Na questão anterior, nós discutimos as noções que aplicamos à Trindade para conhecê-la. Agora, discutiremos qual o nome próprio adequado às Pessoas trinitárias, começando pelo Pai. E, como de costume, São Tomás propõe o debate através da hipótese controvertida de que talvez não seja adequado chamar aquela Pessoa trinitária que gera de “Pai”. E trará quatro argumentos objetores para apoiar esta hipótese controvertida inicial.

O primeiro argumento afirma que o nome “Pai” não é um nome de pessoa (uma vez que “pessoa” é, lembra o argumento, uma “substância individual”, mas designa propriamente uma relação. Ora, se a relação é um acidente e não uma substância, e se a pessoa é uma substância, diz o argumento, então “pai” não pode ser o nome próprio de uma pessoa trinitária.

O segundo argumento objetor lembra que, quanto mais geral um nome, mais aplicável ele é a Deus. O argumento então diz que o nome “genitor” é mais geral do que “pai”, porque todo pai é genitor, mas nem todo genitor é pai – a mãe também é uma genitora. Ora, conclui o argumento, se “genitor” é mais geral do que “pai”, então seria mais próprio chamar a primeira pessoa da Trindade de genitor do que de pai.

O terceiro argumento parte do uso das palavras para exprimir realidades humanas. Em nós, diz o argumento, quando conhecemos, este conhecimento que surge em nós é chamado de “verbo” ou “palavra”, e se diz que ele é gerado em nós; este uso da palavra “gerado” para descrever o resultado do nosso conhecimento, desta imagem que se forma pela abstração da coisa conhecida, é metafórico, diz o argumento, porque a realidade gerada não é diversa do que nós mesmos somos. Também metaforicamente, prossegue, poderíamos nos chamar de “pai” no sentido de sermos aquele que dá origem a este autoconhecimento, que gera em nós este “verbo” de reflexão. Ora, diz o argumento, tampouco em Deus poderíamos chamar propriamente de “pai” aquele que gera o Verbo, porque haveria, também aí, apenas a designação metafórica de um processo reflexivo.

Por fim, o quarto argumento objetor diz que aquilo que dizemos propriamente de Deus, necessariamente temos que dizer dele mais propriamente do que dizemos das criaturas. Assim, por exemplo, uma criatura pode ter ciência, mas só Deus sabe propriamente tudo de modo originário. Quanto a ser chamado de pai, diz o argumento, parece que isto é mais próprio das criaturas, porque, na paternidade criatural, o que gera dá origem a um outro absolutamente diverso dele em essência, conquanto igual em natureza; em Deus, há apenas uma diversidade relativa entre o que gera e o gerador, porque são diversos apenas pela relação que os opõe como gerado e gerador, mas eles são da mesma e única essência divina. Assim, prossegue o argumento, a geração é mais perfeitamente concretizada nas criaturas do que em Deus, e portanto o nome de pai seria, conclui, mais próprio das criaturas do que de alguma Pessoa divina.

O argumento sed contra traz uma citação bíblica, Salmo 88, 27a: “Ele me invocará: ‘Vós sois meu Pai’”. Ora, há, pois, segundo o argumento, sustento escriturístico para dizer-se que é próprio chamar esta Pessoa de pai.

São Tomás começa sua resposta sintetizadora definindo nome próprio: o nome próprio de alguém é aquilo pelo qual ele se distingue de todas as outras pessoas. Assim, no caso dos seres humanos, todos nós somos seres compostos de corpo e alma; mas o que distingue, digamos, Sócrates de todos os semelhantes humanos é o fato de que ele tem aquele corpo e esta alma, enquanto eu tenho este corpo e esta alma aqui. Mas em Deus não há a individualização substancial; há apenas a relação subsistente que multiplica as pessoas divinas. Assim, o que distingue esta primeira pessoa das outras duas, em Deus, é exatamente o fato de que é Pai. É por isto que, em Deus, este nome relacional é um nome próprio – porque significa a paternidade que distingue a pessoa do Pai.

Tendo nos ofertado sua resposta sintetizadora, Tomás responderá agora a cada objeção inicial, aportando aspectos importantíssimos ao debate.

O primeiro argumento objetor dizia que, uma vez que “Pai” não é um nome de substância, mas de relação, não poderia ser o nome próprio de uma pessoa, porque “pessoa” é “substância individual”, e não relação.

São Tomás responde que, de fato, nos seres humanos, a relação não é subsistente, logo não pode ter natureza pessoal. Assim, em nós, a palavra “pai” designa apenas um aspecto acidental da pessoa, a sua relação com um filho. Mas em Deus, como já vimos em questão anterior (e apesar das opiniões falsas de alguns no sentido contrário), a relação significada pelo nome “Pai” é subsistente, e por isto tem natureza pessoal – as Pessoas divinas, como São Tomás já nos ensinou, são constituídas exatamente pelas relações subsistentes em Deus.

A segunda objeção defende que a palavra “genitor” é mais genérica do que “Pai”, e portanto seria mais própria para designar a primeira Pessoa da Trindade. São Tomás defende, em sua resposta, que a palavra “pai” exprime-se com mais perfeição do que “genitor”; a noção de genitor, diz ele, exprime o processo da geração, enquanto “pai” exprime o próprio fim pelo qual se gera, ou seja, exprime a perfeição completa da geração. Assim, diz São Tomás, a palavra “pai” exprime mais perfeitamente aquilo que é o Pai do que a palavra “genitor”.

