mais profundamente a fé.

Neste argumento, afirma-se que os nomes que designam características pessoais, ou seja, os nomes que designam as Pessoas da Trindade, são usados sempre em sentido próprio, ou seja, de modo denotativo. O argumento cita, então, Orígenes, que afirmava que, quando falamos em “Logos” referindo-nos a Deus, estamos falando apenas metaforicamente. Assim, o argumento conclui que a palavra “Verbo” não designa, em Deus, uma Pessoa.

O argumento parece abrupto, e teremos que aguardar até a resposta sintetizadora (e até mesmo à resposta específica a este argumento) para entendê-lo melhor. Prossigamos.

O segundo argumento objetor cita Santo Agostinho, que define o Verbo (Logos) como “conhecimento (notitia) com amor”. E cita Santo Anselmo, que dizia: “a Palavra, o Verbo que Deus pronuncia nada mais é do que ver pensando (cogitando intueri). Ora, prossegue o argumento, em Deus o conhecimento (notitia), o pensamento (cogitatio) e a visão (intuitus) não são realidades propriamente pessoais, mas são realidades presentes na essência de Deus, ou seja, em sua unidade. Pensar, conhecer e ver não são próprios apenas do Filho, mas são comuns às pessoas pela essência divina que compartilham. E se estas três realidades descrevem a noção de “Verbo”, conclui o argumento, então a palavra “Verbo” não é propriamente o nome de uma das pessoas da Trindade, mas envolve Deus em sua unidade.

O terceiro argumento começa afirmando que a noção de “palavra” (ou “verbo”), relaciona-se diretamente com a ideia de “falar” alguma coisa. Segundo Santo Anselmo, diz o argumento, todas as pessoas da Trindade (tanto o Pai quanto o Filho, quanto o Espírito Santo) são inteligentes; ora, continua o argumento, é próprio de quem é inteligente comunicar-se; assim, todas as Pessoas não somente falam, ou seja, pronunciam o Verbo, como também são objeto da fala de cada uma das outras pessoas (as pessoas “falam” e “são faladas”, ou seja, tanto pronunciam o Verbo quanto são significadas por ele, diz o argumento). Assim, conclui o argumento, o Verbo não é algo próprio do Filho, que pudesse representar mesmo um nome próprio para ele, mas é uma realidade compartilhada por toda a Trindade, e portanto deveria ser considerado algo da essência de Deus, não apenas de uma de suas pessoas.

O quarto e último argumento parte da distinção entre aquilo que é eterno e aquilo que é criatural. As pessoas Divinas não são criadas, não são “feitas”, mas são coeternas. Mas a noção de “verbo”, diz o argumento, designaria realidades criadas, não uma realidade eterna. O argumento cita uma passagem bíblica (Salmo 148, 8): “Fogo, saraiva, neve, nevoeiro, vento impetuoso que executa sua palavra”; ora, prossegue o argumento, se estas realidades criadas são a execução da palavra divina, então, sendo elas contingentes, passageiras, causadas, da mesma natureza é a palavra que as causa: originada, criada, fugaz. E disto, o argumento conclui que “verbo” não é o nome próprio de uma das pessoas da Trindade.

Como argumento sed contra, uma citação de Agostinho. Ele diz que, do mesmo jeito que a palavra “Filho” traz em si a relatividade, porque remete a um Pai, a palavra “Verbo” também traz em si esta relatividade, porque remete a alguém que o pronuncia. Assim, em Deus, “Verbo” designa uma relação subsistente (que é exatamente a definição de pessoa, em Deus). E o argumento sed contra termina concluindo que “Verbo” (ou “palavra”, conforme a tradução que se quiser fazer do grego “Logos”), é um nome próprio de Pessoa trinitária.

A colocação deste debate, portanto, deixou-nos com uma sensação de que o problema é bem profundo e lida com conceitos que não ficam claros para nós desde o começo. Tenhamos um pouco de paciência. São Tomás os esclarecerá melhor em suas respostas, que veremos nos próximos textos.