No artigo anterior, discutimos muito a necessidade que nós, humanos, temos, de utilizar noções para compreender a realidade da Trindade e a complexidade dessas relações subsistentes que configuram pessoas.

Agora, resta debater de quantas noções nós precisamos, para compreender e descrever a Trindade. É preciso lembrar que as noções são as relações vistas a partir das suas referências, ou seja, na complexidade das referências que as relações implicam, em Deus. De fato, Pai, Filho e Espírito Santo podem ser compreendidos por nós a partir das referências que fazem uns aos outros em suas relações recíprocas. Estas referências são as razões pelas quais nos referimos à vida intratrinitária, naquilo que os antigos chamavam de “pericorese”, ou seja, a alegria de ser uma pessoa trinitária que é Deus plenamente, e que ama ao outro que também é Deus plenamente. Aquela alegria se expressa numa palavra grega que designava as brincadeiras de roda das crianças de então; é esta mesma alegria que as noções vão exprimir conforme as razões que podemos assimilar na Trindade para compreendê-la e explicá-la. As nossas razões são, portanto, por um lado, fruto da limitação da nossa inteligência para exprimir e designar a riqueza da vida intratrinitária; mas, por outro lado, tem raiz na própria realidade da Trindade. Quantas noções, então, são necessárias para descrever esta realidade?

É interessante notar que, na pedagogia de São Tomás, a hipótese controvertida e os argumentos iniciais (tanto os argumentos objetores quanto os argumentos sed contra) nunca estabelecem os conceitos que estão sendo usados; apenas a resposta sintetizadora o fará. Mas o texto dos argumentos iniciais parecem pressupor que o leitor já conheça os conceitos, porque debate sobre eles abertamente. Aqui, por exemplo, apenas a resposta sintetizadora nos apresentará as cinco noções que estão sendo debatidas. É preciso ter paciência; os conceitos nos serão oportunamente apresentados. Inclusive o próprio conceito de “noção”, debatido no artigo anterior, que será aprofundado aqui.

A hipótese controvertida, aqui, é a de que elas não são cinco; esta é uma proposição interessante, para abrir o debate – porque o artigo já inicia propondo que, de fato, são cinco. Mas São Tomás não quer que admitamos este número cegamente, sem debatermos exaustivamente todos os motivos pelos quais o número de razões, ou seja, de noções, que encontram razão para serem aplicadas a Deus.

São Tomás vai colecionar três argumentos objetores, no sentido da hipótese controvertida, e dois argumentos sed contra. E, de modo interessante, ele vai responder, corrigindo, até mesmo aos argumentos sed contra. Então são dois aspectos peculiares neste artigo: é um dos raros artigos da Suma em que há mais de um argumento sed contra, e um dos raros em que há uma resposta específica para os argumentos sed contra.

O primeiro argumento objetor afirma que as noções são as próprias relações intratrinitárias expressas ao modo abstrato. E o argumento lembra que, em questões anteriores (Q. 28, a. 4), ficou definido que há em Deus quatro relações: Paternidade, filiação, espiração e processão. As duas primeiras opõem o Pai ao Filho, as duas últimas opõem-nos ao Espírito Santo. Assim, conclui o argumento, se são quatro relações, há também quatro noções, e não cinco.

O segundo argumento segue um raciocínio curioso, para tentar levar ao absurdo, ridicularizar, a ideia de que possam existir cinco noções. Ele afirma que, uma vez que é um por essência, Deus é chamado de “uno”. Uma vez que é três em pessoas, ele é chamado de “trino”. Mas se houver cinco razões em Deus, diz o argumento, ele teria de ser chamado de “quino”, o que seria, conclui o argumento, um absurdo. Daí ele conclui que não há cinco razões em Deus.

O terceiro argumento objetor parte da ideia de que, se há cinco noções, então algumas pessoas divinas deveriam caracterizar-se por haver nela mais de uma noção – por exemplo, diz o argumento, no Pai haveria a noção de inascibilidade, de paternidade e a espiração comum. Mas, segue o argumento, se estas noções diferem entre si de modo real, então a pessoa do Pai (bem como qualquer Pessoa divina à qual caiba predicar mais de uma noção) seria composta de várias realidades (o que seria contraditório com a ideia de que Deus é simples, assim como as Pessoas divinas). Por outro lado, diz o argumento, se a diferença entre as noções for apenas de razão, então elas não diferem na realidade, e, do mesmo modo que a diferença entre a bondade de Deus e a sua sabedoria são apenas de razão (de modo que eu posso dizer que a bondade de Deus é sua sabedoria e vice-versa), então seria possível, por exemplo, dizer que a espiração comum é a paternidade e vice-versa, o que, conclui o argumento, seria errado – já que a espiração tem a ver com o Espírito Santo e a paternidade, com o Filho. Logo, conclui o argumento, não há cinco noções na Trindade.

Por fim, os dois argumentos sed contra. O primeiro argumento parte da ideia de que, se, por um lado, o Pai não tem origem em outro (e portanto a ele se aplica a noção de “inascibilidade”), por outro lado o Espírito Santo não origina ninguém. Então, segundo o argumento, seria necessário admitir uma sexta noção, para expressar essa ideia de “não originação” do Espírito Santo. Disso o argumento conclui que as noções não seriam cinco, mas seis.

O segundo argumento sed contra lembra que o Pai e o Filho compartilham entre si a noção de “espiração comum”, porque deles procede o Espírito Santo. E o argumento prossegue, dizendo que o Filho e o Espírito Santo também têm em comum o fato de que procedem, ambos, do Pai. Assim, como há uma noção comum entre o Pai e o Filho, deveria haver uma sexta noção comum entre o Filho e o Espírito Santo.

No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de São Tomás e suas respostas específicas aos argumentos iniciais.