Depois de estudar um tanto teoreticamente a Trindade e a sua relação conosco, estudaremos agora de modo mais concreto as pessoas. Nesta questão, estudaremos a pessoa do Pai.

O debate começa, neste artigo, com a ideia de que o Pai é princípio da Trindade. Já vimos, na questão anterior, que a ele cabe a noção de inascibilidade. Ou seja, ele não se origina de outro. Mas em que sentido podemos dizer que os outros se originam dele? Em que sentido afirmaríamos que o Pai é o princípio da Trindade?

Trata-se de uma pergunta com algumas sutilezas e alguns riscos, que veremos ao longo do debate. Lembremos que a fé católica nos faz acreditar que as Pessoas divinas são iguais em dignidade, sem subordinação entre elas – são todas um só e mesmo Deus. Mas dizer que o Pai é princípio da Trindade abre o risco de que se afirme a superioridade do Pai, ou algum tipo de hierarquia entre as Pessoas da Trindade. E esta é uma heresia que a Igreja sempre combateu com muita veemência, e com razão: as relações, na Trindade, não passam, e nem podem passar, jamais pelo poder; são sempre relações de amor, de doação, nunca de exigência e subordinação. E há uma grande tendência, entre nós humanos, manchados que somos pelo pecado original, de imaginar que ali onde tudo depende só do amor há sempre a fragilidade, a tendência à dissolução e à bagunça. Nós temos simpatia pelas soluções de poder, mas elas não cabem, nem podem caber, na Trindade. O amor divino pressupõe sempre a igual dignidade e a espontaneidade na doação completa. Mas a nós, humanos, relações assim parecem assustadoramente fracas.

Assim, a hipótese controvertida, aqui, é a de que o Pai não pode ser considerado como princípio do Filho e do Espírito Santo. E São Tomás encontra três argumentos objetores no sentido desta hipótese controvertida inicial.

O primeiro argumento é filosófico: traz a ideia de que, em filosofia, “princípio” e “causa” são sinônimos – todo princípio é uma causa, e vice-versa. Ora, diz o argumento, não se pode falar de “causas” quando se fala de Deus. Assim, não se pode dizer, segundo o argumento, que o Pai é “causa” do Filho; então, conclui, também não se poderia dizer que o Pai é “princípio” do Filho.

O segundo argumento segue uma linha de raciocínio semelhante. Quando falamos que algo é “princípio” de outro, implicitamente dizemos que o este outro é “principiado”. Mas tudo o que é principiado começou a existir, logo é uma criatura. Assim, se dissermos, diz o argumento, que o Pai é princípio do Filho, estamos afirmando que o Filho teve um começo, e portanto não e Deus. Então o argumento conclui que não é adequado afirmar que o Pai é princípio do Filho.

Por fim o terceiro argumento diz que a noção de “princípio” implica uma ideia de prioridade. Mas em Deus não há hierarquia, porque não há maior nem menor, nem, citando o “Credo” conhecido como “de santo Atanásio”, poderia haver algum anterior ou posterior. Assim, diz o argumento, seria inapropriado usar a noção de “princípio” para falar do Pai.

Como argumento sed contra, uma citação de Santo Agostinho, que diz que o Pai é o princípio de toda divindade.

São Tomás passa a apresentar, agora, sua resposta sintetizadora. Que afirma, simplesmente, que a noção de “princípio” significa, apenas, “aquilo do qual alguma coisa procede”. Assim, chamamos adequadamente de princípio tudo aquilo do qual algo procede, e vice-versa (ou seja, aquilo que faz alguma outra coisa proceder). Assim, uma vez que o Filho procede do Pai, o pai pode adequadamente ser chamado de princípio. É preciso ter atenção, agora, às respostas de São Tomás aos argumentos objetores iniciais, porque as sutilezas serão estabelecidas ali.

O primeiro argumento objetor diz que “princípio”, em filosofia, é o mesmo que “causa”; e seria inadequado falar de causa para Deus. Logo, conclui que é inadequado chamar o Pai de princípio.

