Vimos então, no texto anterior, a hipótese controvertida de que “Pai” é um nome mais próprio da Trindade em sua unidade do que à pessoa trinitária do Pai, e os argumentos objetores no sentido desta hipótese. Agora acompanharemos a resposta sintetizadora de São Tomás.

Ele começa dizendo que quando usamos uma palavra para expressar uma noção, é preciso discernir bem qual a principal e primeira realidade à qual a palavra se aplica, para que possamos saber qual o seu sentido próprio e quais os sentidos derivados, secundários ou analógicos; ou seja, qual realidade é nomeada propriamente pela palavra e quais realidades são nomeadas por serem derivadas, semelhantes, comparadas ou analogadas àquela. O imperfeito, diz São Tomás, deriva do perfeito. O analogado deriva do analogante, completaríamos.E ele dá um exemplo desta afirmação metodológica: a palavra “leão” se aplica propriamente ao animal “panthera leo”, porque ele esgota a noção de leão. Mas um homem muito valente, forte e audaz assemelha-se, por estas características, a um leão, e por isso é, às vezes, chamado de “leão” por analogia, de modo impróprio.

Trata-se, portanto, agora, de saber qual relação realiza mais propriamente a noção de paternidade: se a relação intratrinitária que existe entre a pessoa do Pai e a pessoa do Filho, na Trindade imanente, ou a relação que existe entre nós, criaturas, por um lado, e a Trindade criadora, do outro. São Tomás não hesita: a noção perfeita de paternidade se realiza entre as pessoas do Pai e do Filho, porque compartilham a mesma natureza e a mesma Glória divinas. Entre a Trindade e as suas criaturas não há nem a mesma natureza nem a mesma Glória. Assim, nesta relação criatural, a noção de paternidade cabe apenas de modo impróprio, derivado, analógico.

Mesmo entre as criaturas, diz Tomás, podemos distinguir uma maior ou menor perfeição na semelhança entre a paternidade intratrinitária e a paternidade criatural. Os seres inanimados, ou mesmo os irracionais, realizam esta semelhança de modo muito imperfeito, vestigial, diria ele. E ele cita, aqui, o Livro de Jó (38, 28), no trecho em que Deus diz a Jó: “Terá a chuva um pai? Quem gera as gotas do orvalho?”

As criaturas racionais, no entanto, têm maior semelhança com Deus, e por isto podem chamá-lo de pai um pouco mais propriamente; Tomás cita aqui Dt 32, 6b: “Não é ele teu Pai, teu Criador, que te fez e te estabeleceu?”

Há um terceiro degrau nesta escada de perfeição, diz São Tomás. Trata-se da filiação adotiva pela graça, que faz das criaturas humanas filhos adotivos, pelo batismo, a condição de filhos, no Filho Jesus Cristo, ordenando-os à glória eterna por graça divina; estes ainda mais propriamente podem chamar Deus, em sua essência, de pai; mas ainda de modo derivado, em razão de sua pertença aos eleitos em Jesus Cristo. E São Tomás cita Rm 8, 16-17: “O Espírito mesmo dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus. E, se filhos, também herdeiros”.

Ppr fim, diz São Tomás, aquelas criaturas que já estão na glória podem ainda mais propriamente chamar Deus de Pai, porque já alcançaram a herança da vida eterna, conforme Rm 5, 2: “E nos gloria­mos na esperança de possuir um dia a glória de Deus.”

Assim, diz São Tomás, fica claro que, quando atribuímos a paternidade a Deus, é mais próprio atribuir a paternidade à Pessoa Trinitária do Pai, em sua relação com o Filho – na chamada “Trindade imanente”, do que atribuir a paternidade a Deus em sua relação de criador com as suas criaturas- a chamada “Trindade econômica”. A noção de paternidade aí é menos propriamente atribuída a Ele.

São Tomás passa a responder às objeções iniciais.

O primeiro argumento objetor afirma que os nomes comuns devem sempre preceder logicamente aos nomes próprios; é preciso pensar, por exemplo, na maternidade para compreender a razão pela qual eu chamo esta mulher específica de “mãe”. Assim, diz o argumento, a paternidade de Deus em sua unidade, relativamente à unidade da essência que cria e as respectivas criaturas, uma vez que é comum às três pessoas divinas, deve preceder logicamente à paternidade da pessoa divina do Pai, conclui o argumento.

