Vimos então como o debate se estabeleceu a respeito da forma humana de conhecer e falar sobre a Trindade, e em especial o uso de noções abstratas para referir-se a elas. Vimos que estas noções são necessárias, especialmente porque as referências, nas pessoas divinas, são múltiplas (o Pai refere-se de modo diverso ao Filho e ao espírito Santo, sem que, com isto, o Pai seja duas pessoas). Assim, as noções são necessárias para que possamos expressar, em cada pessoa, a pluralidade de referências em relações que, sendo reais, não multiplicam, no entanto, as próprias pessoas. Ou seja, embora, de fato, as relações subsistentes sejam a única base, em Deus, para a multiplicidade de pessoas, a pluralidade de referências demonstra que a Pessoa divina tem uma complexidade (para nós) que a sua simplicidade absoluta (em si mesmas) torna difícil de explicar. Eis porque as noções, referidas a Deus, implicam uma descrição verdadeira daquilo que Deus é, mas o fazem a partir das limitações da nossa própria inteligência, e não de alguma “abstração” ou “complexidade” no próprio Deus; lidar com a Revelação, especialmente a Revelação trinitária, portanto, demanda uma enorme humildade – aquela virtude que permite ao ser humano compreender que Deus é Deus, e nós somos outra coisa, criaturas e não deuses.
São Tomás passa a responder aos argumentos objetores iniciais. O primeiro argumento objetor, tirado do [pseudo]-Dionísio, afirma que não deveríamos dizer, sobre Deus, mais do que aquilo que as Escrituras expressam. Ora, diz o argumento, as Escrituras falam sempre de modo concreto, existencial, sobre Deus, e, portanto, seria inadequado usar noções abstratas para referir-nos a ele.
São Tomás reconhece que as Escrituras falam sempre concretamente de Deus; são as Escrituras, porém, diz São Tomás, que nos apresentam as Pessoas divinas, cujas relações, pelas razões explicadas na resposta sintetizadora, levam-nos aos problemas que nos encaminham ao uso de noções abstratas que se tornam necessárias para falar, abstratamente, daquelas mesmas Pessoas em cuja realidade estas noções se inserem.
O segundo argumento objetor tem uma estrutura mais filosófica, mais especificamente lógica, ou melhor, teológica. Ele lembra que a linguagem teológica, quando dirigida a Deus, pode formar proposições atinentes à unidade da essência ou à Trindade das pessoas. Mas as noções, em sua abstração, diz o argumento, não se prestariam nem para formar proposições quanto à unidade da essência (não poderíamos dizer, por exemplo, que a “paternidade”, esta noção abstrata, possa ser sujeito da ação de criar, que é própria da essência divina; não se poderia criar uma proposição “a paternidade cria”, por exemplo); nem, prossegue o argumento, quanto à distinção das pessoas (Tomando o mesmo exemplo da noção de “paternidade”, ou da noção também abstrata de “filiação”, não seria possível, diz o argumento, formar proposições teológicas válidas como “a paternidade gera”, ou “a filiação é gerada”, para fazer referência à distinção das pessoas na Trindade). Assim, o argumento conclui que não é adequado “introduzir noções” em Deus.
A resposta também é dada dentro de um quadro lógico aristotélico-tomista, que precisamos considerar para compreender. De fato, a nossa linguagem pode exprimir os entes como eles existem em si mesmos, e, portanto, exprimem, neste caso, a realidade do próprio ente, como podem exprimir apenas os limites da nossa linguagem para tratar dos próprios entes – como, por exemplo, quando dizemos que “os morcegos são cegos”. A cegueira não é uma “coisa”, mas a privação da visão, que, no caso dos morcegos, não é esperada. Ou seja, quando eu afirmo que “os morcegos são cegos”, falo com razão, e uso um ente de razão (a cegueira) que representa apenas uma construção mental que uso para me referir à realidade, própria dos morcegos, de que, na natureza dos morcegos, a visão não é esperada. Assim, a minha linguagem expressa a razão pela qual eu conheço algo que é verdadeiro quanto aos morcegos, embora, a rigor, não exprima um ente realmente existente neles, senão uma privação – que é, por definição, um ente de razão. Mas de uma razão que tem fundamento na própria realidade da coisa a respeito da qual expressamos este conhecimento.
