Já vimos, no debate anterior, que a palavra “Pai” pode ser propriamente atribuída a Deus. A pergunta, agora, envolve saber se ela pode ser mais propriamente atribuída a Deus em sua essência unitária ou à primeira pessoa da Trindade. A hipótese controvertida, que visa iniciar o debate, é a de que, quando falamos de Deus como Pai, não estamos falando principalmente da primeira pessoa da Trindade, mas de Deus em sua unidade. O que significa, principalmente, chamar Deus de Pai? Significa dirigir-se à primeira pessoa da Trindade ou significa dirigir-se à Trindade inteira, como nossa criadora, redentora e fim? É este o debate proposto aqui, sobre o sentido mais próprio da noção de “Pai”, quando aplicada a Deus. O debate é de grande importância: estabelece a natureza, ou a diferença de natureza, entre a relação de Jesus com o Pai, ou seja, entre a primeira e a segunda pessoas da Trindade, e a nossa relação criatural com a Trindade. Trata-se de estabelecer firmemente se é apenas no Filho que podemos ser chamados de filhos, ou se somos filhos no mesmo sentido que o Filho é filho, ou se o somos num sentido ainda mais forte. Discussão importantíssima, portanto, e bem no centro da nossa fé cristológica.

São três os argumentos objetores iniciais. O primeiro traz uma questão de lógica: os termos comuns, lembra, são sempre anteriores aos próprios. É preciso, por exemplo, ser humano para ser Sócrates, ou ser animal para ser cavalo. E o argumento prossegue: se chamamos a Trindade de pai, atribuímos a Deus, em sua unidade essencial, a paternidade; com isto, diz o argumento, estamos afirmando que a paternidade da Trindade é mais comum, e portanto logicamente anterior, à paternidade da primeira pessoa da Trindade. E o argumento traz um fundamento teológico para a sua afirmação: assegura que, quando rezamos “Pai Nosso”, estamos nos dirigindo à Trindade como um todo, e não simplesmente à pessoa do Pai. Assim, o argumento conclui que o nome de Pai é mais próprio da Trindade em sua unidade essencial do que da pessoa do Pai.

O segundo argumento quer estabelecer que a noção de “pai” é, pelo menos, tão própria da Trindade em sua unidade essencial quanto é própria à primeira Pessoa da Trindade. E começa afirmando que não se pode estabelecer hierarquia (a linguagem escolástica falava em estabelecer “anterioridade e posterioridade”) entre duas coisas que têm exatamente a mesma natureza. E continua, afirmando que a primeira pessoa da Trindade é dita “Pai” porque é dela que o Filho recebe o ser; e a Trindade é chamada pelas criaturas de “Pai” porque recebem dela o ser. Ora, diz o argumento, o a pessoa divina do Filho e as criaturas têm, segundo Basílio, a característica comum de receber algo do Pai. O Filho recebe da Pessoa do Pai, como a criatura recebe da Trindade. Assim, o argumento conclui que o nome de Pai não pode ser considerado mais próprio da primeira pessoa da Trindade do que o é da Trindade inteira em sua unidade essencial.

O terceiro argumento objetor parte de uma interpretação das Escrituras. Começa declarando que só podemos comparar coisas sob a mesma razão: bananas podem comparar-se a laranjas como frutas que são, mas não poderíamos comparar, sob a razão de frutas, laranjas com tijolos por exemplo, porque tijolos não são frutas. Mas a Bíblia compara a Pessoa divina do Filho com as criaturas, em razão de filiação ou geração, em Colossenses 1, 15: “Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda criação”. E o argumento pondera assim: se a pessoa do Filho é gerado pela pessoa do Pai, e isto é, para a Bíblia, algo que se compara ao fato de que a Trindade, em sua unidade essencial, gera as criaturas, então chamar a primeira pessoa de “Pai” não é mais próprio do que chamar a Trindade inteira, em sua unidade essencial, de “Pai”.

Por fim, o argumento sed contra afirma que o que é eterno sempre precede em importância ao que é apenas temporal. Ora, diz o argumento, a primeira Pessoa da Trindade é Pai da segunda Pessoa por toda a eternidade, mas a Trindade, em sua unidade essencial, é “pai” das criaturas apenas no tempo. Assim, o argumento conclui que é mais próprio, mais anterior, mais adequado, dizer que a primeira Pessoa é pai da segunda do que dizer que a Trindade, em sua unidade essencial, é pai da criação.

Postos os termos do debate, São Tomás passa a oferecer sua resposta sintetizadora. Que veremos no próximo texto.