Nas respostas aos argumentos objetores iniciais, teremos a oportunidade de aprofundar a noção de ingênito, purificando-a de equívocos e desvios, para compreender mais profundamente em que sentido podemos dizer que o Pai é origem da Trindade.
A primeira objeção afirma que uma propriedade deve nomear sempre uma característica real daquilo a que ela pertence, e não apenas uma negação de algum aspecto nele. Mas, diz o argumento, a palavra ingênito descreve apenas uma negação: significa que aquele ser não é gerado. Logo, não pode ser considerado como uma característica, como uma propriedade central do Pai.
Na sua resposta, São Tomás explora os vários sentidos da palavra “ingênito”. A partir do seu primeiro e fundamental significado de expressar que um ser é “não nascido”, ele passa a debater os sentidos que se dá a esta palavra. Para uns, diz ele, esta palavra não tem apenas a dimensão negativa; ao afirmar que o Pai não procede de ninguém e é origem de tudo o mais, dizem, isto implicaria reconhecê-lo como autoridade universal, ou plenitude primária – a fonte originante e estruturante de tudo mais (vale lembrar, aqui, que falar em autoridade do Pai neste contexto não traz o sentido hierárquico, mas apenas o sentido autoral, da palavra autoridade). Assim, dizem, a palavra não teria apenas a dimensão de negação.
São Tomás não concorda. Estas dimensões, diz São Tomás, relativas à autoridade e à primariedade de Deus, já estão contidas nas noções de paternidade e de espiração. Assim, se estivessem contidas no campo semântico de “ingênito”, então ingênito seria uma espécie de “super-conceito”, uma noção que, por sua abrangência geral, incluiria todas as outras que envolvem o Pai.
São Tomás prefere, então, ficar com a definição de Santo Agostinho: dizer “ingênito”, a respeito do Pai, é dizer simplesmente que ele não é gerado, negar-lhe a geração passiva. Mas isto não significa que não se possa considerar, como quer o argumento, que a noção de ingênito não seja, por sua dimensão estritamente negativa, uma noção descritiva do Pai. De fato, diz São Tomás, a nossa inteligência humana, tão limitada, muitas vezes só consegue descrever aquilo que é simples e originante através de negações; é assim, diz São Tomás, por exemplo, que descrevemos, em geometria, o ponto: ele é definido como um ente sem dimensão (um seja, através de uma negação). A nossa inteligência guarda proporção com o composto, com o originado, com o criado, e portanto tem dificuldade em expressar esta dimensão da paternidade. Que é, no entanto, importantíssima para compreender porque chamamos esta Pessoa Trinitária de Pai (e não de mãe, por exemplo); é porque, no processo geracional, a mãe sempre recebe algo de outro para gerar, enquanto o pai é o que doa sem nada receber de outro. Importante lembrar, porém, todo o limite do uso analógico das palavras humanas para descrever realidades divinas.
O segundo argumento diz que “ingênito” pode ser compreendido no sentido negativo ou privativo; no sentido negativo, também a essência divina seria ingênita, assim como o Espírito Santo, e portanto esta não seria uma noção própria do Pai. No sentido privativo, descreveria uma imperfeição – uma privação é sempre a falta de alguma coisa – e por isso seria inadequada ao Pai – que não pode ser descrito através de uma imperfeição, conclui o argumento.
São Tomás diz que, de fato, a palavra ingênito às vezes é tomada por alguns teólogos num sentido amplo e pouco técnico, para descrever, por exemplo, o Espírito Santo que não é gerado, mas espirado. Ele registra este uso nos escritos de São Jerônimo, por exemplo. Mas não é neste sentido amplo que se está tomando o termo aqui, mas no sentido técnico, preciso, de fonte original, que descreve o Pai. Neste sentido a palavra é aplicável somente a ele.
Quanto ao sentido privativo, diz São Tomás, a própria palavra “privação” tem três sentidos:
1) Num primeiro sentido, ela pode expressar algo completamente estranho a uma natureza, como diríamos que uma pedra é uma coisa morta, ou seja, está privada de vida porque a vida é algo completamente estranho a um ser mineral. Este é um uso das noções privativas.
2) Mas, em outro sentido, ela pode expressar uma dimensão que não se faz presente num ser porque não faz parte de sua natureza, embora faça parte da natureza de outros seres similares – neste sentido dizemos que a toupeira é cega, não porque devesse ver e tivesse algum defeito que a impedisse; mas porque, embora a visão seja um atributo de seres similares a ela, não é próprio da sua natureza.
3) Por fim, ela pode expressar a falta de uma perfeição esperada num ser em razão de sua própria natureza – como chamamos de cego a um animal que, por natureza, deveria enxergar mas, por um defeito qualquer, não enxerga.
São Tomás diz que a palavra ingênito, aplicada ao Pai, se diz de modo análogo ao segundo sentido acima explicado; ou seja, para o Filho, é da sua natureza ser gerado. Assim, neste segundo sentido, ela é inaplicável a Deus em sua unidade essencial; para este, seria como falar em “ser morto” para os minerais – um uso apenas metafórico, com o primeiro sentido acima relacionado, e, portanto, impróprio. Ademais, considerando Deus em sua unidade essencial, teríamos que reconhecer que, na sua imanência trinitária, a geração não lhe é um conceito estranho, e por isso a palavra ingênito não lhe poderia ser adequadamente aplicada. Somente para as pessoas trinitárias poderia haver um uso próprio da noção – especificamente para o Pai, e apenas no segundo sentido.
