Colocados os termos do debate, São Tomás passa à sua resposta sintetizadora. Ele quer estabelecer que são cinco as noções pelas quais conhecemos a Santíssima Trindade. E o que é uma noção? É a razão própria pela qual conhecemos as Pessoas divinas. E, prossegue, uma vez que as Pessoas divinas são várias em razão de sua origem, então as razões de originar e ser originado são os dois modos básicos, diz Tomás, pelos quais podemos conhecê-las. Assim, cada pessoa pode ser conhecida como tendo ou não um princípio, de onde vem, e tendo ou não um termo, para onde vai.
Comecemos então pelo Pai. Ele não se origina de ninguém. Assim, para conhecê-lo, temos a noção de inascibilidade, ou seja, ele é o não gerado, o não originado. O que não nasceu.
Quanto aos que são originados dele, o pai gera o Filho, e portanto é própria do Pai a noção de paternidade. Além disso, dele, com o Filho, procede o Espírito Santo, pela espiração comum, o que nos dá três noções aplicáveis ao Pai: a inascibilidade, a paternidade e a espiração comum.
Quanto ao Filho, por sua origem conhecemo-lo pela noção de filiação, e quanto ao termo, ou a quem ele origina, conhecemo-lo pela espiração comum, que já vimos quando tratamos do Pai – e, portanto, embora ao Filho conheçamos por duas noções, a rigor há apenas uma noção nova aqui, a de filiação. Temos quatro noções até agora.
Quanto ao Espírito Santo, ele procede da espiração comum do Pai e do Filho, e portanto conhecemo-lo pela noção de processão. Mas dele nenhuma Pessoa procede, pelo que não há uma noção para exprimir o fato de que ele não origina ninguém.
São, portanto, cinco as noções pelas quais conhecemos as Pessoas divinas: inascibilidade, paternidade, filiação espiração comum e processão. Mas destas cinco noções, na verdade quatro correspondem a relações, porque a inascibilidade, sendo uma negação, a rigor não é uma relação, senão por redução (como Tomás se compromete a explicar adiante). Em suma, pode-se dizer que a inascibilidade está para as relações como a cegueira está para a visão – é certo que a cegueira não é um algo, uma coisa; é antes a privação do ver. Mas também é certo que a razão da cegueira se inclui no campo das ideias sobre a visão, e tem fundamento na ordem da realidade das coisas, já que se diz “cego” apenas daqueles seres que, segundo sua natureza, seria de esperar que enxergassem. Analogicamente, podemos dizer “inascível” do Pai porque, em comparação com as outras pessoas, que são originadas por relações, ele não se origina de uma relação, embora seja origem de todas elas. É esta razão que esta noção quer expressar.
As outras quatro noções (paternidade, filiação, espiração comum, processão) são relações, vistas de modo abstrato a partir do vínculo.
Pode-se dizer que, sendo cinco as noções, quatro delas são propriedades das pessoas; de fato, as noções de inascibilidade, paternidade, filiação e processão designam aquilo que é próprio de cada pessoa, e só dela. Neste sentido, designam propriedades das pessoas da Trindade. Mas não assim a espiração; sendo uma noção comum ao pai e ao Filho, e rigor não é própria de nenhum dos dois, e portanto não pode ser chamada de “propriedade”. As outras quatro noções podem.
Das cinco noções, três são propriamente constitutivas das pessoas, ou seja, descrevem aquilo que as faz ser o que são. São as noções de paternidade, filiação e processão. As outras duas noções, diz São Tomás, são noções das pessoas (porque descrevem razões adequadas a elas), mas não as constituem; de fato, a inascibilidade exprime uma privação e a espiração comum descreve uma realidade de duas pessoas, e não a própria constituição de uma delas, como as outras noções. São Tomás aprofundará este assunto a partir da próxima questão, quando tratará de cada pessoa separadamente.
Ele passa a responder agora aos argumentos iniciais.
O primeiro argumento objetor simplesmente equipara o número de noções ao número de relações: se há quatro relações trinitárias, diz o argumento, devem existir também quatro noções, e basta. São Tomás responderá que, além das quatro noções que significam as relações, é necessário introduzir outra noção, especificamente a de inascibilidade, como já foi discutido na resposta sintetizadora, acima.
O segundo argumento objetor diz que Deus é chamado de “uno” em razão da unidade de sua essência, e de “trino” pela triplicidade de pessoas; se houvesse cinco noções, prossegue o argumento, seria necessário chamá-lo de “quino”, o que seria um absurdo, e por isto, conclui, não há cinco noções. São Tomás vai responder que a essência divina é um algo, não simplesmente uma noção; assim também as Pessoas da Trindade. Por isto, quando nos referimos a Deus como “uno” ou “trino”, estamos nos referindo a algo que Deus é em si mesmo, e não simplesmente a determinadas razões que nosso intelecto precisa para compreender Deus. Mas quando falamos das noções, estamos falando de uma linguagem que, embora expresse de fato o modo de ser de Deus, expressam-no ao modo da nossa inteligência, e não ao modo de sua existência. Assim, não haveria sentido realmente em chamá-lo de “quino”, mas isto não é argumento contra a própria existência das cinco noções.