O terceiro argumento objetor diz que, em nós, a reflexão gera o “verbo”, como um autoconhecimento, um espelho intelectual do que somos, do qual, de certa forma, metaforicamente, somos o “pai”. E conclui que, uma vez que em nós a palavra “pai” se aplica, com relação ao “verbo” mental, apenas metaforicamente, não poderíamos admitir que, em Deus, ela se aplique propriamente à primeira Pessoa da Trindade.

São Tomás responderá que, em nós humanos, este “verbo” que se forma com o conhecimento não é algo subsistente, mas apenas um acidente na nossa inteligência. Em Deus, no entanto, conhecer é conhecer-se, e este conhecer-se tem a mesma extensão que tem o conhecedor, sendo, ademais, subsistente, como já debatemos em outra questão, atrás. Assim, o verbo, em Deus, não se chama metaforicamente, mas propriamente, de “Filho”. Portanto, aquele que o gera não se chama metaforicamente, mas propriamente, “Pai”.

Por fim, a quarta questão diz que só podemos aplicar a Deus de modo próprio uma palavra quando ela é mais cabível de Deus do que das criaturas. Mas, segundo o argumento, a palavra “pai” se aplica mais propriamente às criaturas do que a Deus, já que as criaturas efetivamente eram um outro ser, diverso de si mesmo em essência, conquanto idêntico em natureza. Em Deus, diz o argumento, a diversidade entre pai e filho é apenas relativa, mas eles são absolutamente a mesma essência divina; e portanto a palavra “pai” seria aplicada apenas de um modo metafórico, impróprio, para Deus.

São Tomás responde que é justamente o contrário. Na verdade, diz ele, palavras como “geração”, “paternidade” e outras deste tipo (podemos acrescentar também o verbo “criar” na lista de São Tomás), embora tenham surgido para designar realidades humanas (e portanto o seu “modo de significação” seja primariamente humano), na verdade, quando usadas com relação a Deus, designam realidades que são muito mais próprias destas palavras do que as realidades humanas que elas significavam em primeiro lugar.

Neste ponto, para demonstrar a afirmação que acabou de fazer, São Tomás cita a Bíblia (Efésios 3, 14-15): “Por esta razão dobro os meus joelhos diante do Pai, de quem recebe o nome toda paternidade no céu e na terra”. A citação demonstra que as próprias Escrituras revelam que o nome de “Pai” é próprio em primeiro lugar de Deus, e apenas analogicamente e de modo derivado, das criaturas. E São Tomás passa a explicar a razão.

A geração, diz São Tomás, qualifica-se pelo seu termo, o seu fim, que é aquele que foi gerado. O que São Tomás quer dizer com isto? É fácil entender: quando vejo uma mulher grávida, por exemplo, sei que ela está gerando, e o processo de geração encaminha-se para um parto perfeito e natural de uma criança viva e saudável. Este é o fim do processo de geração – fazer nascer, ou dar à luz. A geração terá sido tão mais perfeita quão mais este resultado acontecer de modo tranquilo. Humanamente, sempre lamentamos quando há um parto difícil, quando a criança sofre ou morre, ou nasce frágil e prematura, ou a mãe, de alguma forma, sofre com a gestação e o parto. Em qualquer destas situações, podemos dizer que o termo, ou fim, da gestação, não foi atingido de modo satisfatório, e esta foi uma gestação difícil, porque resultou numa situação longe do desejado.

E o que seria uma geração perfeita? São Tomás diz que a geração é sempre uma transmissão de forma entre o que gera e o que é gerado. Um ser humano deve gerar humanos, como um cão gera cãezinhos. Estas são as chamadas “gerações unívocas”, e elas são mais perfeitas, realizam melhor a razão de geração do que as gerações não unívocas. (um exemplo de geração não unívoca seria a geração do conhecimento em minha mente; quando conheço uma pedra, gero em meu intelecto um conceito de pedra, o “verbo” da pedra como diria Tomás. Mas não há univocidade nem entre mim e este conceito, nem entre este conceito e a própria pedra. A geração de conhecimento em nossa mente é, pois, um processo menos perfeito, menos realizador da razão de “geração” do que a geração de um filho).

Se é assim, prossegue São Tomás, então se pode afirmar que aquele processo de geração que resulta num ser que é outro com relação ao gerante (como o filho humano é outro, outra substância, com relação ao seu pai), seria mais perfeita ainda uma geração que resultasse numa pessoa que, embora seja diversa da pessoa do gerador, não é outra com relação a ele (os escolásticos diriam que não há diversidade numérica entre as pessoas de Deus). Se, nas criaturas, o filho recebe a forma do pai numa substância diferente, em Deus o Filho recebe a forma do Pai na mesma substância, e portanto o processo geracional, diz São Tomás, é ainda mais perfeito em Deus do que nas criaturas. E assim, conclui ele, é mais próprio chamar a primeira pessoa da Trindade de “Pai” (este que gera a forma no Filho sem diversidade de substância) do que chamar qualquer criatura com este nome.

No próximo texto, discutiremos uma outra questão interessantíssima: quando nós, criaturas, chamamos Deus de “pai”, estamos nos referindo em primeiro lugar à Pessoa do Pai ou a Deus em sua essência una? É o nosso próximo debate.