São Tomás diz que não é assim. De fato, diz ele, quando aplicamos alguma noção em sentido absoluto, ela prevalece sobre o sentido próprio – como a maternidade como noção prevalece logicamente à relação que me permite chamar especificamente esta mulher aqui de mãe. Isto se dá porque a noção geral (como, neste exemplo, a de maternidade) se inclui na significação da palavra que dirijo à mulher que me gerou e criou, quando a chamo de mãe. Mas o contrário, diz São Tomás, não é verdade: a noção geral de maternidade não sofreria nenhuma alteração se minha mãe jamais houvesse ficado grávida de mim, porque a maternidade dela com relação a mim não compõe nem integra a noção geral de maternidade. Assim, diz São Tomás, em Deus a noção de Pai (como Pessoa Trinitária) pressupõe e inclui a própria noção de Deus, mas o contrário não é verdade – a noção de Deus, por ser logicamente anterior à de Pai, não pressupõe esta.

Mas com relação a Deus há uma peculiaridade: as noções comuns que se referem às relações de Deus (em sua unidade essencial) com as criaturas são logicamente posteriores às noções próprias que designam as relações intratrinitárias, porque as relações intratrinitárias é que fornecem a base e o fundamento para a economia criacional, e não o contrário. Assim, São Tomás dá um exemplo interessante: quando um artista concebe uma obra de arte, primeiro ele a concebe em sua mente, como “verbo”, ou seja, como concepção intelectual, antes de realizá-la como produto de suas mãos. De modo análogo ocorre em Deus: primeiro há a geração do Verbo, geração na qual se concretiza perfeitamente a noção de paternidade; a noção de criação, que relaciona Deus com suas criaturas, é chamada de paternidade apenas por participar, derivada e imperfeitamente, da noção de paternidade intratrinitária. Assim, o nome de “Pai” se aplica perfeita e propriamente à pessoa do Pai na sua relação com o filho, e apenas de modo derivado e analógico à relação de Deis em sua unidade essencial com as suas criaturas. E, em reforço à sua conclusão, São Tomás cita Rm 8, 29: “Os que ele distinguiu de antemão, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que este seja o primogênito entre uma multidão de irmãos.”

O segundo e o terceiro argumentos objetores serão respondidos em bloco por São Tomás.

o segundo argumento parte da ideia de que, entre noções equivalentes, não pode haver hierarquia. E cita São Basílio, que diz que o Filho e a Criatura são igualmente receptores; assim, o argumento conclui que há equivalência entre a noção de paternidade aplicada à pessoa do Pai e a noção de paternidade aplicada à relação entre Deus em sua unidade essencial e as criaturas – são, segundo o argumento, a mesma noção. O terceiro argumento afirma que não se pode comparar coisas que não têm a mesma natureza; mas, segundo o argumento, as Escrituras equiparam a filiação do Filho com a filiação das criaturas em Cl 1, 15 (quando se diz que o Filho “é a imagem de Deus invisível, o Primogênito de toda a Criação.” Assim, diz o argumento, a paternidade da pessoa do Pai teria a mesma natureza que a paternidade que Deus, em sua unidade essencial, tem para com suas criaturas.

São Tomás diz que não se pode imaginar que a noção de que o Filho “recebe” alguma coisa do Pai seja igual à noção de que as criaturas “recebem” de Deus a existência. Há, entre as duas coisas, analogia, mas não identidade. O Filho recebe a própria natureza divina ao ser gerado, enquanto as criaturas são criadas, e portanto não têm de nenhum modo a natureza divina. É certo que os que são remidos e batizados, dentre as criaturas, recebem a filiação divina por adoção, e é por isto que as Escrituras dizem que Jesus Cristo, o Filho, é o primogênito – e São Basílio ressalta, diz São Tomás, que ele é “primogênito entre muitos irmãos “. Em si mesmo, porém, ele é Filho único, como está escrito em Jo 1, 18: “Ninguém jamais viu Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem o revelou”. Isto responde igualmente ao terceiro argumento, diz São Tomás, concluindo.