O terceiro argumento objetor afirma que, se há cinco noções, então mais de uma noção pode referir-se à mesma Pessoa – como se diz que a inascibilidade, a paternidade e a espiração comum são noções aplicáveis ao Pai. Então, prossegue o argumento, ou estas noções representam distinções reais ou meras distinções de razão. Se elas representam distinções reais, então o Pai não é simples, mas composto de várias realidades (o que seria contraditório com sua natureza divina, simples por definição). Se representam distinções de razão, então uma noção deveria poder ser predicada da outra, como quando dizemos que a bondade divina é sua sabedoria. Deveríamos poder dizer, então, que a paternidade divina é sua espiração comum, o que não é, segundo o argumento, adequado de se dizer. E disso ele conclui que não há cinco noções em Deus.
São Tomás responde em dois tempos:
1) Ele começa lembrando que somente a oposição relativa fundamenta uma verdadeira pluralidade em Deus. Assim, a paternidade se opõe à filiação, e portanto há uma diferença real entre a paternidade e a filiação. Mas não há oposição, por exemplo, entre a inascibilidade e a paternidade, já que ser não-nascido não se opõe a ser pai – de fato, o Pai é não-nascido, e portanto as propriedades citadas convivem na mesma pessoa. Há uma distinção de razão entre as duas noções, porque tanto se pode olhar a pessoa do Pai sob a razão de ser ingênito ou sob a razão de ser o gerador do Filho. Mas não há uma distinção real: ambos aspectos são propriedades da mesma pessoa simples do Pai.
2) Em seguida ele ressalta, com muita sutileza e precisão, que mesmo aqueles atributos de razão que caracterizam Deus em sua unidade essencial não são simplesmente predicáveis uns dos outros, embora distingam-se racionalmente, sem distinguir-se realmente. Seria inadequado, diz São Tomás, dizer, por exemplo, que a potência de Deus é sua ciência e vice-versa, porque a razão pela qual conhecemos a ciência de Deus é diversa da razão pela qual conhecemos sua potência e, por isso, os termos não são simplesmente intercambiáveis. Mas isto não significa que, em Deus, ciência e potência não sejam uma só e mesma coisa com a essência divina, cuja simplicidade é absoluta. Analogamente, seria equivocado predicar uma noção de outra, porque a razão pela qual afirmamos a inascibilidade do Pai é diversa da razão pela qual afirmamos sua paternidade. Embora, na realidade mesma, a inascibilidade, a paternidade e a divindade sejam uma só e a mesma coisa.
São Tomás passa, então, a responder aos argumentos sed contra, para podar seus exageros. Enquanto os argumentos objetores iniciais querem provar que há menos de cinco noções, os argumentos sed contra inclinam-se para afirmar que elas são mais de cinco.
O primeiro argumento sed contra (que é o argumento número quatro na contagem geral) afirma que não são somente cinco noções, porque, do mesmo jeito que é necessário afirmar que o pai não procede de outro, através da noção da inascibilidade, seria necessário também afirmar que o Espírito Santo não origina outro, através de uma noção que exprimisse esta ideia. Assim, diz o argumento, não há cinco noções apenas.
São Tomás vai responder que é preciso ter atenção àquilo que está relacionado com a própria dignidade da pessoa, com a sua grandeza mesma, daquilo que é uma discrição pouco importante de uma característica que não se relaciona a esta dignidade intrínseca. Para o Pai, ser ingênito significa ser a fonte originária, o autor, se podemos dizer assim, da Trindade, aquele que não recebe de ninguém aquilo que dá. Mas para o Espírito Santo o fato de que dele nenhuma Pessoa provenha não faz diferença em sua dignidade, eis porque, diz São Tomás, não precisamos de uma noção especificamente para isto.
O quinto e último argumento do debate, que é o segundo argumento sed contra, afirma que, do mesmo modo que a espiração comum é uma noção que reúne Pai e Filho, opondo-os ao espírito Santo, deveríamos ter alguma noção que expressasse o fato de que o Filho e o Espírito Santo têm em comum provirem ambos do Pai. Haveria, pois, para o argumento, a necessidade de pelo menos mais uma noção, além das cinco, para expressar esta ideia.
Mas São Tomás não concorda. A processão é uma noção que tem dois sentidos, diz São Tomás; e um deles é um sentido comum de fato – expressa a ideia de que aquela Pessoa tem sua origem em outra. Mas o modo de processão do Filho é diverso do modo de processão do Espírito, e portanto a ideia comum de processão não tem a força de expressar uma razão, uma noção trinitária, porque lhe falta a especificidade. Realmente, a processão do Espírito Santo, que lhe opõe à espiração comum do Pai e do Filho, é uma ideia especial com relação à processão comum, que exprime apenas o caráter não originário do Filho e do Espírito Santo – ideia que está, já, muito bem fixada pela noção de inascibilidade. Assim, a processão comum não pode ser considerada uma das noções trinitárias de que precisamos para conhecer a imanência divina, porque não expressa nenhuma razão nova e especial que ajude a explicá-la.
Mais um breve artigo e, com fé em Deus, fechamos esta questão.
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