Para esclarecer, por fim, como esta palavra, usada tecnicamente, é inaplicável ao Espírito Santo, é preciso especificar que ela tem o sentido de originante não originado; como para o Espírito Santo é próprio ser originado por espiração, não se poderia chamá-lo propriamente de ingênito.
O terceiro argumento afirma que “ingênito” não descreve uma relação, como a palavra “gerado” descreve, mas uma realidade absoluta, e portanto não pode ser aplicada às pessoas divinas – que compartilham tudo o que é absoluto e apenas distinguem-se pelo que é relativo.
São Tomás, também aqui, reconhece que há um uso impreciso, não técnico, da palavra “ingênito”, como aquele uso que São João Damasceno faz quando diz que Deus é ingênito enquanto as criaturas não o são. Não é neste sentido que se fala aqui.
No sentido técnico, preciso, da palavra, no entanto, São Tomás nos adverte que as palavras que negam alguma coisa estão sempre no mesmo gênero das que afirmam. Assim, se nego de alguma coisa um aspecto substancial, a palavra negativa está no gênero das substâncias – e ele exemplifica. Se digo que alguma coisa é um não-humano, então estou no gênero das substâncias, e faço uma afirmação substancial sobre aquela coisa. Do mesmo modo, se digo que determinado cidadão é alguém “não branco”, estou no gênero das qualidades, como estaria se afirmasse que ele é branco.
Assim, prossegue, se “gerado”, na Trindade, é uma palavra no gênero das relações, de igual modo “ingênito” também o será. Assim, se chamo o Filho de gerado, faço uma afirmação de distinção relativa, e, portanto, ao chamar o Pai de ingênito, também estou no campo da relatividade – porque estou negando dele uma posição de passividade numa relação de origem. É neste sentido preciso, portanto, que se diz que o Pai é relativamente ingênito. Não como característica absoluta, mas como distinção relativa.
O quarto argumento parte da noção de que algo próprio tem que pertencer de modo distintivo a algo ou a alguém. Não seria ilógico, diz o argumento, admitir-se, em Deus, muitos ingênitos como se admitem muitos originados (como são originados o Filho e o Espírito Santo). Assim, o argumento conclui que ingênito não é uma característica logicamente exclusiva, e portanto nega que seja própria do Pai
São Tomás explica que, na realidade intratrinitária, não poderia, logicamente, haver mais de um ingênito. De fato, diz ele, deve haver, na ordem dos gêneros, sempre alguma coisa que é o primeiro, ou seja, algum critério capaz de unificar o gênero sob si, e do qual todas as outras coisas que estão sob aquele gênero derivam ou participam. Assim, por exemplo, quando pensamos no gênero das coisas corpóreas, pensamos numa pedra – que, além da corporeidade, apresenta muito pouca riqueza metafísica. Tudo o que é corpóreo participa, de algum modo, dessa corporeidade fundamental que se apresenta, digamos, em “estado puro” na rocha.
Em Deus, diz São Tomás, admitir uma origem deve levar a admitir um, e apenas um, que é não originado, e tudo o mais deve necessariamente originar-se dele. Se houvesse outro princípio não originado, em Deus, então um não poderia ter relação com o outro, porque cada um seria, a seu modo, origem não originada de divindade. Haveria, então, dois fundamentos na divindade, não relacionados entre si, e, portanto, haveria dois deuses. Assim, São Tomás cita Santo Hilário, para estabelecer definitivamente que, se houvesse dois ingênitos, haveria dois deuses, o que seria absurdo. Assim, diz São Tomás, como na imanência de Deus não pode haver multipicidade de natureza (como necessariamente haveria se houvesse mais de um ingênito), é preciso concluir que ser ingênito é propriedade de um só – especificamente do Pai.
O quinto e último argumento objetor diz que, uma vez que a palavra “ingênito” estabelece especificamente uma oposição ao gerado, deveria haver uma palavra como “Não procedente” para descrever a propriedade de ser oposto ao Espírito Santo, e portanto “ingênito” não é, para o argumento, uma descrição suficiente para a característica do Pai de ser não originado.
São Tomás diz que remover a ideia de geração é suficiente para estabelecer que o Pai é a origem não originada da Trindade. De fato, diz São Tomás, a processão do Espírito Santo pressupõe a geração do Verbo, já que ele procede “do Pai e do Filho”, como reza o credo niceno-constantinopolitano. Assim, removendo a ideia de geração, está removida também a ideia de processão. Ademais, lembra São Tomás, a processão é uma noção geral, na Trindade, para a ideia de ter origem em outro; assim, a ideia de que o Espírito Santo é originado não é designada por uma palavra especial (como é a geração, que é a processão do Filho). Assim, não haveria necessidade de uma palavra especial para designar esta ideia quanto ao Pai.
Terminamos assim o estudo especial da pessoa do Pai. Na próxima questão estudaremos o Filho.
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