Temos conversado muito até aqui sobre a questão da geração. De fato, a geração nos remete à pessoa do Filho, que, como diz o Credo niceno-constantinopolitano, é “gerado, não criado”. Mas se é próprio do Filho ser gerado, então o que podemos dizer do Pai? Ele é o gerador, sem dúvida. Mas como expressar a ideia de que tudo começa nele, ou seja de que ele é a origem não originada? O termo para expressar a ideia de “não ser gerado” é ingênito. Será que este termo descreve adequadamente a característica do Pai de ser origem sem origem? É o que debateremos neste artigo. E a hipótese controvertida inicial é a de que este termo, “ingênito”, não descreve algo próprio do Pai. E São Tomás apresentará cinco argumentos objetores em favor desta hipótese controvertida inicial.

O primeiro argumento objetor afirma que toda propriedade se caracteriza por referir-se a algo que realmente existe naquilo a que pertence. Mas a palavra “ingênito” não significa uma realidade, mas, ao contrário, significa exatamente a expressão de algo que não há – expressa a ideia da ausência de geração. Ora, disto o argumento conclui que ser ingênito não é uma propriedade do Pai.

O segundo argumento objetor vai na mesma linha: a palavra “ingênito” tem um valor de negação ou privação. Assim, como negação, ela pode ser empregada propriamente para significar tudo aquilo que não é gerado. Mas, prossegue o argumento, se esta palavra for tomada no sentido de negação, então ela pode designar propriamente outras realidades além do Pai: o Espírito Santo não é gerado, mas espirado. Tampouco Deus, em sua unidade essencial, é gerado. Por outro lado, prossegue o argumento, se ela for tomada para significar uma privação, então ela expressa uma imperfeição, ou seja, ela designa a falta de uma perfeição que se esperaria num ser. Seria imprópria, portanto, para ser utilizada com relação a Deus. Em qualquer dos dois casos, diz o argumento, esta palavra não seria propriamente aplicável ao Pai.

O terceiro argumento afirma que, como sabemos, tudo o que podemos dizer de Deus envolve sua substância ou suas relações. Mas, prossegue o argumento, a palavra “ingênito” não tem em seu significado nenhuma conotação de relatividade. Assim, prossegue o argumento, ela só poderia referir-se à substância divina. Mas a palavra “gerado” descreve uma propriedade que difere de “ingênito”, e, se “ingênito” designa uma propriedade substancial, então aquilo que é “ingênito, prossegue o argumento, ” tem que ser substancialmente diverso daquilo que é “gerado”. Mas o Pai, conclui o argumento, não é substancialmente diferente do Filho – ao contrário, são da mesma substância divina. Assim, o argumento conclui que não se pode afirmar que ser “ingênito” é uma propriedade do Pai.

O quarto argumento parte da noção de “próprio”. Se estamos debatendo a ideia de que a noção de “ingênito” é própria do Pai, devemos primeiro, diz o argumento, perguntar-nos em que sentido podemos dizer que uma noção é “própria” a alguém ou a alguma coisa; próprio, diz o argumento, é aquilo que só se aplica a um e a mais nada. Ora, prossegue o argumento, do mesmo jeito que, em Deus, há mais de um que é “procedente” de outro, nada impediria que houvesse mais de um ingênito, ou seja, mais de um que não procede de outro. Disso o argumento conclui que a noção de “ingênito” não é própria do Pai.

O quinto argumento tece um raciocínio a partir da oposição relativa das Pessoas em Deus. O Pai é chamado de “ingênito” porque o Filho é chamado de “gerado”, diz o argumento. Mas há outra relação que opõe o Pai ao Espírito Santo, e então, uma vez que o Espírito Santo é chamado de “procedente”, por igual razão o Pai deveria ser chamado de “não procedente”; logo, a palavra “ingênito” representa, segundo o argumento, apenas uma das características do Pai, mas não aquilo que o caracteriza de modo próprio e distintivo, já que ele deve ter outras características igualmente próprias, como ser “não procedente”, conclui.

O argumento sed contra cita Santo Hilário, que, na sua obra sobre a Trindade, diz: “Um vem do outro, isto é, o gerado vem do ingênito, porque é próprio de um ser não nascido, como é próprio do outro ter sido originado”. Assim, o argumento encontra um fundamento patrístico para afirmar que ser ingênito é próprio do Pai.

No próximo texto examinaremos a resposta sintetizadora de São Tomás.