Feita esta digressão, estudemos agora a resposta de São Tomás. Ele começa explicando que estas noções, que usamos para falar de Deus, representam os limites da mossa linguagem para falar de realidades que a ultrapassam. As próprias noções, portanto, são, a rigor, entes de razão pelos quais expressamos o conhecimento que temos das Pessoas, mas com fundamento na própria realidade divina das relações intratrinitárias – estas, sim, entes reais e não simplesmente de razão. Assim, as noções fazem-nos capazes de exprimir que, embora de fato as relações reais e subsistentes em Deus sejam o único fundamento para a distinção das pessoas, a própria riqueza das referências decorrentes destas mesmas relações levam-nos a precisar das noções para conhecê-las. De fato, cada pessoa, embora distinta pela relação, relaciona-se real e concretamente com mais e uma referência, através de relações reais, sem multiplicar-se como pessoa. O Pai relaciona-se com o Filho na paternidade e com o Espírito Santo na Espiração conjunta do seu amor recíproco com o Filho; mas não há uma pessoa do Pai e uma pessoa do Espirador, conforme o olhemos sob a razão de gerar ou sob a razão de espirar. É a mesma pessoa do Pai que aponta para o filho sob a noção de Paternidade, e para o Espírito sob a noção de Espiração Comum (veremos mais sobre isto no próximo artigo).
Assim, as noções significam as “razões de referência”, e não as próprias relações subsistentes como pessoas que são. Por isto, diz São Tomás, seria inadequado formar proposições que as tenham como sujeito de ações, seja de ações essenciais, seja mesmo de ações ou perfeições pessoais. Quem age é sempre o ente real, concreto, nunca a razão pela qual o conhecemos. Assim, diz São Tomás, não é conveniente dizer que “a paternidade cria”, ou que a paternidade gere, e nem mesmo afirmar que a paternidade é sábia ou inteligente.
Mas, como entes de razão com fundamento na realidade, as noções podem formar proposições que removem de Deus aquilo que é próprio da criatura, mas é inadequado em Deus. (De uma maneira análoga, diríamos, àquela pela qual afirmamos que o morcego é cego, mesmo sabendo que a cegueira não é uma “coisa” no morcego, senão uma característica da sua natureza que, em comparação com naturezas dotadas de visão, manifesta uma privação). De Deus, podemos dizer que é inconveniente pretender medi-lo; a noção de medida é inconveniente à divindade, assim como a noção de morte. Por isto, seria válido, ao fazer referência à Trindade, formar uma proposição como “a paternidade é imensurável”, ou “a paternidade é eterna”.
Também é possível formar proposições em que o substantivo essencial “Deus”, ou os substantivos pessoais “Pai”, “Filho” ou “Espírito” sejam predicados das noções. Assim, diz São Tomás, seria válido dizer que “a paternidade é Deus”, ou mesmo “a paternidade é Pai” e similares.
A terceira objeção também tem este mesmo enfoque filosófico (ou melhor, teológico) de referir a linguagem sobre Deus à sua ontologia (se é que podemos falar assim para nos referir ao próprio modo de ser de Deus).
De fato, sabemos que a estrutura da metafísica de São Tomas admite a existência de seres simples, quer dizer, sem a composição de princípios no seu ser. Se, de fato, nós humanos somos seres materiais, isto significa que somos compostos de um princípio material, que nos individualiza, e um princípio formal, que nos especifica. Mas os seres simples, que são pura forma, não são individualizados pela matéria, mas pelo autoconhecimento de sua forma. Assim, diz o argumento, seria inconveniente pleitear noções abstratas como princípios de conhecimento de seres simples, porque isto faria presumir que eles são compostos de princípios formadores separáveis, e não são simplesmente uma forma que se autoconhece. Ora, diz o argumento, Deus é simples por excelência, e por isto não se pode admitir que haja noções capazes de nos fazer conhecê-lo.
São Tomás faz novamente a distinção entre aquilo que é, ou seja, deus em sua essência infinitamente simples, e o nosso modo de conhecê-lo e expressar este conhecimento, por uma inteligência, como a nossa, capaz apenas de assimilar e expressar de modo composto. Não é inadequado, portanto, para nós, diz São Tomás, expressar por meio de abstrações aquilo que apreendemos como razões em Deus. Deus é simples, uno e Pai, o Pai é gerador e espirador; por isto, podemos falar em “geração” e “espiração” para expressar, ao modo humano e imperfeito, aquilo que nele é perfeito, simples e real.
No próximo artigo trataremos das próprias noções. Para mim, pelo menos, é sempre mais fácil quando falamos do próprio assunto, do que quando, como neste artigo, preparamos, através de uma certa “meta-abordagem”, a inteligibilidade dele. Mas estes preâmbulos de São Tomás são sempre a garantia de que não entendamos errado o que ele tem para nos ensinar.
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