São Tomás vai começar afirmando que os gregos usam indistintamente os temos “causa” e “princípio” para referirem-se a Deus; mas os teólogos latinos, ensina Tomás, estabeleceram uma precisão maior no uso das duas palavras. Assim, a tradição latina não aplica o termo “causa” para Deus, mas aplica o termo “princípio”. Os latinos distinguem entre “elemento”, “causa” e “princípio”. A causa é mais que o elemento, e o princípio é mais que a causa. Assim, os anjos, a rigor, têm “causa”, mas não têm “elementos” porque são seres simples, puramente espirituais. O princípio, diz São Tomás, pode designar as causas de alguma coisa, mas também pode designar a sua primeira parte, como dizemos que o ponto é o princípio da linha, mas não podemos admitir que ele seja, de nenhum modo, “causa” da linha. A ideia de causa, diz São Tomás, sempre implica, para nós, uma diversidade de substância (é sempre algo externo à própria coisa causada, outra coisa, ainda que seja uma das suas causas intrínsecas como a matéria e a forma; mas a matéria adequadamente disposta e a forma como causa exemplar são logicamente precedentes à coisa causada). Implica também uma certa dependência que não está significada pela noção de princípio. Há sempre distinção, diz São Tomás, entre a causa e o efeito, com relação a qualquer aspecto da coisa causada – há sempre uma diferença, entre a causa e o causado, quanto à perfeição e o poder (o que pressupõe que a causa é mais perfeita do que o causado, ou então não poderia causar nada nele). É só pensar, por exemplo, numa forma de pão com relação à massa de pão; a forma já está feita, é perfeita, enquanto a massa é apenas potencialmente pão.

Assim, se a noção de princípio é mais genérica, porque envolve a causa e também envolve o começo de alguma coisa (como alguém poderia dizer; “eu moro no princípio da rua”, para significar que mora no começo dela), então ela também é mais abstrata, e portanto mais apropriada para Deus. Toda palavra é tão mais adequada para Deus quão mais abstrata for, e tão mais adequada para a criatura quão mais concreta for, diz São Tomás. Por isto, ele conclui dizendo que pode-se usar a palavra princípio para designar aquilo que é começo, que é origem, mas a rigor não é causa. E por isto podemos chamar o Pai de princípio do Filho e do Espírito Santo. Este é o rigor terminológico de São Tomás.

O segundo argumento diz que aquilo que é principiado é sempre criatura, porque Deus não tem princípio. Assim, conclui que chamar o Pai de princípio seria chamar o Filho de criatura.

São Tomás afirma que é usual, na teologia oriental grega, dizer que o Filho e o Espírito Santo principiaram. Mas na teologia ocidental não se usa esta terminologia, diz São Tomás, para evitar o risco de incompreensão. Dizê-los “principiados” poderia levar alguém a entender que eles são menores ou subordinados, o que de modo algum pode ser verdade. De fato, é o Pai que gera, diz São Tomás, mas isto, embora de fato nos faça reconhecê-lo de certo modo como autor da Trindade, e portanto reconhecer nele a autoridade da origem, não implica, de modo algum, que o Filho ou o Espírito sejam menores ou subordinados a ele. E São Tomás chama, aqui, a autoridade de Santo Hilário, Padre da Igreja ocidental, em seu favor, por defender exatamente o mesmo.

O terceiro argumento rejeita a ideia de chamar o pai de princípio exatamente em razão de evitar qualquer ideia de prioridade do Pai sobre as outras pessoas da Trindade. São Tomás vai responder simplesmente que, embora a significação original da palavra “princípio” envolva de fato a ideia de prioridade, ao aplicar a noção de princípio à Trindade não significamos nenhuma prioridade, apenas a ordem de origem intratrinitária; a significação original de uma palavra, diz São Tomás, cede ao contexto do seu uso – e o uso, aqui, referente à Trindade, envolve apenas a ideia de ordem, de origem, mas nunca de prioridade.

É muito interessante a insistência de São Tomás sobre a igualdade intratrinitária. Somente sabendo que Deus é amor podemos admitir que suas relações internas sejam de doação total, nunca de subordinação ou poder. Em Deus, a ordem decorre da doação recíproca no amor total, nunca da submissão decorrente de algum poder hierárquico. Em Deus (e assim deveria ser também entre nós, se não fosse o pecado, e será no Reino por vir) o amor, e não o poder, estabelece a ordem.